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Ordem de Malta: A soberana irmandade de monges-guerreiros

De origens que remontam às Cruzadas, a irmandade controla atualmente a menor nação do planeta. E segue com a missão milenar de ajudar vítimas de conflitos e desastres em mais de 120 países

Carlo Cauti Publicado em 20/09/2019, às 09h00

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- Crédito: Reprodução

Siyah şeytanlar. Era assim – os demônios de preto – que os soldados otomanos chamavam os cavaleiros da Ordem de Malta, uma irmandade de monges-guerreiros vestidos de preto e famosos pela habilidade em batalha (e pela sobrevivência) após um milênio de guerras, intrigas, fugas e perseguições.

No passado, a Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta (esse é o nome oficial da organização) era formada por clérigos nobres cavaleiros – que antecipariam o atual movimento internacional da Cruz Vermelha.

Hoje, a ex-potência militar de tradição aristocrática controla um Estado soberano e sem território, com apenas alguns palácios em Roma, e segue católica, fiel ao papa. Porém, sua força está nas relações diplomáticas que a irmandade mantém com mais de 120 países pelo mundo (católicos ou não), tendo representação inclusive na Organização das Nações Unidas, como Observadora Permanente. A Ordem de Malta, a mais antiga instituição humanitária do planeta, tem uma história com diversos capítulos fascinantes. A começar pelo nome.

Os Cavaleiros Hospitalários

Seus membros, que hoje são chamados de Cavaleiros de Malta, surgiram como os Cavaleiros Hospitalários. Depois, se tornaram os Joanitas, Hierosolimitanos, Rodes e apenas a Religião. Mudanças de nome geradas pelas peripécias geográficas que a Ordem enfrentou no decorrer dos séculos.

Tudo começou na Alta Idade Média, justamente no tempo em que surgiam outras ordens monástico-militares. Seu fundador, o monge italiano Gerardo Sasso, e mercantes da república marinara de Amalfi, na Itália (que dominava o Mediterrâneo oriental na época), obtiveram do califa do Egito a autorização para construir um hospital para forasteiros e peregrinos em Jerusalém, dedicado a São João Batista, o futuro patrono da Ordem.

Com o início da Primeira Cruzada (1096-1099), aquela obra de caridade na Terra Santa passou a atrair cada vez mais adesões entre os “soldados de Cristo”, que chegavam à região para lutar contra os muçulmanos. Até que, em 1113, uma declaração oficial do papa Pascoal II autorizava a criação formal da Ordem Religiosa de São João, em Jerusalém – uma congregação independente das autoridades eclesiásticas locais que se tornaria o primeiro exemplo de organização internacional de beneficência e caridade.

Crédito: Reprodução

 

“Os membros da Ordem precisavam fazer voto de pobreza, castidade e obediência, e tinham duas missões: defender a fé cristã na Terra Santa, contra os muçulmanos, e ajudar os peregrinos construindo hospitais. Essa segunda era a missão principal. Por isso, ficou conhecida como a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários”, explica o professor Charles Dalli, historiador da Universidade de Malta.

Como símbolo da nova instituição, foi escolhida a cruz de oito pontas de Amalfi, que representava as oito beatitudes evangélicas do “Discurso da Montanha” de Jesus. E como lema, a frase em latim Tuitio Fidei et Obsequium Pauperum, cuja tradução é “defesa da fé e serviço aos pobres”.

Logo, o segundo grão-mestre hospitalário, o cavaleiro francês Raymond du Puy, general do lendário rei de Jerusalém Godofredo de Bulhão, dividiu a Ordem em três classes: religiosos, trabalhadores e combatentes – o que espelhava, aliás, as três classes sociais da Idade Média. “Os Hospitalários começaram a se estruturar, obtendo doações de europeus ricos, ganhando terras enormes e melhorando suas capacidades de combate.

Com isso, se espalharam por toda a Terra Santa, permanecendo por mais de 200 anos nos Reinados Cruzados de Além-Mar”, diz Emanuel Buttigieg, historiador e professor, também da Universidade de Malta. Segundo ele, esses monges-guerreiros foram os protagonistas de épicas batalhas e de brilhantes negociações diplomáticas. “Criaram o primeiro sistema de saúde pública da história, até para quem não era cristão.”

Do outro lado do Mar Mediterrâneo, em Roma, os papas olhavam com atenção para a Ordem, mantendo seus membros sempre em consideração: ao longo dos séculos, a Igreja concedia isenções e privilégios à Ordem, incrementando suas riquezas (a prática de captar recursos entre os reinos cristãos do Ocidente já era levada com habilidade pelos cavaleiros em toda a Europa).

A Ordem se tornou muito rica e conseguiu expandir suas atividades por todo o continente, criando uma rede de representações diplomáticas (chamadas de Comendas), que também administravam bens e posses. Entretanto, em 1291, a epopeia cruzada terminou. A última resistência cristã na Terra Santa foi em São João de Acre, onde os Cavaleiros Hospitalários, juntos dos Templários e dos Teutônicos, lutaram pela última vez lado a lado contra os muçulmanos. Perdendo a batalha.

