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Os 12 maiores enigmas da Bíblia

Teorias sobre o Judaísmo e o Cristianismo levantadas por arqueólogos, historiadores e teólogos, sobre as quais não há consenso

domingo 25 março, 2018
Conheça o que esta por trás das perguntas sem respostas
Conheça o que esta por trás das perguntas sem respostas Foto:Shutterstock

A Bíblia já foi considerada um documento histórico exato. Se estava escrito lá, acontecera. Além do óbvio temor de provocar uma Igreja que não gostava de ver suas bases chacoalhadas, não é como se houvesse muita opção: não há outros livros contando a história mais antiga dos judeus. Até bem tarde em sua história, quando foram conquistados por gregos e romanos, quase nada foi escrito sobre eles.

A arqueologia e a ciência vêm mudando isso. E as novas informações muitas vezes levantam mais dúvidas que soluções. Não é mais apenas o Velho Testamento a dizer algo sobre os hebreus, mas também estudos linguísticos, de DNA e menções raras entre os egípcios. 

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A seguir, as discussões mais acaloradas sobre temas judaico-cristãos, com a posição bíblica, a parte problemática e, em alguns acasos, a contestação da contestação. Por não apenas arqueólogos, historiadores e estudiosos bíblicos, com ou sem religião, como teólogos. 

1. Quem eram os hebreus?

A viagem de Abraão József Molnár

Ainda que o uso popular misture judeu, hebreu e israelita, falamos aqui nos hebreus como os historiadores os definem, os ancestrais dos judeus em sua fase nômade, do chamado de Abraão até a conquista de Canaã pelo heroico Josué, descritos no Pentateuco (Torah, para os judeus), os cinco primeiros livros da Bíblia.

Se episódios milagrosos como a abertura do Mar Vermelho, o Sol parando no céu e a queda dos muros de Jericó por trombetas não são vistos literalmente, os judeus têm que ter vindo de algum lugar. Hebreus não podem ser uma alegoria.

No Pentateuco, seu status como invasores é definidor da própria identidade: os cananeus, os pagãos que conquistaram e aniquilaram, celebravam deuses macabros como o touro Moloch, para o qual recém-nascidos eram atirados ao fogo. Os hebreus tomaram suas terras com a divina ajuda e a mando do deus único Yahweh.

Mas provavelmente não foi assim tão preto e branco como está na Bíblia, nem os hebreus vinham de tão longe. O problema é que não há qualquer vestígio arqueológico desse povo ou dessa conquista. Não há aparentemente nada nos textos egípcios sobre escravos hebreus, as pragas, ou, menos ainda, o mar se abrindo. A primeira referência sólida aos israelitas está na Estela de Merneptá, de 1208 a.C., que afirma que "Israel foi deixada em ruínas e sua semente não mais existe".

Há outro indício interessante: dois séculos antes, no reino do faraó Amenhotep III, os egípcios haviam mencionado certos "shasu de Yhw". Shasu quer dizer "beduíno". Eles não viviam em Israel, mas em Edon e Moab, ao sul.

E, Yahweh, de fato, foi cultuado exclusivamente pelos israelitas. Os shasu levaram seu deus para o norte, em conquistas mais lentas que a da Bíblia, e ao mesmo tempo se mesclando com os cananeus que já estavam lá. E isso transformou esses cananeus.

"O crescente consenso entre os arqueólogos é que, no início, a maioria dos israelitas era cananeia", diz Robert Gnuse, professor de Velho Testamento na Universidade de Loyola, EUA. O arqueólogo Israel Finkelstein, da Universidade de Tel-Aviv, comenta a parte militar: "Foi uma conquista lenta, levada a cabo por tribos que provocavam guerras regionais entre 1200 e 1000 a.C. Os líderes militares de gerações diferentes provavelmente foram reunidos sob um único nome, Josué".

2. Eram os israelitas politeístas?

Asherah em alto-relevo cananeu British Museum

Os israelitas tinham um deus que só eles seguiram. Mas isso não quer dizer que esse foi seu único deus desde o começo.

