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'Os pobres vão a praia': A reportagem que escancarou o preconceito nos anos 80

Marcado pela baderna e preconceito explícito, o episódio foi ao ar pelo "Documento Especial", da Rede Manchete

Wallacy Ferrari Publicado em 05/03/2022, às 09h00 - Atualizado às 23h20

Cenas do episódio 'Os pobres vão a praia'
Cenas do episódio 'Os pobres vão a praia' - Divulgação / Bloch

Em 1989, a Rede Manchete lançava um programa com conceitos curiosos sobre entretenimento e jornalismo; sendo uma mistura de "Globo Repórter" com sensacionalismo, o "Documento Especial" abordava temas quentes do país.

Capazes de render discussões acaloradas sobre tabus e desencontros sociais, o programa marca a história da televisão brasileira ao longo de 9 anos de exibição em três emissoras diferentes, chegando a ser ainda mais conhecido pela paródia fiel do grupo de humor Hermes & Renato, que a refazia como "Documento Trololó".

No ano de estreia, no entanto, a produção da Manchete chamou atenção com o episódio 'Os pobres vão à praia'. Nele, não apenas a trajetória de moradores de bairros menos favorecidos socioeconomicamente era mostrada até a chegada em praias de bairros nobres do Rio de Janeiro, como enaltecia as condições extremas que enfrentavam no caminho pelos ônibus, com veículos lotados, brigas e assédios.

Por outro lado, o registro documental capturou diversos depoimentos de moradores da área mais favorecida destilando preconceitos contra os turistas de regiões pobres, demonstrando preconceito e xenofobia explícita, com direito a letreiro de aviso. Este último, teve uma de suas opiniões reascendidas na internet no ano de 2015, quando o Rio de Janeiro enfrentava crises de arrastões.

Revisando a história

É sujeira você pegar uma pessoa que mora em Ipanema, uma pessoa bem-vestida, legal, que tem educação e colocá-la na praia no meio de um monte de gente que não tem educação, que vá dizer grosseria, que vai comer farofa com galinha. Vai matar as pessoas de nojo”, disse uma mulher

Na ocasião onde o vídeo voltou a ser compartilhado, a jovem de 18 anos que classifica os foliões como gente “do mangue” e “sub-raça” fez questão de se identificar, quase 30 anos depois da produção ir ao ar, através de um comentário no Facebook.

Tratava-se de Angela Moss que, atualmente, condena as opiniões que teve na reportagem da Manchete, enaltecendo que a opinião e vídeo eram verdadeiros, mas se classificou como uma "criança retardada" que "mesmo culta era uma alienada", acrescentando que ficava feliz com o incômodo popular de seu comentário, pois estes demonstram que a sociedade, assim como ela, evoluiu e se mantém contrária a tal opinião egoísta.

Em entrevista à BBC Brasil no mesmo ano, ela ainda acrescentou que recebeu algumas mensagens parabenizando o comentário preconceituoso, que não se orgulha: "Mudei de opinião. Evolui. Não sou mais essa pessoa. Por isso resolvi colocar minha cara a tapa, em vez de pedir para tirarem o vídeo do ar".