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Orgulho LGBTQI+: Conheça 10 grandes nomes da luta por direitos e representatividade desses grupos

Músicos, jornalistas e militantes: muitos são os nomes esquecidos que lutaram pelos homossexuais, trans e pela igualdade

André Nogueira Publicado em 26/06/2019, às 08h00 - Atualizado às 12h00

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- Crédito: Reprodução

1. Madame Satã

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Madame Satã era o nome artístico de João Francisco dos Santos, transformista nascido em Glória do Goitá, Pernambuco. Ele foi uma das mais importantes figuras conhecidas do mundo LGBT e grande personagem da vida noturna carioca no início do século 20. João migrou de Pernambuco para o Rio de Janeiro aos 13 anos e viveu na rua até conseguir seu primeiro emprego como mascate.

No entanto, boa parte de sua vida ocorreu na marginalidade - em diversas momentos, ele foi preso ou processado. O apelido de sua persona apareceu em 1938, num Carnaval em que ele desfilou com uma fantasia dourada em forma de morcego e venceu o concurso do evento. Durante a noite, foi levado a uma delegacia, onde se recusou a dizer seu nome. Então, o delegado o apelidou: Madame Satã.

2. Cazuza

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Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza, foi um grande ícone para os bissexuais. Em diversas de suas músicas, ele expôs as dores e confusões de viver numa sociedade que não aceita a diversidade sexual e os obstáculos vividos devido à bissexualidade. O cantor começou sua carreira no Barão Vermelho, onde era vocalista e principal compositor de letras.

Seguindo carreira solo, que foi meteórica, ele consolidou sua persona de homem rebelde e boêmio, muitas vezes afrontoso. Músicas como Por Que a Gente é Assim?, Só as Mães são Felizes, Quarta-Feira, Guerra Civil, Como já Dizia Djavan (Dois homens apaixonados), Problema Moral e Quero Ele, tratam não somente da própria bissexualidade de Cazuza, mas também de diversas posições no espectro LGBT. Em 1989, o astro declarou que tinha contraído o vírus da AIDS, morrendo no ano seguinte.

3. Cássia Eller

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Apesar de ser conhecida pelos relacionamentos homoafetivos, Cássia Eller era abertamente bissexual. E 1990, se tornou, ícone da comunidade musical LGBT. Ficou muito famosa pela sua imagem desconstruída, com calça comprida, cabelo curto e jeito durão. Não a toa, sua obra mais conhecida representa o seu jeito: Malandragem.

Enquanto viva, Cássia teve um filho, Chicão, devido um relacionamento casual com Tavinho Fialho. Ela criou a criança ao lado de sua companheira, Maria Eugenia Vieira, com quem sempre quis construir família. Mulher e LGBT, Cássia sofreu preconceitos diversos na vida, mas sua posição sempre foi a de se manter em pé, mantendo presença no palco e nas ruas.

Sua preferência, inclusive, eram os discos gravados ao vivo em palco. Grande intérprete, Cássia eternizou a música As Gatas Extraordinárias de Caetano Veloso, quando jogou na cara de todos o seu lado lésbico.

4. Waldirene Nogueira

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Em 1971, pela primeira vez no Brasil, uma pessoa passou por uma cirurgia genital que construía um corpo condizente com sua identidade de gênero. Era Waldirene Nogueira. Completamente consentida por Waldirene, a cirurgia foi um sucesso. Porém, em 1976, o Ministério Público de SP descobriu o caso e denunciou o médico responsável, Roberto Farina, por lesão corporal gravíssima.

Waldirene foi considerada vítima cujo bem físico, tutelado pelo Estado, teria sido alienado contra a lei. Quando encaminhada para o IML, para análise do corpo e foi, de maneira bastante abusiva, vistoriada. Os médicos viam o procedimento de Waldirene como uma aberração. No entanto, o laudo do IML não podia ser diferente: declarou Waldirene mulher, pela característica biológica.

5. João Antônio Mascarenhas

Crédito: Wikimedia commons

 

J. A. Mascarenhas foi um importante ativista social, envolvido no início das mobilizações organizadas pela luta dos Direitos Humanos no Brasil, os direitos civis e à igualdade dos homossexuais. Mascarenhas agia como advogado e intérprete, além de refletir sobre a questão da sexualidade no país.

Ele fundou o jornal O Lampião da Esquina, em que havia espaço para divulgação de conteúdos de entretenimento, reflexão e política para a comunidade gay do Rio de Janeiro. Uma de suas principais polêmicas envolveu o fato de que era muito critico à objetificação da mulher como fetiche performativo, como o forjamento de vozes finas e gestos pelos gays em que se imita de modo caricatural a performance feminina (para ele, isso era não aceitar a sexualidade de modo naturalizado e reforçava a noção da mulher como ente de segunda classe).

