Matérias » Brasil

Indígenas brasileiros: Os Wari' e o canibalismo

Consumir os parentes podres e desfiados era uma das formas de canibalismo desses indígenas da Amazônia

Joseane Pereira Publicado em 03/06/2019, às 14h00

Meninos com queixada. Aldeia Rio Negro Ocaia, Rondônia. Foto: Beto Barcelos, 1987
Meninos com queixada. Aldeia Rio Negro Ocaia, Rondônia. Foto: Beto Barcelos, 1987 - Instituto Socioambiental

Os Wari’, grupo indígena que originalmente se situa no noroeste da Amazônia, são uma das várias etnias brasileiras com costumes ainda não totalmente compreendidos por nós. Sua sociedade é igualitária (sem chefes ou especialistas de qualquer espécie) e para eles, certas espécies de plantas e animais também são consideradas humanas, por serem dotados de espírito.

Em 1960, após serem reduzidos à metade da população por conflitos com seringueiros e epidemias, os Wari’ foram agrupados em um pequeno território do Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Isso fez com que o grupo deixasse de praticar outro ato característico: o canibalismo ritual, que ocorria por dois motivos muito diferentes.

Canibalismo de guerra

Os Wari’ consideram seus inimigos como parentes que se distanciaram e cujas relações de amizade foram rompidas. Durante as guerras, quando os inimigos eram mortos, partes deles eram levadas às aldeias dos matadores e comidas por suas esposas e outros adultos da aldeia. A carne era assada e ingerida em grandes pedaços.

Os matadores entravam em reclusão, permanecendo deitados e evitando ferimentos. A ideia era que o sangue do inimigo morto, que simbolicamente estava dentro do guerreiro, continuasse por lá. Seu único alimento era uma bebida de milho não fermentada, chamada Chicha. 

Por conter dentro de si o sangue do inimigo, o matador não podia comer seu corpo. Isso simbolizaria um auto-canibalismo, e provocaria sua morte.

Com a invasão das terras Wari’ pelos seringueiros, no início do século 20, os brancos é que viraram os inimigos, devido a ataques que causavam a morte de membros da aldeia.

Com isso, o governo se apressou em agrupá-los num território específico, para acabar com as mortes e, principalmente, abrir caminho para a extração da borracha.

Fotografia do primeiro contato dos Wari' com os brancos /
Créditos: Instituto Socioambiental

 

Canibalismo funerário

A segunda prática de canibalismo se dava entre os mortos do grupo. Quem organizava o funeral eram os parentes de sangue, considerados seus parentes verdadeiros, e quem fazia a coisa acontecer eram os parentes distantes (geralmente a família da esposa ou do marido do falecido).

Como alguns parentes de sangue viviam em outras aldeias, o funeral demorava cerca de 3 dias para acontecer. Enquanto isso, o cadáver apodrecia. E era nesse estado que o morto era oferecido para os parentes distantes comerem: sua carne podre, cortada e desfiada, era depositada sobre uma esteira com pamonha e milho.

Espetada em pauzinhos, a carne era quase intragável e às vezes impossível de comer. O que não se comia era queimado junto com cabelos e órgãos internos. Os ossos eram macerados e ingeridos com mel, geralmente pelos netos do morto.

Homens dançando Tamaiá / Créditos: Instituto Socioambiental

 

Laços imortais

Segundo a crença Wari’, após o ritual de canibalismo o espírito do parente passava a viver no mundo subaquático dos mortos, em uma sociedade paralela formada por aldeias sob as águas. O morto que sentisse saudade de seus familiares vivos, ou tivesse vontade de passear pela terra, poderia voltar na forma de queixada, uma espécie de porco selvagem, que era caçada e comida pelos Wari’.

O ancestral em forma de animal se aproximava de um caçador que era seu parente próximo, permitindo que este o matasse para que sua carne alimentasse a própria família. Assim, os laços de ajuda mútua, que são o cerne da vida familiar Wari’, continuavam depois da morte em uma relação na qual os vivos e os mortos se alternavam na posição de predador e presa.


Saiba Mais

Informaçõs sobre os Wari' no Instituto Sociocioambiental: https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Wari'

CASTRO, Eduardo Viveiros de. A Inconstância da Alma Selvagem. Editora Cosac Naify, 2014.

A Morte como Ritual, de Eduardo Viveiros de Castro: