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Os médicos que enganaram nazistas com uma falsa doença para salvar judeus

Os profissionais responsáveis pelo Hospital Fatebenefratelli encontraram uma impressionante maneira de salvar vítimas dos horrores do Holocausto

Caio Tortamano Publicado em 08/11/2020, às 10h00

O hospital Fatebenefratelli, epicentro da doença falsa
O hospital Fatebenefratelli, epicentro da doença falsa - Wikimedia Commons

Existem muitas histórias emocionantes de pessoas que bravamente desafiaram o sistema nazista de prisão de judeus durante os períodos mais graves do Holocausto. Entre essas narrativas, se destaca a história de um grupo de médicos da Itália.

Em 1943, os soldados do Terceiro Reich se dirigiram até um gueto em Roma. Enquanto os judeus eram presos, os médicos responsáveis pela saúde das vítimas começaram a levar os perseguidos para esconderijos no hospital Fatebenefratelli.

Percebendo que não conseguiriam esconder todos que precisavam de ajuda, o médico Vittorio Sacerdoti e o cirurgião Giovanni Borromeo contaram com um plano para manter os nazistas longes dos judeus: inventariam uma doença altamente infecciosa para que não estivessem perto deles.

O hospital virou praticamente uma espécie de local sagrado para os judeus, que encontravam abrigo e segurança pelos médicos como Sacerdoti — que trabalhava no hospital usando documentos falsos.

O médico Giovanni Borromeo / Crédito: Wikimedia Commons

 

Síndrome K

O nome para a doença surgiu graças ao médico Adriano Ossicini, que trabalhava no Fatebenefratelli e precisava encontrar uma maneira de ajudar os seus subordinados a identificarem os verdadeiros pacientes que eles estavam tentando proteger.

Para isso, toda vez que um novo paciente entrava no consultório com sintomas da Síndrome K, todo funcionário sabia que se tratava de uma vítima buscando refúgio e não de fato alguém doente.

Essa história foi contada no jornal italiano La Stampa, em 2016, pelo próprio Ossicini, “Criamos aqueles documentos para judeus como se fossem pacientes comuns, e no momento em que tínhamos que dizer que doença eles sofriam colocávamos Síndrome K, Kesselring ou Kappler”.

Adriano Ossicini / Crédito: Divulgação

 

Esses eram os sobrenomes de Albert Kesselring, oficial alemão responsável pela ocupação dos nazistas na Itália, e Herbert Kappler, que comandou um massacre em 1944. A parte curiosa era chamar a síndrome mortal pela inicial de dois homens que tinham como objetivo dizimar judeus.

Convencimento

Para convencer os oficiais alemães de que a doença era verdadeira, os médicos encheram quartos com vítimas da 'síndrome', e alertavam que aquele local era praticamente uma bomba biológica, tamanha a taxa de contaminação no aposento. Os nazistas, cautelosos, nem sequer ameaçavam entrar nos quartos.

Além disso, os médicos orientavam as crianças a tossir violentamente toda vez que um soldado nazista estivesse prestes a fazer uma inspeção. Infelizmente, faltam dados precisos que confirmem o número exato de judeus resgatados pela falsa doença.

Reconhecimento

A história seria reconhecida mais de meio século depois dos episódios, contudo, isso não impediu alguns dos doutores envolvidos com a Síndrome K de receberem condecorações pela coragem. Borromeo, por exemplo, recebeu o título de Justo entre as Nações, dado pelo Centro Mundial de Memória do Holocausto.

O médico também foi responsável por organizar a fuga de diversos pacientes nos hospitais dos guetos para o Fatebenefratelli, que também foi reconhecido como a Casa da Vida, pela Fundação Internacional Raoul Wallenberg, responsável por lutar pelos sobreviventes do Holocausto. 


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