O Ocidente recuava e um pequeno grupo de diabos negros se refugiou na Ilha de Chipre. Tal mudança gerou a primeira tormenta na instituição: sem a Terra Santa para defender, as ordens cavalheirescas entraram em crise de identidade, e os monges-guerreiros Hospitalários tiveram de se reinventar. Com tantas riquezas acumuladas, mas nenhum objetivo para justificá-las, o risco mais provável era de que a Ordem fosse suprimida.

Justamente o que aconteceu, de forma sangrenta, com os Templários, a mais rica entre todas as ordens religiosas de cavalaria. “Mas, diferentemente dos Hospitalários (que ajudavam os peregrinos), os Templários tinham apenas uma missão: lutar contra os islâmicos. Quando os cristãos foram embora da Terra Santa, eles se encontraram sem um objetivo e com muitas riquezas”, afirma Dalli. Um alvo fácil para reis com as contas públicas quebradas, como Filipe IV, da França.

Rota para Rodes

A nova ocasião para aventuras chegou em 1306, quando o genovês Vignolo de' Vignoli propôs à Ordem conquistar o arquipélago Dodecaneso, ocupado pelos turcos. Os Hospitalários aceitaram e atacaram a ilha de Rodes. O sucesso da operação gerou um novo objetivo para os cavaleiros: a defesa da cristandade no mar. Em dois séculos na ilha, a Ordem se tornou uma potência naval contra os turcos e um grande alívio para a Igreja Católica.

Cavaleiros / Crédito: Reprodução

 

“Os cavaleiros se estruturaram na ilha como uma nação soberana governada pelo grão-mestre, príncipe de Rodes, e pelo Conselho, que cunhavam moedas, reorganizaram suas próprias Forças Armadas e mantiveram relações diplomáticas com outras nações. Algo que continuará ao longo dos séculos seguintes”, diz Buttigieg.

“E, para manter a tradição, construíram um hospital na ilha. Além disso, voltaram a ter uma missão: lutar contra os turcos. De força militar terrestre, os cavaleiros, então, criaram uma grande frota naval, muito bem treinada. E devastaram todo o litoral sul da Turquia, atrasando muito o avanço islâmico no Mediterrâneo. Isso ajudou os reinos cristãos da Europa Ocidental.”

A mudança também se deu em termos de imagem: muitos filhos menores de nobres famílias europeias, que, por tradição, teriam sido forçados a seguir uma vida monástica para não arruinar o patrimônio familiar, se tornaram guerreiros sob as insígnias dos Hospitalários. Isso fez da Ordem uma confraria de nobres europeus, aumentando seu status social e reconhecimento internacional.

Com todo esse cosmopolitismo, em 1319, a Ordem se organizou na base das regiões de proveniência e dos idiomas falados por seus cavaleiros. Surgiram assim as línguas, os oito grupos estruturados em: grão-priorados, baliados e comendas. Cada língua tinha como chefe um representante (Peleiro) com direito a um cargo no governo – mais um resultado inédito para os cavaleiros, que se tornaram, assim, a primeira organização internacional com bases europeias.

Avanço dos turcos

Eis que surge um desafio: a queda de Constantinopla, em 1453. Um choque para todo o mundo cristão. O Império Otomano estava pronto para invadir a Europa inteira e viu na ilha de Rodes uma entrada suculenta, iniciando um ataque sob a liderança do sultão Maomé II, em 1480, com dezenas de milhares de homens e centenas de navios, um dos maiores cercos jamais realizados. Porém, mesmo em forte desvantagem numérica, os Cavaleiros Hospitalários resistiram, forçando os turcos a se retirar. Parecia milagre.

A Europa festejou, mas não enviou sequer um homem ou navio para ajudar os cavaleiros. Com isso, os otomanos tentaram nova investida em 1503. Mas fracassaram de novo. Já em 1522, sob a liderança de Solimão, o Magnífico, e após seis meses de confronto, a situação se tornou insustentável para a Ordem. Só que os cavaleiros, habilidosos na diplomacia, conseguiram negociar sua rendição com os turcos, mantendo a honra das armas e o compromisso de poupar a vida das populações de Rodes. Era o início do segundo exílio da Ordem.

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Seus membros, protegidos pelo papa Adriano VI, iniciaram a busca de uma nova sede, abrindo uma difícil negociação com o imperador Carlos V. O soberano do Sagrado Império Romano e do Império Espanhol estava até disposto a conceder uma ilha aos cavaleiros. Entretanto, pretendia que o grão-mestre Philippe Villiers de l’Isle-Adam lhe jurasse fidelidade eterna.