A própria Bíblia deixa claro que muitas vezes o povo escolhido traiu a seu deus por outros deuses. O próprio rei Salomão terminou a vida criando templos a deuses cananeus: Quemós e o infame Moloque (1 Reis 11:7).

Mas não é a única dica que a Bíblia dá de que os israelitas nem sempre viram seu deus como único. O principal deus do panteão cananeu era El, e sua esposa era Asherah. Entre os judeus, a palavra El se tornou o termo genérico para "deus", usado para se referir ao próprio deus da Bíblia, em versões como El Shaddai ("Deus todo-poderoso", Gênesis 17:1) ou o quase suspeitamente politeísta Elohim ("Deus dos deuses"). Variações de El aparecem 217 vezes no Tanakh, o Antigo Testamento judaico.

El e Yahweh acabaram sendo mesclados num só - e a prova disso está em coisas como uma tumba do século 8, do Reino de Judá, que faz referência a "Yahweh e sua esposa Asherah". Estátuas de Asherah continuam a ser encontradas em Israel."Primeiro, houve uma fusão de várias divindades na figura de Yahweh, entre elas El, Asherah e Baal", diz Mark Smith, professor de estudos bíblicos na Universidade de Nova York, autor de The Origins of Biblical Monotheism ("As Origens do Monoteísmo Bíblico", sem tradução). Segundo ele, basta ler os poemas bíblicos mais antigos para perceber essa fusão de deuses. Na Bíblia, Yahweh assume os atributos de Baal como senhor da tempestade ("A voz do Senhor despede relâmpagos", Salmos 29:7).

Yahweh não era então o deus único, mas o deus que era único aos israelitas. Após o cativeiro babilônico, entre 586 e 539 a.C., isso mudou. Os outros deuses foram não só banidos de vez entre os judeus, como declarados inexistentes.

3. Existiu um reino unificado de Israel?

Davi e Salomão Reprodução

Cento e vinte anos, três grandes reis: Saul, Davi e Salomão.Entre 1050 e 930 a.C., o Reino de Israel era a maior potência da região e conseguiu até mesmo fazer de vassalos os fenícios, que ajudaram a construir o grande Templo de Salomão. Após a morte desse rei, uma revolta dividiu os israelitas em dois reinos - Israel, ao norte, com capital em Samaria, e Judá, ao Sul, sediado em Jerusalém.

Esse é o relato bíblico. Enquanto é claro que os dois reinos existiram e terminaram conquistados, os historiadores estão divididos quanto à existência de um grande reino. Seria improvável que uma nação assim não fosse notada pelos estrangeiros. Mas não parece ter sido. E os registros arqueológicos são escassos.Para historiadores, como o já citado Israel Finkelstein e Neil Silberman, autores de The Bible Unearthed ("A Bíblia Escavada", sem tradução), Davi e Salomão existiram, mas não passaram de chefes tribais de Judá. O Reino de Israel, ao norte, se desenvolveria de forma independente.O consenso estava com eles. O reino unificado e sua era de ouro seria uma criação dos autores da Bíblia no cativeiro babilônico.

Este ano, porém, uma descoberta reacendeu o debate. Um massivo complexo de mineração de cobre foi revelado no Vale de Timna, cerca de 300 quilômetros ao sul de Jerusalém. O arqueólogo Erez Ben-Yosef, da Universidade de Tel-Aviv, viu nisso a mais forte evidência de que existiu, sim, o reino unificado.

Mas a banca continua em aberto: na revelação, o historiador bíblico britânico Phillip R. Davies manifestou suas dúvidas, afirmando acreditar ser impossível qualquer reino do Levante dominar algo assim, e que os egípcios seriam os mais prováveis donos.

4. Que fim levaram as 10 tribos perdidas?

Os israelitas Wikimedia Commons

Em 722 a.C., o Reino de Israel foi conquistado pelo Império Neo-Assírio. O outro reino israelita, Judá, ao sul, tornaria-se um vassalo e sobreviveria.

