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Os mistérios e as mortes brutais reveladas pela tumba da Rainha Vermelha

A soberana maia impiedosa, que morreu há 1.348 anos, estava em um sarcófago lotado de pedras de jade e coberto por uma intrigante poeira avermelhada

Vanessa Centamori Publicado em 05/07/2020, às 08h00

Poeira vermelha que cobria o esqueleto da rainha maia
Poeira vermelha que cobria o esqueleto da rainha maia - Divulgação/Instituto Nacional de Antropologia e História do México

Na primavera de 1994, nas ruínas da cidade maia de Palenque, sul do México, a arqueóloga Fanny López Jiménez ficou incrédula ao se deparar com uma tumba vermelha e muito peculiar. Uma mulher — literalmente — sem coração jazia ao lado de uma criança de 11 anos, cuja garganta fora cortada em sacrifício para honrá-la.

O sarcófago da monarca impiedosa estava cheio de pedras de jade e dentro dele havia ossos e conchas do mar cobertos por uma poeira avermelhada. Aquela coloração única, que vinha do minério cinábrio, inspirou os pesquisadores a chamarem o local de a tumba da rainha vermelha, conforme informou a rede BBC. 

Máscara funerária da rainha vermelha/Crédito: Wikimedia Commons 

 

Acontece que o minério colorido era utilizado para preservar restos humanos. E assim manteve conservado o corpo daquela rainha, morta no ano de 672. Na mesma tumba da governante estavam também as ossadas de uma mulher comum de 30 a 35 anos, que foi sacrificada, assim como a criança, para garantir uma entrada da realeza à vida após a morte. 

Bem-vindo ao Lugar do Medo 

Os maias acreditavam que depois de morrer algumas pessoas importantes ganhariam entrada para Xibalda, o submundo, também chamado de o Lugar do Medo. O passaporte da soberana pra lá foram os sacrifícios atrozes. Além disso, a criança morta cruelmente em sua honra era apenas um de seus servos. 

Quando morreu, a aristocrata tinha 1,54 metro de altura e entre 50 a 60 anos de idade. Ela era dona de uma máscara funerária e seu crânio estava deformado. A testa dela era bastante achatada — importante fator de beleza na sociedade maia.

Além disso, em vida, a majestade já tinha tido filhos e havia lutado contra osteoporose e sinusite crônica. A morte chegou quando ela já estava bem debilitada, tanto que em sua tíbia esquerda havia um nojento casulo com larvas de vespa. 

Os dentes também encontravam-se horríveis, cheios de tártaro, abscessos e cáries, indicando que cuidados não eram prioridade naquela época, e ainda que a dieta real era rica em carne. Além disso, a dentição mostrou que Palenque não era a terra natal da rainha, mesmo que ela governasse a região. 

Templo das Inscrições, onde estava os restos mortais da rainha/Crédito: Wikimedia Commons 

 

Identidade misteriosa

Após exaustantes estudos, os especialistas se convenceram de que os restos da rainha eram mesmo aqueles encontrados no sul do México. Uma análise de DNA feita no Instituto Nacional de Arqueologia e História confirmou isso. Mas também a própria localização do cadáver já significava muito. 

Os restos conservados estavam no Templo das Inscrições, perto do rio Usumacinta, em Chiapas. Originalmente, o local foi erguido para armazenar o corpo de Pacal, o Grande, um rei que governou desde os seus 12 anos de idade e que viveu entre 603 e 683. Ele liderou uma importante campanha militar em Palenque e armazenou muitos registros em glifos. 

Esses importantes documentos da grafia maia revelaram quem eram as mulheres mais importantes da vida de Pacal: Yohl Ik Nal, sua avó, rainha de Palenque; Sak Kuk, sua mãe, e Tzakbu Ajaw, sua esposa.

Como um estudo conduzido pela Universidade de Lakehead, em Ontário, mostrou que Pacal não era parente da rainha, os pesquisadores concluíram que ela era, na verdade, Tzakbu Ajaw, esposa e mãe dos dois filhos do rei. Eram eles: K'inich Kan Bahlam II, que sucedeu o pai no reinado, e K'inich K'an Joy Chitam II, rei de Palenque por nove anos.

Máscara mortuária de Tzakbu Ajaw, a rainha vermelha/ Crédito: Divulgação/Instituto Nacional de Antropologia e História do México

 

Os bastidores dos sacrifícios 

Os ossos da mulher e da criança que foram sacrificados em prol da suprema Tzakbu Ajaw acabaram sendo analisados em Miami, Estados Unidos. O estudo mostrou que as mortes datavam de 620 e 680, mesma época em que a esposa de Pacal estava viva, conforme diz o livro A Rainha Vermelha: O segredo dos maias em Palenque, da jornalista Adriana Malvido. 

Os sacrifícios eram feitos para fornecer "um novo e fresco suprimento de sangue", disse o arqueólogo mexicano Arnoldo González, ao Discovery Channel. A cena das mortes foi  verdadeiramente macabra. A mulher sacrificada tinha vários golpes profundos de facadas e estava de bruços, com os braços cruzados. Ela também tinha sido mutilada no ritual e estava separada em duas metades. 

Já a criança, estava sem a cabeça e com um enorme corte na horizontal, realizado provavelmente com um objeto pontiagudo e com um impacto agressivo na nuca. Era costume entre os maias que os sacrificados viessem de camadas hierárquicas de baixa posição social e esse pode ter sido o caso. 

Todavia, tamanha violência não era restrita ao império da rainha vermelha. Enquanto que no túmulo da monarca havia dois sacrifícios, no sarcófago do rei Pacal esse número era muito maior — seis pessoas vieram à óbito em seu nome.

O mais fascinante é que muitas outras histórias mórbidas ainda são um mistério na região maia de Palanque: a estimativa é que existam por lá mais de 1,5 mil construções, das quais apenas 15% foram escavadas. Restam ainda muitos segredos. 


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