Um ato contrário à tradição de independência supranacional da Ordem. Parecia que a conversa estava destinada ao fracasso, no entanto, mais uma vez, a lendária diplomacia dos cavaleiros conseguiu um acordo. Em 1530, em troca do presente simbólico de um falcão, que representava a submissão da Ordem ao Império, foi concedida aos cavaleiros a ilha de Malta. Uma pequena rocha no meio do Mar Mediterrâneo, árida, pobre, mas estratégica.

Foi lá que os nobres monges-guerreiros puderam recomeçar. E transformaram a ilha de Malta em sua fortaleza, aumentaram a potência de sua frota naval, se prepararam para lutar de novo contra os turcos e assumiram um novo nome: os Cavaleiros de Malta.

Bastião da cristandade

Enquanto isso, o sultão Solimão estava mobilizando seu grande império para atacar a Roma dos papas. E mais uma vez os cavaleiros Hospitalários se opuseram às miras dos otomanos. Liderados pelo 49° grão-mestre, Jean de La Vallette, em maio de 1565, a Ordem enfrentou o chamado Grande Cerco de Malta: era a chegada de 40 mil homens e de 500 navios turcos cercando a ilha para lutar contra apenas 7 mil cavaleiros e tropas auxiliares. A batalha durou até setembro e, contra qualquer previsão, os Cavaleiros de Malta tiveram uma grande vitória.

“Os turcos ficaram tão irritados pela obstinação demonstrada pelos cavaleiros que decidiram pregar os prisioneiros em cruzes de madeira e deixá-las boiando no mar. O grão-mestre La Vallette respondeu mandando decapitar os prisioneiros turcos e atirar suas cabeças por canhões contra o acampamento inimigo”, conta Buttigieg.

A defesa de Malta deu aos reinos cristãos do Ocidente o tempo de se preparar e, em 1571, ocorreu o confronto final com os turcos, em Lepanto, na batalha naval que decidiu o destino da Europa. A frota da Ordem de Malta participou do combate. Mas, antes de as frotas ocidentais chegarem à costa da Grécia para enfrentar os otomanos, La Vallete já havia dado sua contribuição à cristandade: o líder militar ordenou seus espiões infiltrados em Constantinopla a incendiar o arsenal turco, destruindo boa parte da frota inimiga – e garantindo a vitória dos cristãos.

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Graças a esse triunfo militar, o futuro parecia tranquilo e próspero para a Ordem. A gratidão para La Vallette foi tamanha que a nova capital de Malta foi chamada de Valletta. O local, além de se tornar uma poderosa fortaleza, atraiu os mais importantes arquitetos e artistas da época, que transformaram a cidade na pérola do Mediterrâneo.

Chegada de Napoleão

Até que, em pouco mais de dois séculos, a calmaria na Ordem de Malta deu lugar a uma nova tormenta: Napoleão Bonaparte, que conquistou a ilha em junho de 1798, sem disparar um único tiro. Os cavaleiros tinham como regra não lutar contra os cristãos e não opuseram resistência, ficando mais uma vez sem pátria, sem exército e empobrecidos.

Quem os acolheu desta vez foi um aliado tão inesperado quanto polêmico: o instável czar da Rússia, Paulo I, que conseguiu se eleger grão-mestre mesmo sem a aprovação do papa. A decisão gerou estranheza, já que ele não era católico, mas ortodoxo, além de ser casado e ter filhos. O que explica é que o russo era obcecado pelos ideais românticos da cavalaria medieval – a ponto de mandar pintar em todos os seus retratos oficiais uma decoração no estilo maltês e criar um patriarcado ortodoxo da Ordem exclusivamente dedicado aos nobres russos.

O período na Rússia foi o mais improvável para os Cavaleiros de Malta. O apoio do czar, entretanto, foi o que salvou a instituição.

Quando, em 1801, Paulo I foi assassinado, seu filho Alexandre I renunciou a qualquer prerrogativa sobre a Ordem, que voltou a ser livre. Até que, em 1834, foi acolhida pelo Vaticano, que lhe concedeu a soberania sobre alguns edifícios no centro da cidade, como o Palácio Magistrale, em Via Condotti, e a Vila Magistrale, na colina do Aventino.

Com isso, a Ordem manteve as vantagens de um Estado soberano, com ordenamento jurídico próprio e a permissão de imprimir selos e conceder passaportes, mesmo sem território e fronteira. “E então os cavaleiros voltaram para suas raízes: uma ordem religiosa, cujo objetivo é criar hospitais para peregrinos. Os privilégios concedidos pelo papa foram utilizados para criar uma nova e poderosa força humanitária internacional”, explica o professor Dalli.

E novos desafios não faltaram para os trens-hospitais dos cavaleiros, que salvaram centenas de milhares de vítimas do grande terremoto de Messina, em 1908, das duas guerras mundiais e de tantos outros conflitos armados e desastres naturais. Hoje, a Ordem de Malta mantém cerca de 12.500 membros espalhados por todo o planeta, sempre operando em nome da caridade cristã.