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Os intrigantes esqueletos de 500 anos com crânios modificados, encontrados no Gabão

Em uma caverna de difícil acesso, pesquisadores descobriram crânios com alterações faciais drásticas feitas a partir da remoção de dentes específicos; estudo foi publicado no último dia 8

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 17/07/2021, às 10h00

Crânios descobertos na caverna na província de Ngounié do Gabão
Crânios descobertos na caverna na província de Ngounié do Gabão - Divulgação/P. Mora/Antiquity Publications Ltd.

Em 1992, uma caverna foi descoberta pelo arqueólogo Richard Oslisly, membro do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS), na província de Ngounié do Gabão. No entanto, o local de difícil acesso foi explorado pela primeira vez apenas em 2018.

Oslisly conseguiu investigar o espaço subterrâneo apenas quatro vezes e, durante essas expedições, encontrou centenas de restos humanos, além de artefatos funerários como conchas marinhas, pulseiras, anéis, facas e dentes perfurados.

Sébastien Villotte, pesquisador do CNRS, disse ao portal Livescience que "existem muito poucos locais com restos arqueológicos humanos para esta região". "O fato de crianças, adolescentes, homens e mulheres adultos terem sido enterrados aqui, com tantos artefatos  — mais de 500! — foi surpreendente”, explicou.

Com quatro níveis e esqueletos que remontam aos séculos 14 e 15, a caverna provavelmente teve os ossos atirados para dentro dela, indo para o fundo. Isso porque os ossos estavam misturados, mas os esqueletos eram completos. 

Para analisar os curiosos restos mortais encontrados, uma pesquisa foi liderada por Villotte e publicada no último dia 8 na revista científica internacional Antiquity, apresentando as conclusões dos especialistas acerca dos ossos.

Crânios modificados

Esqueeltos e artefatos encontrados na caverna do Gabão / Crédito: Divulgação/P. Mora/Antiquity Publications Ltd.

 

Os pesquisadores avaliaram que ao menos 24 adultos e quatro crianças tiveram seus esqueletos arremessados na queda vertical de 25 metros. Os itens de enterro depositados perto de seus corpos ainda indicavam que eles possuíam grande status social na época.

Apenas essa análise já era de grande interesse para a comunidade científica. Porém, o grupo de cientistas foi surpreendido ao perceber que os crânios encontrados na caverna apresentavam modificações, como extração de dentes.

No estudo, os especialistas ressaltaram que a modificação dentária é uma prática comum há muito tempo, especialmente na África. "Muitas e várias razões são defendidas para a remoção dos dentes pelas pessoas que a praticaram", explicou Villotte.

O caso da pesquisa, no entanto, provou ser mais incomum. Quatro dentes incisivos superiores — os dentes na parte frontal da boca — foram removidos e as cavidades dentais vazias estavam curadas. Ou seja, é provável que a remoção tenha sido feita quando as pessoas ainda estavam vivas, o que deu tempo para a cicatrização.

Alteração facial drástica

Nível da caverna com esqueletos de 500 anos / Crédito: Divulgação/P. Mora/Antiquity Publications Ltd.

 

Villotte aponta que a cicatrização confirma que os dentes não foram retirados, alterando os crânios, devido a um ritual funerário, costume bastante comum na região. O processo foi bastante simétrico e o mesmo método foi aplicado em todos os indivíduos encontrados na caverna, o que indica que isso aconteceu “no contexto de alguma prática cultural" do povo.

Ao retirar os dentes da frente, as pessoas teriam a pronúncia das palavras alterada, além da modificação do formato da boca e do rosto do indivíduo. A alteração “altamente visível” explicitava que todos eles faziam parte de um mesmo grupo.

Os relatos publicados na Antiquity indicaram uma conclusão: pessoas que habitaram a África Centro-Ocidental há 500 anos tiraram dentes da frente para modificar drasticamente sua aparência e pronúncia, "sugerindo uma longa história e possível continuidade dos costumes de modificação corporal na área".

"Como este local é excepcional e os ritos funerários são virtualmente desconhecidos para o Gabão pré-colonial, pode-se considerar esta descoberta como a primeira peça do quebra-cabeça. E parece ser muito difícil”, ressaltou Villotte.


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