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Matérias / Arte

A obra de Van Gogh que incomodou um amigo do artista: 'Pode fazer melhor do que isso'

Enquanto o pintor considerou o quadro ‘a melhor coisa’ que fez, não foi poupado de críticas de um colega importante

Isabela Barreiros Publicado em 19/02/2022, às 08h00

“Os Comedores de Batatas” (1885), de Vincent Van Gogh - Divulgação/Van Gogh Museum
“Os Comedores de Batatas” (1885), de Vincent Van Gogh - Divulgação/Van Gogh Museum

A obra “Os Comedores de Batatas”, terminada em 1885 por Vincent Van Gogh, se tornou uma das mais emblemáticas do artista. Retratando uma família de camponeses fazendo uma refeição à mesa de maneira dramática e expressiva, o pintor abusou da intensidade.

Para o próprio artista, aquele foi um dos seus melhores trabalhos. Dois anos depois de finalizar o quadro, enviou uma carta à irmã, Willemina, em que falava sobre a obra, qualificando-a como extremamente importante.

“O que penso sobre o meu próprio trabalho é que a pintura dos camponeses comendo batatas que fiz em Nuenen é, afinal, a melhor coisa que fiz”, escreveu Van Gogh na correspondência.

Na época, porém, “Os Comedores de Batatas” não foi bem recebido. Amigos próximos, familiares e até mesmo compradores se recusaram a apreciar o que Vincent havia feito no quadro, apresentando críticas duras à forma como ele havia retratado os camponeses.

A desaprovação foi quase unânime, ainda que, hoje, o quadro seja comparável a outros icônicos do artista, como os solenes “Quarto em Arles” (1888), “La Berceuse” (1889) e “Girassóis” (1889), somente para citar alguns.

“Quarto em Arles” (1888) de Vincent Van Gogh / Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

Entre os amigos artistas de Van Gogh, a avaliação não foi diferente. Uma das críticas mais conhecidas à pintura veio do pintor Anthon van Rappard, mestre em composições de grupo, era bastante próximo do holandês até os brutais comentários.

Críticas aos Comedores de Batatas

Van Rappard enviou uma carta ao colega pintor em que descrevia os detalhes que não havia gostado na obra, incluindo uma figura “metade do nariz” e “joelho ou barriga ou pulmões”, um braço que estava “um metro curto demais” e outros pontos críticos.

“Você pode fazer melhor do que isso — felizmente; mas por que, então, observar e tratar tudo tão superficialmente?”, escreveu o pintor a Vincent, como relembrou a revista Veja em 2021.

“Por que não estudar os movimentos? Esse trabalho certamente não foi planejado com seriedade. E com tal trabalho atreves-te a invocar os nomes de Millet e Breton? Vamos! A arte é muito importante, parece-me, para ser tratada com tanta arrogância”, acrescentou.

Van Gogh se surpreendeu com o conteúdo da correspondência: além de narrar com minúcia os pontos de crítica, também havia resgatado artistas que admirava. Decidiu responder apenas com uma frase curta, enviada em julho de 1885: “Você não tinha o direito de condenar meu trabalho dessa maneira”.

A amizade entre os dois pintores acabou naquela troca de cartas, mas a saga de Van Gogh com “Os Comedores de Batatas” ainda não havia terminado. Embora acreditasse que aquele era de fato um dos seus melhores trabalhos, teve vontade de refazê-lo.

“Estou pensando em refazer a pintura dos camponeses jantando sob efeito da luz da lâmpada”, escreveu o pintor em uma carta na época. “Essa tela deve estar completamente escura agora, talvez eu possa refazê-la inteiramente por memória.”

Foi quando o artista começou a desenvolver esboços para uma nova pintura da mesma temática, que não chegou a ser terminada. Na mesma época, Vincent começou a sofrer tempestuosamente com sua saúde mental e teve crises persistentes; inclui-se o episódio em que ele chegou a cortar parte da orelha esquerda, em dezembro de 1888.

"Autorretrato com Orelha Enfaixada" (1889) de Van Gogh / Crédito: Domínio Público, via Wikimedia Commons

Com o passar do tempo, já no asilo Saint-Rémy-de-Provence, começou a trabalhar no projeto, quando pediu à mãe e ao irmão os esboços do quadro para que pudesse refazê-lo. É o que explica a curadora da exposição, “The Potato Eaters: Mistake or Masterpiece?” (“Os comedores de batatas: erro ou obra-prima”, em tradução direta), Bregje Gerritse.

“Em 1890, ele está em Saint-Rémy e tem saudades do norte, porque não vai para casa há cinco anos. Ele volta às figuras dos Comedores de Batata e começa a desenhar os interiores e as figuras à mesa, e alguns desses desenhos não estão em exibição há tanto tempo que nossos registros sugerem que nunca foram exibidos”, explicou ao The Guardian.

Ele cometeu suicídio antes de terminar a segunda versão, em 29 de julho de 1890. Mas as peças preparatórias se tornaram parte do acervo que deu origem à mostra que ainda está em exposição no Van Gogh Museum, em Amsterdã.

No passado, a obra não chegou a ser vendida e nem fez parte de nenhuma exposição: ficou apenas pendurado acima da lareira no apartamento parisiense do irmão, Theo. Agora, é considerado um dos quadros mais subestimados de Van Gogh e integra uma coleção de 50 pinturas, esboços e cartas que mostram sua importância.

“Ele diz que há vida nisso, mesmo que haja erros técnicos. A perfeição técnica não é o que ele busca, mas a impressão que transmite sobre a vida no campo”, afirma Gerritse sobre a pintura.


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