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Em um cenário tétrico, Osório César tentou estimular a produção artística dos pacientes do Juquery

Osório foi um dos pioneiros na mudança dos tratamentos de pacientes psiquiátricos no Brasil

Giovanna Gomes, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 23/05/2021, às 10h00

Foto do registro funcional de Osório César, datado do ano de 1937
Foto do registro funcional de Osório César, datado do ano de 1937 - Divulgação/Museu Osório César/Acervo Juquery

Osório Thaumaturgo César foi uma figura importantíssima para a história da psiquiatria no Brasil. Marido da grande artista plástica brasileira Tarsila do Amaral, o profissional foi um dos principais responsáveis pela mudança da forma de tratamento dos pacientes que se encontravam em manicômios no país, tendo atuado durante décadas no Hospital Psiquiátrico do Juquery, localizado no município de Franco da Rocha, em São Paulo.

Condições desumanas

Em entrevista ao Aventuras na História, o jornalista Daniel Navarro Sonim e o ex-funcionário do Juquery, José da Conceição, que escreveram o livro "Cinzas do Juquery: os horrores no maior hospital psiquiátrico do Brasil", explicaram quem eram e como foram tratadas as pessoas que viviam na unidade.

Segundo eles, todos aqueles que fossem considerados fora dos padrões impostos pela sociedade eram internados. Além de pessoas com transtornos mentais, havia no local imigrantes, ex-escravos, presos políticos, homossexuais e mães solteiras.

Os autores explicam que os internos diariamente sofriam maus-tratos, privações e não havia nem mesmo diagnósticos confiáveis que justificassem a permanência de muitos dos pacientes.

Fachada do Juquery / Crédito: Divulgação/Universidade de São Paulo

 

Um grande pioneiro

Conforme informou Sonim, o doutor Osório foi um dos pioneiros na mudança de tratamento dos internos e estimulava a produção artística daquelas pessoas.

"Como mencionado no livro, ele foi casado com a Tarsila do Amaral e os dois tinham esse ponto em comum, principalmente a pintura e o fato de acreditarem nas artes," disse o jornalista.

Ele ainda afirmou que o médico "promoveu algumas exposições dos desenhos e das pinturas desses pacientes que passaram pelo Juquery durante os 40 anos em que ele trabalhou lá."

Fotografia de Tarsila do Amaral do ano de 1925 / Crédito: Domínio Público/Seção de Periódicos da Biblioteca Mário de Andrade 

 

"Algumas dessas exposições foram parar no MASP, ele conseguiu colocar esses trabalhos no MASP a primeira vez em 1948, um ano depois da inauguração do museu, e depois em 1954", explica o escritor. "Cinco anos antes de morrer, em 1974, o doutor César doou a coleção particular dele para o MASP."

Ele indica que isso demonstra que o psiquiatra ansiava manter um acervo de arte, em vez que de arquivar os trabalhos como parte de seus estudos.

"É como se os pacientes tentassem verbalizar ou passar para a tela as aflições e angústias que tinham e, de alguma forma o doutor Osório conseguia lidar com eles," considerou o autor do livro.

O especialista ainda chegou a criar, no Juquery, a Escola Livre de Artes Plásticas, da qual foi diretor de 1956 até início da década de 1970.

Fachada do MASP, em São Paulo / Crédito: Wikimedi Commons/Wilfredor

 

Um tratamento mais humanizado

"Essa preocupação do Osório César em ver o potencial artístico dos pacientes está muito relacionado com o que a Nise da Silveira fazia no Rio de Janeiro. Isso fica bastante evidente na biografia dela", diz o escritor.

A médica psiquiatra citada teve um papel decisivo na mudança dos tratamentos em clínicas no Brasil e, assim como César, acreditava na arte como excelente alternativa para seus pacientes.  

"Ao invés de deixar os pacientes medicados o tempo inteiro, recebendo tratamentos que, na verdade, promoviam dor e sofrimento, como eletrochoque, os psicotrópicos ou o descaso e o abandono, eles tentavam extrair algo de positivo no trabalho dos pacientes," pontuou o jornalista. 


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