Em 1977, ganhou destaque novamente por receber o editor Winston Leyland, da revista californiana Gay Sunshine Press, com que discutiu possibilidades de pesquisas conjuntas sobre a vida social da comunidade LGBT brasileira. Com o encontro, diversas ações em prol dos direitos dos homossexuais foram deliberadas como forma de militância, fazendo de Mascarenhas um dos fundadores do Movimento Homossexual Brasileiro.

6. Marielle Franco

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Marielle Franco foi uma importante vereadora carioca que dedicou boa parte de sua vida à melhoria e à assistência a membros da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Nesta área, ganhou destaque acadêmico, por seu trabalho na área de sociologia, e político, na Câmara Legislativa. Marielle era bissexual assumida e casada com Mônica Benício, com quem morava e criava uma filha.

Ela fazia questão de reafirmar suas origens periféricas, como cria da Maré. Muitos grupos a consideravam, junto a Jean Wyllys, a figura LGBT mais influente da política brasileira, sendo Marielle uma mulher negra bissexual (num relacionamento lésbico) e singular na esquerda brasileira, por seu trabalho com a corporação policial.

No dia 14 de maio de 2018, Marielle foi assassinada por milicianos com 4 tiros, junto ao seu motorista Anderson Pedro Gomes, num crime que chocou o país. Até agora, as investigações em relação ao assassinato não chegaram a uma conclusão. 

7. Rosely Roth

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Rosely foi uma pioneira do Movimento Lésbico no Brasil. Filósofa e antropóloga, ela se especializou na questão da sexualidade na vivência pessoal. Em 1981, iniciou sua militância no Grupo Lésbico Feminista e no SOS Mulher. No mesmo ano, fundou o Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF), em São Paulo.

Durante toda sua vida adulta, se dedicou à luta pelos direito LGBT e pela representatividade lésbica, participando e liderando diversas manifestações e atos públicos. Foi uma das cabeças do Caso Ferro’s Bar, considerado o Stonewall brasileiro.

A comunidade LGBT ainda tem grande admiração por Rosely Roth: sua ação política é considerada de grande relevância pela visibilidade gerada na grande mídia às questões levantada por ela. Rosely passou por muitos problemas emocionais e em 19 de agosto de 1990, cometeu suicídio: desde 2003, a data é considerada Dia Nacional do Orgulho Lésbico.

8. Míriam Martinho

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Miriam Martinho é uma letrista, tradutora e pioneira do Feminismo Lésbico brasileiro. Participou da fundação do Grupo Lésbico-Feminista e, junto a Rosely Roth, fundou o GALF. Envolvida com a imprensa, ela concebeu e produziu o jornal Chana-com-chana, que retratava a questão do lesbianismo nos anos 1980.

Ela também comandou a revista e o Instituto Um Outro Olhar, primeiro grupo no Brasil dedicado ao cuidade da saúde da mulher lésbica. E participou do Caso Ferro’s Bar. Hoje, é atuante nos movimentos pró Direitos Humanos e participa como editora de sites do Movimento Lésbico atuantes no Brasil.

9. Anderson Herzer

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Andreson Herzog foi um poeta, que ficou conhecido após atuar como funcionário do gabinete de Eduardo Suplicy em 1979. Nascido com o nome Sandra Mara Herzog, ele teve, desde cedo, muitos conflitos com a própria sexualidade, incialmente se declarando homossexual e, depois, transexual.

Como escritor, foi responsável pela produção da obra A Queda para o Alto, reconhecido até por Leonardo Boff. Escreveu o livro durante sua passagem pela FEBEM, onde entrou por consumo de drogas recreativas e abuso de álcool, que já eram frequentes quando era um jovem briguento na escola.

Anderson retomou sua vida livre com Suplicy. Entretanto, traumatizado, ele se suicidou ao se atirar de um viaduto em 1982. Apesar de não se destacar na militância, Anderson acabou expondo a realidade dos transexuais e os conflitos causados pela sociedade em relação ao tema.

10. Telma Lipp

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Telma Lipp foi uma modelo e atriz que ganhou destaque nacional. Sendo transexual, Lipp foi considerada uma das mulheres mais belas do Brasil, junto a Xuxa Meneghel e Luiza Brunet, atingindo o status de musa (quebrando diversas barreiras de sua época). Na televisão, foi jurada do quadro Eles e Elas, que expunha shows de drags e transformistas, além de ter participado de diversos filmes e séries.

Telma sofria com síndrome do pânico, o que a levou ao abuso de drogas e a busca pelo isolamento. Em 2004, decidiu cortar os cabelos e retirar o silicone para cair no anonimato. Ela morreu no mesmo ano, de insuficiência pulmonar.