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Oposição ao realismo socialista: conheça a obra 'Branco sobre Branco'

A obra de Kazimir Malevich, terminada em 1918, reflete a percepção do artista do momento em que foi finalizada

Paola Orlovas, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 17/11/2021, às 15h33

Parte do quadro "Branco sobre Branco", finalizado por Kazimir Malevich em 1918
Parte do quadro "Branco sobre Branco", finalizado por Kazimir Malevich em 1918 - Domínio Público

O ano era 1918 e a Revolução Russa havia acabado de acontecer, dando fim ao absolutismo czarista e colocando Lenin no poder apenas um ano antes.

Paralelamente, um grande nome do suprematismo russo terminava de pintar um quadro polêmico, que receberia elogios, mas também seria, em grande parte, alvo de críticas da imprensa, de figuras do governo e até mesmo de outros artistas, que não enxergariam sua obra como arte. 

Soldados armados carregam uma bandeira que diz "Comunismo", em 1917
Soldados armados carregam uma bandeira que diz "Comunismo", em 1917 /  Crédito: Wikimedia Commons

 

Trata-se da pintura “Branco Sobre Branco”, de Kazimir Malevich, que se tornaria um símbolo abstrato — condizente com o resto do movimento suprematista, que utilizava de formas geométricas alheias para criar suas composições —  do rompimento completo com a arte figurativa, essa que, ao buscar representar os seres humanos e os objetos de forma oposta ao abstratismo, serviu de inspiração para o realismo socialista, estabelecido ao longo do inicio do século 20 por toda a União Soviética, com o intuito de criar uma representação do povo para o povo, de fácil compreensão, sem contar com significados profundos, sendo estampada em cartazes, por exemplo.

Para entender o quadro, os valores e a obra de Malevich como um todo, no entanto, é preciso enxergar sua vivência e o contexto histórico em que ele estava inserido, uma vez que o artista também foi fruto de seu tempo. 

Kazimir Severinovich Malevich nasceu em 1879, perto de Kyiv, na Ucrânia, ainda dentro do Império Russo, com origens polacas e ucranianas. Aos 25, após a morte de seu pai, se muda para Moscou, onde passou a estudar Pintura, Escultura e Arquitetura com e Fedor Rerberg, seu mentor.

A partir de então, participou de diversas exposições coletivas de jovens artistas, onde conheceu figuras importantes, como Vladimir Tatlin, e começou a ganhar experiência dentro do âmbito artístico.

Kazimir Malevich
Kazimir Malevich / Crédito: Wikimedia Commons

 

Com o tempo, Kazimir se estabeleceu como um grande nome da vanguarda artística russa, e estabeleceu sua visão ainda mais ao criar o movimento suprematista. Sendo enxergado como um dos inventores da arte não figurativa, ao lado do modernista neerlandês Piet Mondrian e do bauhausiano russo Wassily Kandinsky, sua vontade era romper com a arte realista, para dar espaço ao abstrato, usando de formas geométricas, como quadrados, círculos, retângulos e triângulos coloridos.

A arte supremacista, segundo o Museu de Arte Moderna de Nova York, seria descrita pelo próprio artista como “a supremacia do sentimento puro ou da percepção dentro representação visual”, e era enxergada por Malevich como forma de refletir de forma abstrata sobre o que se dava dentro da nossa realidade, que ocorre no mundo material. 

Sua obra “Branco sobre Branco”, finalizada em 1918 e feita dentro de uma série iniciada em 1916, não foge desse princípio, buscando representar, por meio do uso de dois tons diferentes de branco que não se tocam.

Além de texturas diversas, noções como o infinito, a utopia e a pureza, que se manifestam junto com um senso de liberdade e esperança não apenas artística, mas também social e política, adquirido pelo artista após o fim do czarismo. 

Branco sobre Branco, de Kazimir Malevich, 1918
Branco sobre Branco, de Kazimir Malevich, 1918 / Crédito: Domínio Público

 

Com o quadro, Malevich deixa para trás, mais uma vez, o figurativismo e todas as suas tradições, fazendo com que uma forma monocromática domine o quadro, sem dar espaço para análises a partir de conceitos como profundidade e volume, ao criar uma peça única. 

Sua aparência simplista pode até enganar de início, mas o quadro, que propositalmente não se conecta ao tempo ou ao espaço, carrega significado, e pode também ser visto como oposição ao realismo socialista, que logo se estabeleceria. 

Lenin e outros líderes soviéticos, desde o início, viram a arte como uma forma de se comunicar com o povo, em grande parte pobre e analfabeto. Esse meio, no entanto, passou a ser fiscalizado e vigiado.

O espaço que os artistas haviam tomado logo seria ocupado pelo realismo socialista, movimento que refletia o pensamento do Partido no início do século 20, de que os soviéticos, assim como os líderes do partido, deviam ser pintados como heróis, em uma linguagem dada como “factual” e com pouco espaço para a abstração e imaginação dos artistas que a executavam.

Obra de Isaak Brodsky, pintor realista, que retrata um discurso feito por Lênin em 1920
Obra de 1933, feita por Isaak Brodsky, realista, que retrata um discurso feito por Lênin em 1920 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Foi então que os quadros do artista, como “Branco sobre Branco”, deixaram de agradar o regime, e Malevich passou a ser restringido por não fazer concessões.

Em março de 1927, nove anos depois de finalizar a criticada pintura com diferentes tons de branco, o suprematista deixou o país com mais de 100 obras, e ao voltar foi alvo de grandes questionamentos por parte das autoridades.

Deixando a arte abstrata de lado após ser demitido do Instituto de História da Arte de Leningrado dois anos depois, em 1929, retratou paisagens até ser diagnosticado com câncer, e após ter um pedido para fazer o tratamento da doença em Paris negado, morreu em 1935.