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Os órfãos do Titanic: as crianças que sobreviveram a uma das maiores tragédias da História

Levados por seu pai à famosa embarcação, Michel Jr. e Edmond Navratil só reencontraram seus familiares após uma longa jornada na América

Fabio Previdelli Publicado em 04/04/2020, às 09h00

Michel Jr. e Edmond Navratil, as crianças que sobreviveram ao Titanic
Michel Jr. e Edmond Navratil, as crianças que sobreviveram ao Titanic - Wikimedia Commons

Desde o início, a história de Michel Navratil se destacou entre os milhares de outros imigrantes europeus que sonhavam com uma vida melhor na América. No meio do divórcio com sua esposa — que recebeu a custódia de seus dois filhos, Michel Jr. e Edmond —, ele decidiu que estava na hora de um novo começo.

Com a autorização para ficar com os meninos, de quatro e dois anos na época, durante as férias da Páscoa, Navratil aproveitou a oportunidade de fugiu com os filhos para o Novo Mundo.

Todo esse enredo quase ficou perdido para sempre, afinal, não foram todos que sobreviveram ao desastre do Titanic. Registrados como passageiros de segunda classe e com nomes falsos, para evitar serem rastreados pela polícia francesa, os Navratils tiveram o que Michel Jr. lembrou mais tarde como uma viagem agradável. “Lembro-me de observar o comprimento do casco — o navio parecia esplêndido. Meu irmão e eu estávamos brincando no convés dianteiro e ficamos emocionados por estarmos lá”.

Reprodução do navio Titanic do filme de 1997 / Crédito: Divulgação

 

Na fatídica noite, os pequenos foram deixados sob o cuidado de uma mulher francesa chamada Bertha Lehmann, para que ela ficasse de olho neles enquanto o senhor Navratil jogava cartas.

Em 14 de abril de 1912, às 23h40, pouco depois do navio atingir o iceberg, Michel entrou em sua cabine com um outro homem e juntos eles levaram os dois meninos até os botes salva-vidas.

Apesar da pouca idade, Michel Jr. diz se recordar das últimas palavras de seu pai. "Meu filho, quando você encontrar sua mãe, e tenho certeza que encontrará, diga a ela que eu a amava muito e ainda amo. Diga a ela que eu queria que ela viesse conosco, para que nós pudéssemos todos viver felizes juntos na paz e liberdade do Novo Mundo".

O corpo do Sr. Navratil pereceu nas águas geladas e seus dois filhos foram as únicas crianças resgatadas do navio sem um pai ou um responsável por elas. Após o frenesi do desastre, Michel Jr. e Edmond se tornaram uma sensação na mídia. Eles ficaram temporariamente na casa de outra sobrevivente, Margaret Hays, que ficava no Upper West Side de Manhattan, enquanto as autoridades tentavam rastrear seus parentes.

Os pequenos ficaram conhecidos como “órfãos do Titanic”. Sem eles falarem em inglês e com os nomes falsos de Louis e Lola, identificar seus parentes provou ser uma tarefa bastante árdua. Um artigo publicado em jornal da época, dá conta de que eles respondiam qualquer pergunta do cônsul francês com um simples “oui”, pois estavam mais interessados em brincar com os novos brinquedos que ganharam do que conversar com um estranho.

Os pequenos ficaram registrados com os nomes falsos de Louis e Lola / Crédito: Wikimedia Commons

 

O mesmo artigo também continha um depoimento do pai de Margaret Hays sobre o desastre do Titanic. Quando ele foi indagado pelo repórter se os meninos podiam ser identificados pelas passagens compradas pelo pai, ele respondeu: “Eu nunca viajei pela segunda classe, não sei nada sobre isso”.

Esse comentário ilustrava não somente a divisão das classes que viajaram na embarcação, mas como a pouca importância que os menos afortunados recebiam. Dos 324 viajantes de primeira classe, 201 deles sobreviveram. Enquanto isso, dos 708 excursionistas das classes mais baixas, somente 181 saíram da tragédia com vida.

Os artigos de jornal sobre os meninos, que continham diversas fotografias, tiveram um papel fundamental para a revelação de suas verdadeiras identidades. Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, a mãe dos garotos procurava freneticamente seus filhos.

Nesse momento, ela já havia percebido que Michel havia sumido com as crianças, embora ela jamais pudera imaginar que eles estiveram a bordo do famoso Titanic. Quando as notícias sobre o desastre começaram a chegar à Europa, a desolada mãe notou que um dos artigos possuía uma foto de seus filhos.

Assim, ela conseguiu confirmar a identidade dos garotos junto as autoridades americanas. Depois de uma viagem longa, mas muito menos traumática, ela finalmente conseguiu se reunir com os pequenos em Nova York.

Foto que registra o reencontro de Michel Jr. e Edmond Navratil com sua mãe / Crédito: Library of Congress

 

A família voltou para França, onde os famosos “Órfãos do Titanic” seguiram suas vidas. Michel Jr. viveu o suficiente para se tornar o homem mais velho a sobreviver ao desastre, falecendo aos 92 anos, em 2001. Seu irmão, Edmond, não teve a mesma sorte, e morreu em 1953.

A história de sobrevivência e reunião da família se tornou um dos poucos finais felizes entre as centenas de contos tristes que o Titanic deixou.


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