Segundo a Bíblia, os israelitas descendiam de um só progenitor: Jacó, filho de Isaque, neto de Abraão, que teve 12 filhos. Cada qual dando origem a uma tribo. Ao enfrentar um anjo numa luta (Gênesis 35:10), foi rebatizado como Israel - "o que luta com Deus".

Dez das 12 tribos foram exiladas pelos conquistadores, sobrando apenas as de Benjamin e Judá, no reino do sul - daí esses sobreviventes se tornarem conhecidos por "judeus".

Que fim levaram os outros israelitas? Não faltam candidatos: na Índia, há os judeus de Bene Israel ("filhos de Israel"). Na Etiópia, Beta Israel ("casa de Israel"). Ambos têm o fenótipo de sua região, parecendo-se com indianos e negros.

A historiadora britânica Shalva Weil acredita que sejam descendentes de tribos perdidas, e alguns rabinos tendem a concordar, ligando os etíopes à tribo de Dan. Ambos passaram por testes genéticos que indicaram uma possível ligação com judeus. Mas, em ambos os casos, bem posterior à diáspora, não mais de 1600 anos para os etíopes e 1050 para os indianos. Shalwa também fez muito barulho no começo dos anos 2000 ao afirmar que "os talibãs são judeus". Ela se referia à teoria, que data de escritos islâmicos medievais, de que os afegãos da etnia pashtum - a do Talibã - eram descendentes das tribos perdidas. O DNA também não ajudou: testes os ligaram às populações do resto da região. Isto é, são nativos.

Historicamente, a lista incluiu candidatos bem mais insólitos: quando chegaram à América, os espanhóis achavam que os astecas eram descendentes das tribos perdidas. Também houve quem acreditou que os citas, nômades ao estilo mongol que aterrorizavam as estepes entre o Ponto e o Mar Cáspio, seriam judeus. E até alguns historiadores japoneses chegaram a cogitar se alguns dos hábitos nacionais não teriam vindo das tribos perdidas.

A maioria dos historiadores acredita que as tribos simplesmente perderam a identidade, e que muitos se refugiaram em Judá. Jerusalém parece ter crescido cinco vezes de tamanho logo após a conquista. O historiador britânico Tudor Parfit, da Universidade de Londres, que estudou por décadas povos que clamaram ser descendentes das tribos perdidas, diz que, sobre a sobrevivência, "é tudo, de fato, um mito".

5. O dilúvio aconteceu?

Obra de Léon Comerre representando o dilúvio Wikimedia Commons

Em 1982, um homem acreditava estar na missão de sua vida. Ele subia o Monte Ararat, na Turquia, que tanto a Bíblia quanto o Corão dizem ser o ponto onde a Arca de Noé encalhou ao fim do dilúvio que havia coberto os picos mais altos do mundo. Seu nome era James Irwin e, 11 anos antes, ele havia caminhado na Lua, um membro da expedição Apolo 15. Em suas diversas expedições, o astronauta profissional e arqueólogo amador não achou nada. Não que isso tenha dissuadido outros de procurar: em 2011, Donald Mackenzie, um mestre de obras escocês, perdeu a vida atrás da mesma arca.

O topo do Everest ser coberto de água e todas as espécies terrestres caberem num barco não é uma hipótese levada a sério por historiadores contemporâneos. Além disso, o dilúvio bíblico é possivelmente um plágio: já no século 17 a.C., os sumérios escreviam sobre os deuses tentando acabar com o mundo com chuvas, para um homem ser avisado por outro deus, construir um navio e sobreviver. Mitos semelhantes existiam entre gregos, hindus, chineses e até maias. Afinal, de onde veio isso?

