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Os atentados de 11 de setembro e a fatal guerra contra o terrorismo

O episódio, ocorrido há 20 anos, resultou em uma verdadeira cruzada contra os muçulmanos

Raphaela de Campos Mello Publicado em 11/09/2021, às 06h00

Atentados do 11 de setembro (à esqu.) e tropas dos EUA no Afeganistão (à dir.)
Atentados do 11 de setembro (à esqu.) e tropas dos EUA no Afeganistão (à dir.) - Getty Images

Após os ataques de 11 de setembro, muito se especulou a respeito do ódio cultivado por décadas no seio de grupos radicais como a Al-Qaeda e que, chegada a hora, se voltou contra seu alvo-mor.

Em cada terrorista envolvido na ofensiva, certamente pulsava o sentimento de vingança contra as políticas americanas postas em prática no Oriente Médio, as quais, segundo Noam Chomsky no livro 11 de Setembro (ed. Bertrand Brasil), são uma continuidade da ação política dos antigos dominadores europeus.

Fazem parte dessa lista o apoio dos Estados Unidos a Israel nos ataques contra os palestinos, o apoio à Rússia na guerra da Chechênia, a presença de bases militares estadunidenses na Arábia Saudita e a invasão do Iraque.

“Os atentados não são uma consequência direta da política americana. Mas, indiretamente, são. Parece haver pouca dúvida quanto ao fato de os responsáveis virem de uma rede de terrorismo que tem suas raízes nos exércitos mercenários que foram organizados, treinados e armados pela CIA, Egito, Paquistão, pela inteligência francesa, pelos fundos provenientes da Arábia Saudita e similares”, observou Chomsky na época.

O intelectual se refere, por exemplo, à relação de Bin Laden com os Estados Unidos, que, no passado, quem diria, foi de cooperação. Em 1979, em plena Guerra Fria, o governo estadunidense investiu nas guerrilhas do Afeganistão contra a dominação soviética no país.

Muitos dólares foram gastos para recrutar militantes árabes mundo afora. Dez anos mais tarde, contudo, a extinta União Soviética desistiu do conflito, porém o Afeganistão prosseguiu em guerra. Ao norte, os comunistas, pró-URSS, tomaram a capital Cabul.

Entre os rebeldes, a situação era tensa. O milionário saudita Osama bin Laden, considerado um pupilo de Abdullah Azzan, ordenou um atentado contra seu mestre e tornou-se o líder dos guerrilheiros.

Uma de suas primeiras medidas foi implementar a Al- Qaeda, criada em 1987. Posteriormente, Bin Laden rompeu com seu país natal, a Arábia Saudita, que preferiu se aliar aos norte-americanos após o Iraque invadir o Kuwait em 1990.

Daí em diante, uma série de atentados passaram a ser cometidos pelas forças regidas pelo terrorista contra os Estados Unidos até culminar com o maior deles em 11 de setembro de 2001.

“As causas mais efetivas dos atentados recaem mesmo em uma ideologia, de fundo religioso fundamentalista, na ideia de uma jihad contra o mundo exterior ao universo muçulmano. As narrativas conspiratórias negam a capacidade de ações ideológicas deste tipo causarem o impacto que causaram em 11 de setembro e reservam esse poder a ‘forças ocultas’. São um escapismo”, opina Vinícius Liebel, professor de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Cruzada contra os muçulmanos 

O fato é que, em outubro de 2001, o governo Bush lançou-se na chamada guerra contra o terrorismo, e o Afeganistão foi escolhido como primeiro alvo dessa “cruzada contra o terror” por ter ofertado refúgio a Osama bin Laden e se negado a entregá-lo. À revelia das Nações Unidas, o país foi invadido pelos Estados Unidos e seus aliados com o alegado objetivo de caçar o terrorista e desmantelar a Al-Qaeda.

Como era de se prever, milhares de inocentes sofreram as consequências da resposta bélica norte-americana. Ao todo, 240 mil afegãos (mais de 70 mil deles, civis), além de mais de 2.300 militares dos EUA, morreram. Posteriormente, os EUA também invadiram o Iraque, país designado como parte do chamado “Eixo do Mal”, de acordo com o presidente George W. Bush.

Tratar a Guerra ao Terror de forma abrangente e ilimitada, em vez de focada no pequeno grupo perpetrador dos ataques de 11 de setembro, foi um grande erro, na visão do ex-presidente Barack Obama. Segundo ele, ao tomar esse posicionamento, os Estados Unidos criaram uma armadilha para si mesmos.

“Essa posição só fez crescer o prestígio da Al-Qaeda, racionalizou a invasão do Iraque, colocou a maior parte do mundo muçulmano contra nós e por quase uma década promoveu uma imagem distorcida da política externa americana”, ponderou Obama no livro Uma Terra Prometida (ed. Companhia das Letras).

Na análise de Vinícius Liebel, uma das consequências mais marcantes do 11 de setembro foi justamente o “foco renovado sobre o mundo islâmico”. Se antes a ameaça vinha da figura do soviético, no contexto da Guerra Fria, após os atentados o perigo passou a ser encarnado pelo outro muçulmano.

“Os aeroportos viraram verdadeiros espaços de exceção para muitos viajantes dos países árabes rumo aos Estados Unidos e muitos países da Europa”, lembra o professor.

Sem falar na polêmica Prisão de Guantánamo, localizada em Cuba, para onde foram levados, a partir de janeiro de 2002, supostos prisioneiros terroristas. De acordo com fontes relacionadas a direitos humanos e constitucionais, o local chegou a abrigar cerca de 680 prisioneiros vindos de 43 diferentes países, em sua maioria, do Afeganistão e do Iraque.

Inclusive, houve diversas denúncias de casos de tortura de prisioneiros pelos militares americanos e de violação das Convenções de Genebra. Atualmente existem 40 detidos, incluindo cinco homens que planejaram e forneceram apoio logístico aos ataques de 11 de setembro de 2001 – contudo, o atual presidente americano Joe Biden pretende desativar a prisão em algum momento do seu mandato.

Vinte anos atrás, porém, o revanchismo justificado pela magnitude dos ataques exacerbou o papel de “polícia do mundo” assumido pelos EUA como prerrogativa de sua hegemonia mundial.

“Eles passam a lançar mão de forma mais evidente e ostensiva de argumentos morais contra grupos ou ideologias que representam obstáculos ou contraposições a seus interesses, e esses argumentos acabam justificando ataques pontuais ou mesmo invasões”, analisa Liebel.

Outros importantes desdobramentos do 11 de setembro seguem reverberando com força em muitos países ocidentais. “Propostas e políticas nacionalistas, xenófobas e isolacionistas ganharam força com esse imaginário de ‘guerra de civilizações’ ou de ‘invasões bárbaras’, imagens altamente emocionais que foram instrumentalizadas por políticos, principalmente, da extrema-direita”, avalia o professor.


++ Há exatos 20 anos, os atentados de 11 de setembro abalavam o mundo