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O veto do tirano: na política linguística de Vargas, alemão, italiano e japonês eram extremamente proibidos

Getúlio, em sua ditadura, empreendeu a uma campanha nacionalista que perseguiu as línguas que não o português. Mas, com o início da Segunda Guerra, a situação se agravou

André Nogueira Publicado em 09/03/2020, às 14h37

O governo de Vargas foi, acima de tudo, nacionalista
O governo de Vargas foi, acima de tudo, nacionalista - Divulgação

Durante o Estado Novo, o Brasil passou por um processo de supervalorização do nacionalismo, movimento encabeçado por Vargas como forma de fortalecimento do centralismo no país, em nome de um Estado Nacional desenvolvido. Nesse processo, nasceu a noção varguista de “crime idiomático”, que atacou principalmente o italiano, o alemão e o japonês.

Esse movimento de nacionalização começou no campo educacional: em 1938, ano seguinte ao golpe do Estado Novo, uma reforma do ensino obrigou todas as escolas do país a ensinarem o português como único idioma. As instituições também foram obrigadas a adotar e propagar apenas nomes de figuras brasileiras. Passou a ser obrigatória a nacionalidade brasileira dos professores, que deveriam ser formados no país.

Também foi vetado qualquer curso de língua estrangeira para menores de 14 anos e instituiu-se o ensino de educação moral e cívica. Isso desembocou na proibição de manifestações pública em línguas que não o português no ano seguinte, designando o Exército como fiscalizador dessa prática, tida como colonização estrangeira.

Vargas, o nacionalista / Crédito: Wikimedia Commons

 

Como consequência, a censura instituída com a ditadura de Vargas passou a restringir a imprensa estrangeira, obrigando as editoras a terem redatores nascidos no Brasil que impediriam a publicação de materiais bilíngues, incentivando o ufanismo. Depois, foi plenamente proibido o lançamento de textos em línguas forasteiras, dando fim a jornais e revistas. Ao mesmo tempo, nomes de ruas, clubes de futebol, lojas e jornais foram pressionados a mudar.

A perseguição aos nativos de outros países foi iniciada com discrição, focando nos judeus, mas a partir de 1942, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, italianos, alemães e japoneses passaram a ser o principal alvo do Estado.

As nacionalidades tiveram seus direitos restringidos, passando a necessitar de uma série de documentos para transitar pelo país. Jornais, revistas e livros que mantinham a memória da imigração foram apreendidos e a prisão de não falantes do português aumentou.

O Estado Brasileiro passou a incentivar a violência contra teuto-brasileiros e imigrantes da Alemanha, Itália e Japão. Muitos deles acabaram em campos de concentração e até igrejas foram atacadas por sua ligação com o legado germânico. Grupos tradicionais italianos foram obrigados a trocarem de identidades e bairros de imigrantes japoneses tiveram sua memória apagada.

Getúlio Vargas em conferência com Franklin Delano Roosevelt, presidente dos EUA, durante a Segunda Guerra / Crédito: Wikimedia Commons

 

A política linguística de Vargas parou de focar nessas três nacionalidades após o fim da guerra, mas a política geral linguística antiestrangeira só foi abolida depois do fim da Ditadura Militar, tempo este em que não fazia mais sentido um retorno à realidade anterior ao Estado Novo. Nenhuma comunidade ou instituição jamais foi anistiada.


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