Ao menos no caso dos povos do Oriente Próximo, há uma teoria relativamente firme. Em 1996, geofísicos da Columbia University (EUA) propuseram que, há 7.600 anos, o Mar Negro, até então um lago de água doce, foi invadido pelo Mar Mediterrâneo, cujo nível vinha subindo por mudanças climáticas. Uma cachoeira 250 vezes mais potente que as cataratas do Iguaçu se formou, forçando os moradores a fugir. O episódio teria sido transmitido oralmente por milênios.

A teoria foi contestada por muitos geólogos, que acreditam que a subida tenha sido gradual. Uma compilação de estudos por um grupo de cientistas da Bulgária, em 2016, concluiu que a subida levou no máximo 40 anos. Nem tão gradual, mas nem tão legendária assim.

6. Onda está a Arca da Aliança?

Representação da Arca da Aliança Shutterstock

Segundo o relato em Êxodo (25:10), quando Moisés estava no topo do Sinai recebendo os Dez Mandamentos, também ganhou instruções de Deus para criar um lugar onde guardá-los. Uma arca de madeira banhada a ouro, que os judeus passaram a levar consigo em suas andanças pelo deserto até a conquista de Canaã. A Arca teria um poder especial de matar quem olhasse para dentro dela - ou, melhor dizendo, uma maldição especial, pois era Deus quem punia as pessoas dessa forma.

A Arca não é um Santo Graal, uma peça mitológica. Se, conforme já mostramos, toda a narrativa do Êxodo e da conquista de Canaã é posta em dúvida, a existência da Arca não está em questão. "A Arca é uma característica regular do Velho Testamento, fazendo várias aparições nos cinco primeiros livros da Bíblia," afirma o historiador da religião Baruch Halpen, da Penn State University (EUA). "Essas várias referências são bastante consistentes e, quando você considera isso tudo, é bem provável que a Arca fosse um objeto real."

Um objeto que foi perdido na conquista de Judá pela Babilônia, em 587 a.C. A partir daí, o que existe é pura especulação. Teriam os babilônicos a levado embora? Guardado? Destruído? Teriam os judeus dado um jeito de protegê-la?

A própria Bíblia (na versão católica) traz um palpite. Conforme o Segundo Livro dos Macabeus (2:4-5), escrito quase 500 anos após a perda, o profeta Jeremias a escondeu sob o Monte Nebo (atual Jordânia). O texto rabínico Midrash Tanhuma mostra o rabino Eliezer ben Jose afirmando ter visto sua tampa em Roma, no século 2.

Outros acreditam que tenha sido enterrada embaixo do Monte do Templo - uma tese que, exigindo cavar sob a Mesquita de Al-Aqsa e o Muro das Lamentações, provavelmente não será testada.

Segundo a Igreja Ortodoxa Etíope, a busca será em vão. Eles dizem que a Arca está com eles. Em 2009, o patriarca Abune Paulos prometeu revelá-la ao mundo. Para voltar atrás no dia seguinte, mas ganrantindo que ele poderia "atestar por sua existência".

Halpen joga um balde de água fria. "Todas as versões são fantasia e nunca iremos realmente saber qual é real. Mas algumas teorias parecem mais plausíveis que outras. Teria sido a Arca escondida dos babilônios? Improvável. Teria sido levada por eles? Esta é mais provável."

7. Quando Jesus nasceu?

O nascimento de Jesus Wikimedia Commons

Ninguém sabe. Os evangelistas não se importaram em registrar, porque judeus do tempo de Jesus provavelmente não celebravam aniversários. A única referência na Bíblia a um deles é a do faraó do cativeiro (Gênesis 40:20).

O que dá para saber é que quase certamente não foi em 25 de dezembro do ano 1. Ninguém sabe quem exatamente escolheu o dia, que se estabeleceu no século 3. Conveio-se então que a Anunciação à Virgem pelo anjo aconteceu no equinócio (25 de março), e o Natal, exatos seis meses depois, no solstício de inverno. O dia mais curto do ano, a partir do qual todos os dias se tornam mais longos, uma metáfora para a iluminação.

