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Os mistérios de John Lee, o homem que escapou da forca três vezes

"Estou tão calmo porque confio no Senhor e ele sabe que sou inocente", teria dito John Lee no julgamento que o condenou

Ingredi Brunato Publicado em 22/09/2020, às 18h14

Fotografia de John Lee
Fotografia de John Lee - Divulgação

Em 23 de janeiro de 1885, a prisão de Exeter, na Inglaterra, achou que realizaria um enforcamento. No entanto, não passava de uma ilusão porque, por algum motivo, o alçapão do cadafalso - a porta que se abre sob os pés do condenado para que ele caia - apenas não se abriu. 

Não foi por ineficiência. O carcereiro James Berry havia checado antes o alçapão, como mandava o protocolo, e ele havia funcionado como normalmente. Ainda assim, quando chegou o momento da realização da sentença de morte, o alçapão se recusou a sair do lugar. Três vezes o prisioneiro do dia foi preparado para a morte certa, e três vezes alguma força desconhecida o poupou. Depois da terceira tentativa, acabou ficando para outro dia. 

O caso 

O condenado à forca nesse 23 de janeiro era John Lee, acusado pelo assassinato brutal da senhora para quem trabalhava, Emma Anne Whitehead Keyse, que havia ocorrido dois meses antes. A idosa, que nunca havia se casado, vivia numa casa dividida apenas com seus empregados - duas servas, uma cozinheira, e John. 

Quando ela foi encontrada com a garganta cortada, além de ferimentos na cabeça e sinais apontando que alguém havia tentado queimar seu corpo, Lee se tornou imediatamente o suspeito, embora os investigadores tivessem apenas evidências circunstanciais. 

John era o único homem da casa, tinha um corte no braço e um histórico criminal como ladrão, o empregado foi considerado autor do crime, e julgado de acordo. De acordo com a BBC, a sentença, contudo, a fatídica morte por enforcamento, nunca viria a acontecer. 

Curiosamente, o condenado também teria dito ainda a seguinte frase em seu julgamento: "Estou tão calmo porque confio no Senhor e ele sabe que sou inocente”. A afirmação de cunho religioso, que poderia passar batido em outras situações, se tornou irônica e até reveladora em vista dos acontecimentos posteriores, dependendo da crença de quem a encara. 

Cena do filme "O homem que eles não podiam enforcar", inspirado na vida de John Lee. Crédito: Divulgação/ Pixabay 

 

Antes da forca 

John Lee havia levado uma vida medíocre até então. Depois da escola, tentou entrar para a Marinha Real, contudo foi recusado. Em Torquay, cidade inglesa, tinha conseguido um emprego como lacaio, mas acabou não durando muito por ter roubado de seu empregador.  

Era então o ano de 1883, dois antes do crime que o tornaria famoso, e como punição por seu furto, John foi sentenciado a trabalhos forçados na mesma prisão que mais tarde tentaria levá-lo para a forca, a Exeter. 

Depois que a tentativa executar o lacaio de Emma Anne falhou, John Lee acabou tendo sua pena mudada. “Seria chocante o sentimento de qualquer pessoa se um homem tivesse que pagar duas vezes as dores da morte iminente”, teria dito Sir William Harcourt, Secretário do Interior, a respeito do caso, segundo apurado pela BBC

Dessa forma, o acusado recebeu uma pena perpétua que acabou sendo mais tarde negociada. Após a saída da prisão, não se sabe mais seu paradeiro: as especulações dizem que ele pode ter saído do país ou ido para Londres, virado jornaleiro ou pintor, morrido durante a Segunda Guerra Mundial ou então em 1945. 

Mistério 

De uma forma ou de outra, até hoje não é possível dizer com certeza se o lacaio da senhora idosa foi ou não seu assassino. O que não significa que ninguém tentou investigar o caso. Ian Waugh, por exemplo, pesquisador histórico, criou um site onde estão reunidas diversas informações a respeito do crime, apuradas ao longo dos anos. 

A história do homem que escapou três vezes de ser enforcado também foi contada em um filme mudo de 1912, deu nome a um álbum de música folk da banda britânica Fairport Convention, e levou à criação de um livro documental chamado “The Man They Could Not Hang”, ou “O homem que eles não puderam enforcar”, em tradução livre.