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Os nomes marcantes condenados a pena de morte no Brasil

De Tiradentes a Frei Caneca, são personagens que, após encontrarem o fim, acabaram eternizados pela cultura popular

Flávia Ribeiro Publicado em 16/01/2022, às 08h00 - Atualizado em 21/04/2022, às 08h00

Representação das execuções de Tiradentes e Frei Caneca, respectivamente
Representação das execuções de Tiradentes e Frei Caneca, respectivamente - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons

O mais famoso entre todos os condenados à morte no Brasil é Joaquim José da Silva Xavier, que entrou para a história e para a lista de feriados como Tiradentes. Único dos líderes da Inconfidência Mineira a ir para a forca, o alferes foi morto e esquartejado no dia 21 de abril de 1792. Durante a colônia, muitos rebeldes acabaram assim.

O primeiro caso famoso foi o de Domingos Fernandes Calabar, mulato que lutou ao lado dos holandeses que invadiram Pernambuco e foi enforcado como traidor em 1635. Quase meio século depois, o rico fazendeiro Manuel Beckman liderou a revolta que leva seu nome, no Maranhão. Ele expulsou de lá os jesuítas e governou a região por um ano. Acabou enforcado e esquartejado em 1683.

“Há diversos outros casos de esquartejamento, como os das condenações pela Revolta de Vila Rica, em Minas, em 1720, pela Revolta do Terço Velho, na Bahia, em 1728, e pela Conjuração dos Alfaiates, também na Bahia, em 1798”, descreveu o advogado Luís Francisco Carvalho Filho, autor de 'O Que É Pena de Morte'.

No final do período colonial, explodiu a Revolução Pernambucana de 1817. Um de seus líderes foi o carmelita Joaquim do Amor Divino Rabelo, o Frei Caneca. Alguns dos envolvidos foram enforcados em Recife e tiveram as cabeças e mãos decepadas.

O religioso acabou poupado, mas seu espírito contestador o levaria à frente de outro levante: já durante o Império, em 1824, ele comandou a Confederação do Equador, que declarou a independência de Pernambuco. Desta vez, ele não escapou da morte.

Quando chegou o dia da execução, surpresa: em respeito a Caneca, o carrasco se recusou a fazer o serviço. E mais: nenhum outro carrasco teve disposição para dar cabo do rebelde. Por isso, a forca foi substituída pelo fuzilamento, realizado em 13 de abril de 1825. Outro célebre religioso da história brasileira, aliás, também teve sua biografia marcada pela pena de morte — mas do outro lado.

Em 1567, o jesuíta espanhol de origem portuguesa José de Anchieta não só recomendou que o francês João de Boulé, considerado herege, fosse executado no Rio de Janeiro, como orientou o carrasco sobre como fazê-lo (há quem diga que foi por causa dessa atitude que o padre, fundador de São Paulo, jamais tenha sido canonizado).

Enquanto alguns condenados à morte foram transformados em mártires, outros acabaram eternizados pela cultura popular, indo parar até na literatura de cordel. O ABC de Lucas da Feira, de Rodolfo Coelho Cavalcante, conta a história do negro nascido em Feira de Santana, na Bahia, que se tornou um dos mais conhecidos cangaceiros do Nordeste. Confessou o assassinato de oito pessoas e foi enforcado em 1849.

O ABC termina assim: “Y é letra do fim / Comecei, quero findar: / Sendo a sentença pena última, / Queiram gente me perdoar / Zombei de velhos e moços, / Zombei também dos meninos, / Hoje chegou o meu dia: / Vou cumprir o meu destino”.