Veio também a calhar que, no solstício de inverno os romanos celebravam a Saturnália, um carnaval do qual os bispos queriam ver os fiéis afastados.

Por conveniente que fosse, o chute da Igreja nascente não poderia estar certo. Porque há uma menção a pastores cuidando das ovelhas no campo durante a noite (Lucas 2:8). Isso não podia ser feito em pleno inverno, mas no máximo até novembro.

Também não pode ter sido no ano 1. Jesus nasceu no reino de Herodes, o Grande (Lucas 1:5). Mas Herodes morreu em 4 a.C. Também é mencionado o Censo de Quirino (Lucas 2:1-15). E isso complica mais ainda, pois este aconteceu no ano 6, dez anos após a morte de Herodes. Historiadores preferem ignorar o censo e jogar mais para trás a data, entre 7 e 4 a.C.

Isso torna a Jesus um quarentão. Ou quase. Faça as contas: ele morreu provavelmente em 3 de abril de 33. Essa é a data de um eclipse que coincide com uma páscoa judaica e o governo de Pôncio Pilatos referidos nos evangelhos. Se Jesus nasceu em 7 a.C., teria 40 anos ao ser crucificado. No mínimo, 37.

8. Jesus queria fundar uma nova religião?

Jesus e seus seguidores Reprodução

Uma das mais cabeludas questões do cristianismo. Ou melhor: uma das questões mais cabeludas levantadas por não cristãos. Para os cristãos, Jesus é Deus na Terra, que obviamente veio para mudar tudo.

Mas, para os primeiros deles, isso não parece ter sido tão claro.

Nos evangelhos, Jesus aparece pregando apenas para judeus e tendo apenas judeus entre seus discípulos. Há passagems como a do centurião que queria curar seu servo (Mateus 8:5-14), mas Jesus usa isso de exemplo contra a falta de fé dos judeus - o goy, o estrangeiro que tem mais fé que eles. Jesus inclusive aparece ordenando os apóstolos a não pregar para estrangeiros (Mateus 10:5-6).

Os evangelhos afirmam que Jesus, após ressuscitar, mudou a ordem. Para "Ide e pregai o evangelho a toda criatura" (Marcos: 16:15). Mas os evangelhos foram escritos após uma decisão crucial ser tomada.

Foi só por iniciativa de Paulo de Tarso, um dos primeiros conversos após a morte de Jesus - que afirmou tê-lo encontrado numa visão - que a pregação aos não judeus começou.

O primeiro concílio cristão aconteceu no ano 50 (Atos, capítulo 15). Nele, a principal questão era: deviam os cristãos não judeus ser circuncidados? Parece um detalhe, mas era algo central: a circuncisão era o sinal da aliança entre Deus e os judeus. Ser circuncidado significava ser judeu - e a decisão final, de que não era necessário ser, indicava que um cristão não precisava ser antes convertido ao judaísmo. Que o cristianismo não era uma versão do judaísmo. Jesus considerava a si mesmo o prometido messias judeu, para salvar aos judeus? Ou estava lançando as bases para uma religião mundial?

Em 1928, o teólogo alemão Hanz Lietzmann lançou o termo "Cristandade Paulina", diferenciando os ensinamentos de Jesus e Paulo. Desde então, vários outros acadêmicos, como o judeu Daniel Boyarin (autor de The Jewish Gospels: The Story of the Jewish Christ ("Os Evangelhos Judeus: A História do Jesus Judeu"), o cristão Bruce Chilton, autor de Rabbi Jesus: An Intimate Biography ("Jesus Rabino: Uma Biografia Íntima") e o islâmico Reza Aslan, de Zelote: A Vida e a Época de Jesus de Nazaré, vêm dizendo que, como resume Chilton, "Jesus era um judeu pregando para judeus".

Além dos versículos pós-ressurreição, ortodoxos rebatem que o apoio de Pedro, o primeiro apóstolo, a Paulo no concílio é prova de que Jesus queria mesmo espalhar a mensagem.

