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Contra a ditadura, mais de 6 mil militares brasileiros foram perseguidos e torturados

Com o AI-5, estupros a esposas de militares e pressões contra seus filhos nas escolas tornaram-se práticas comuns ao brutal regime

André Nogueira Publicado em 09/12/2019, às 13h36

Tanques ocupando a Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, em 1968
Tanques ocupando a Avenida Presidente Vargas, no Rio de Janeiro, em 1968 - Wikimedia Commons

Por mais que muitos achem que só foi pego pela Ditadura aqueles que ameaçavam o Estado Brasileiro em nome do comunismo, na realidade, muitos que sofreram com prisões e torturas nesse período eram inocentes e somente iam contra a vontade do Governo Federal. É o caso de diversos militares que, a partir da instauração do AI-5, sofreram na mão do Alto Escalão. E o conhecimento sobre isso é claro e conhecido: foram 6.591 militares presos e torturados, segundo a Comissão da Verdade (CNV).

Dentro do organograma das Forças Armadas, a perseguição foi dura e diversa. Logo no inicio do regime, as cassações e prisões serviram como forma de alinhar as baixas patentes aos compromissos do regime ditatorial. Muitos eram constrangidos, discriminados ou agredidos em nome do acirramento ideológico.

Segundo o cientista político Paulo Ribeiro da Cunha, membro da CNV, o processo iniciado em 1964 foi uma “grande cirurgia”, mas ainda, uma “perseguição continuada, que se manteve e se intensificou na fase posterior." Com o AI-5, então, foram estabelecidas as ferramentas burocráticas para a repressão geral da sociedade e dos militares, em específico.

Um das táticas mais comuns era usar os instrumentos de controle da sociedade civil para abusar de familiares de oficias com o objetivo de manipulá-los. Há casos de ataques e até estupros a esposas de militares e pressões contra seus filhos nas escolas. Mesmo militares que apoiaram o golpe mas não se endireitavam com a Linha Dura sofreram com as perseguições.

"Proporcionalmente, os militares foram o grupo social mais afetado pela repressão", afirma Cunha. Membros da classe que governava organicamente, chega a ser abismal o modo como os oficiais foram tratados pelo Regime.

Henrique Teixeira Lott

Marechal do Exército, esse foi um dos maiores nomes da defesa da Legalidade, sendo responsável pela posse de JK em 1955 e de Jango em 1961. Integrado no mundo político (a ponto de ter concorrido à presidência em 1960), o membro da reserva era um anticomunista nacionalista que foi veementemente contrário à quebra da normalidade democrática com o Golpe de 1964.

Crédito: Wikimedia Commons

 

Devido a pronunciamentos que fez no rádio em favor de João Goulart e denunciando o golpe das Forças Armadas, foi acusado de traição e passou a ser um dos principais alvos internos do Exército.

Foi preso por 15 dias e, após a concretização do golpe, teve sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro cassada e foi obrigado a deixar a vida pública, permanecendo assim o resto da vida. Morreu em 1984, foi enterrado sem qualquer honraria militar, mas foi homenageado pelo então governador Leonel Brizola.

O caso Moreira Lima

Um clássico exemplo é o do tenente Rui Moreira Lima, que lutou na Segunda Guerra Mundial, mas que passou por apertos políticos apenas no Brasil, durante a Ditadura. Mesmo condecorado, foi perseguido e torturado.

Crédito: Wikimedia Commons

 

Em 1964, ele foi deposto de seu cargo na Base Aérea de Santa Cruz, por sua oposição à intervenção do 31 de Março. Então, foi preso, obrigado a se aposentar e passou a ser perseguido junto a sua família. Mesmo depois de 16 anos afastado, teve um filho sequestrado por agentes do governo.

Depois de aposentado, foi sequestrado por sargentos do DOI-CODI, onde ficou três dias presos. Segundo seu depoimento à Comissão Nacional da Verdade: "Passei três dias nessa masmorra lá. Para ir fazer as necessidades os soldados ficavam me olhando, apontando a metralhadora".

Brigadeiro Teixeira

Outro veterano das Forças Expedicionárias Brasileiras, Francisco Teixeira era um destacado membro da Aeronáutica e participante das campanhas nacionalistas “O Petróleo é Nosso”. Era comandante da Terceira Zona Aérea do Rio de Janeiro em 1964, quando foi preso em Copacabana, sendo sequestrado em sua própria casa, permanecendo 50 anos sem se saber onde estava.

Com seus diretos políticos cassados, foi obrigado a se aposentar da FAB e, ainda, teve a cidadania brasileira suspensa, sendo declarado morto pelo Estado. Para sobreviver, se tornou professor até que, em 1969, teve a casa incendiada.

Crédito: Arquivo Nacional

 

Segundo Iracema, sua esposa, "Toda vez que mudava o 'presidente' meu marido era preso, como se ele — já deposto, aposentado — fosse reagir sozinho". Em 1969, foi novamente o caso: com a posse de Garrastazu Médici, ele foi novamente preso e mantido refém sem comunicação por 50 dias. Seu filho também foi preso, acusado de ser comunista. Como o pai, foi torturado.

Desenterrado Tenente Wilson

Um evento que já deixou muitos militares marcados na visão dos que assumiriam em 1964 foi a Campanha da Legalidade, que impediu um golpe anterior após a renúncia de Jânio Quadros. Um desses casos foi o do tenente José Wilson da Silva.

"Vários oficiais da Marinha, da Aeronáutica e do Exército que se mobilizaram em defesa da Constituição foram presos e depois liberados. Posteriormente, em 1964, foram cassados.", chegou a escrever Wilson.

Em 1964, Wilson entrava na política, associado ao movimento legalista e nacionalista iniciado por Brizola. Porém, sua campanha em Porto Alegre foi interrompida pelas ameaças a perseguição que sofria, podendo ser preso. Então, foi levado ao exílio no Uruguai, teve seus direitos cassados e só retomou ao Exército com a Lei da Anistia.


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