9. Jesus tinha irmãos?

Jesus e Tiago em ícone ortodoxo Reprodução

A Bíblia menciona quatro irmãos e também um número indefinido de irmãs de Jesus. Como em: "Não é este o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas?" (Mateus 13:55). E o versículo seguinte: "Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isso?".

Até o século 3, os cristãos parecem não ter tido qualquer problema com isso. Esses eram os filhos mais jovens de Maria e José, que tiveram um casamento comum após o nascimento do messias. Foi assim até surgir, nesse século, a doutrina da virgindade perpétua de Maria. De que ela permaneceu virgem após o nascimento de Jesus. Os irmãos então foram relegados a "primos", filhos de outra Maria, tia de Jesus. Ou filhos do viúvo José em seu casamento anterior.

A Igreja Católica e algumas denominações protestantes mais tradicionais ainda ensinam assim. A maioria dos protestantes não vê problema com o casamento.

Pode até soar um bizarro puritanismo dos fundadores da Igreja, mas há um argumento interessante em defesa da virgindade perpétua. Foi quando Jesus estava na cruz: "Ora Jesus, vendo ali sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa" (João 19:26,27).

A princípio, parece que Jesus confirma ter um irmão. Ou estaria ele dando um novo filho a Maria, na ausência de outros? Essa é a interpretação dos teólogos católicos desde o século 3. O papa João Paulo II afirmou ser um gesto que só faria sentido se Jesus fosse filho único.

10. Quem era o "Amado Discípulo"?

A Última Ceia de Leonardo da Vinci Reprodução

Está em quase todos os quadros da Santa Ceia: uma figura distoante aparece ao lado de Jesus. É um rapazinho com traços femininos - extremamente femininos, como no caso do quadro de Leonardo da Vinci e outros. Em certas versões, ele reclina a cabeça nos ombros de Jesus (conforme João 13:23).

É o "amado discípulo", citado seis vezes no Evangelho de João e em nenhum dos outros. Que, no que hoje chamaríamos de plot twist, é revelado, ao final do livro, como seu próprio autor (João 21:24). E que, naturalmente, foi identificado como o apóstolo João, daí o nome do evangelho.

Essa foi a resposta dos pais da Igreja no século 3. Mas não é uma resposta tida por satisfatória. O acadêmico bíblico Ben Witherington III e o teólogo Frederick Baltz, ambos dos EUA, defendem que seja Lázaro, já que as menções só começam após sua ressurreição.

Outros falam em Tiago, levando ao pé da letra o versículo citado na última página, em que ele diz ao amado discípulo que Maria é sua mãe.

A teoria mais ousada, lançada em 1998 por Ramon K. Jusino, da Notre Dame University (Nova York), é que seria ninguém menos que Maria Madalena. Jusino se baseia principalmente no apócrifo Evangelho de Maria, em que ela é mencionada como amada por Jesus múltiplas vezes. Ele rejeita a ideia tradicional de que, como todos os outros apócrifos, tenha sido escrito muito posteriormente aos quatro evangelhos originais. No lugar disso, teria sido o Evangelho de João - isto é, de Maria - a ser editado para fazer com que ela aparecesse ao mesmo tempo que o Amado Discípulo, como quando a tumba de Jesus é aberta (João 20:2).

11. Quem escreveu o Apocalipse?

Uma das representações do apocalipse Wikimedia Commons

É o livro mais destoante do Novo Testamento. Enquanto os evangelhos contam a história de Jesus, o Livro de Atos, dos primeiros discípulos, e as várias cartas discutem os problemas e a doutrina da nascente Igreja, a Bíblia cristã se encerra com um colorido livro de profecias, falando em bestas, dragões e cavaleiros macabros.

O Apocalipse foi mesmo um patinho feio. Até o século 7, autoridades cristãs aparecem alternadamente incluindo ou excluindo o livro da lista dos canônicos que formaria o Novo Testamento. O Concílio de Laodiceia, em 364, não o lista. Nos concílios de Hipona (393) e Cartago (397 e 419), entre outros, ele está lá. Mas, lá na frente, em 692, no Concílio de Trullo, novamente desaparece.

Parte do problema sempre foi sua autoria. Ainda que a tradição o identifique com o João do evangelho e das epístolas - o "Amado Discípulo", já mencionado -, no século 3, o papa Dionísio de Alexandria rejeitava o livro, como pertencente a outro autor menos prestigiado.

O Apocalipse contém aparentes erros de grego, usa uma grafia diferente para Jerusalém que no Evangelho de João e também uma palavra grega diferente ao falar no "cordeiro" de Deus.

É o suficiente para a maioria dos estudiosos atuais concluir que não pode ser o mesmo autor. E não é de hoje: no século 2, o bispo de Hierápolis, Papias, afirmava que quem havia escrito o livro era João, O Presbítero. Uma figura que não é citada posteriormente por qualquer outro autor.

Na dúvida, o Apocalipse é hoje atribuído a João de Patmos. Uma figura não identificada com nenhuma outra pessoa do começo do cristianismo. O nome vem de ele próprio ter dito ser prisioneiro na ilha de Patmos (Apocalipse 1:9).

12. Jesus era casado?

Jesus e Maria Madalena Wikimedia Commons

Não é invenção de Dan Brown. Já no século 1, os gnósticos, que adotavam uma interpretação do cristianismo que terminaria considerada herética e banida, pareciam acreditar nisso. O apócrifo gnóstico Evangelho de Filipe descreve a relação entre Jesus e Maria Madalena como "esposa" ou "amante". Na Idade Média, os cátaros, que rejeitavam a divindade de Cristo e achavam que o deus do Velho Testamento era Satã, também tinham essa opinião.

Dan Brown se inspirou no trabalho do jornalista Donovan Joyce, The Jesus Scroll ("O Pergaminho de Jesus"), de 1972, para criar seu thriller. Joyce afirmava ter lido um pergaminho secreto do ano 73, escrito por Jesus em pessoa. Não só ele havia sobrevivido como se casara com Madaelna, tivera um filho com ela e testemunhara a Guerra Judaico-Romana de 66 a 74. O manuscrito, porém, teria infelizmente (ou convenientemente?) sido perdido, contrabandeado para a União Soviética por um arqueólogo israelense corrupto, certo Dr. Grosset.

Joyce não foi levado a sério como historiador. Mas ao menos um peso-pesado defende a ideia do Jesus casado: o acadêmico James Tabor, da Universidade do Texas, autor de The Jesus Dinasty ("A Dinastia de Jesus").

Não seria vergonha nenhuma uma figura religiosa do tempo de Jesus ser casada - era, de fato, praticamente obrigatório para os rabinos, para cumprir a ordem dada do "crescei e multiplicai-vos" (Gênesis 1:28). Mas a interpretação oficial vem de um fato simples: nenhum evangelho - nem mesmo o apócrifo Evangelho de Maria - menciona Jesus ser casado. E Pedro, o discípulo mais importante, a ponto de ser chamado de primeiro papa, foi retratado como casado (Lucas 4:38).

Tabor, que foi acusado de fazer polêmica pela polêmica, nunca se arrependeu. Afirma que, desde que lançou seu livro, ficou ainda mais convicto de que Jesus era casado.

Aqui vai a explicação: "Às vezes o silêncio fala", diz ele. "Estou convencido de que, no caso de Maria Madalena, o silêncio não quer dizer que era solteiro. Os autores dos evangelhos, escritos muitas décadas após a vida de Jesus, ou não sabiam da esposa e filho de Jesus, ou, mais provavelmente, por razões teológicas, decidiram suprimir a informação. O Jesus desses evangelhos era o divino Filho de Deus, ascendido aos céus, e qualquer ligação mundana e sexual a uma mulher mortal seria inconcebível."    

Fabio Marton


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