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Padre do balão: a tragédia do pároco brasileiro que tentou ficar 20 horas no ar

Ativista pelos direitos humanos, Adelir Antônio de Carli pretendia usar o ato para arrecadar dinheiro, porém acabou encontrando um fim trágico

Ingredi Brunato Publicado em 23/08/2020, às 09h00

Fotografia do dia chuvoso em que o padre fez a viagem.
Fotografia do dia chuvoso em que o padre fez a viagem. - Divulgação/Youtube

Em abril de 2008, o padre Adelir Antônio de Carli se preparou para um ato ousado. Sentado em uma cadeira suspensa por mil balões de gás hélio, ele planejava quebrar um recorde: ficar vinte horas no ar, em uma viagem de balão que começaria no Paraná e terminaria em Mato Grosso do Sul. 

Oito horas depois, porém, o mau tempo o desviou em até 180 graus do seu percurso original, levando o católico a ligar pedindo pela equipe de resgate. “O pessoal está vindo ou não está vindo?”, teria perguntado em seu último contato, já sobrevoando o mar em vez da terra firme.

Motivações para o voo 

Adelir Antônio de Carli estava envolvido com a luta pelos direitos humanos já fazia algum tempo quando planejou seu voo. Ele acabou ganhando destaque ao denunciar a violência de agentes de segurança pública contra os moradores de rua da cidade de Paranaguá, onde ficava sua diocese, denúncias essas que resultaram na prisão dos envolvidos na tortura dos sem-teto. 

O padre também tinha um projeto dedicado ao atendimento a caminhoneiros, chamado de Pastoral Rodoviária. Adelir precisava, todavia, de mais recursos financeiros para levar a causa para frente, e é daí que surgiu a ideia de voar de forma tão inédita. 

O primeiro voo suspenso por balões de gás feito pelo pároco foi em janeiro, quando ele saiu do Paraná em destino à Argentina, trajeto completado em cinco horas, dessa vez com a ajuda de 500 balões de festa. 

"Se você pegar um frio que lá em cima pode passar até dez graus abaixo de zero, você se mantém com a mesma tranquilidade", afirmou na época. "Se começar a queda bem mais alto, tem que abandonar o equipamento - no caso, os balões. Aí você aciona o paraquedas reserva, que está ao lado do piloto".

A experiência rendeu atenção da mídia, o transformando temporariamente em uma celebridade nacional. O “padre do balão”. No entanto, os cinco minutos de fama não foram o suficiente para que conseguisse divulgar satisfatoriamente a Pastoral Rodoviária. 

Por isso, estava prestes a repetir a aventura de forma ainda mais ousada - e também mais arriscada. A habilidade no manejo do GPS também era bem minguada. O padre, porém, não se importou: munido apenas de sua fé em Deus e paixão por ajudar os outros, partiu em sua viagem fatal. 

Fim trágico 

Depois de contatar a equipe de resgate, Adelir desapareceu no Oceano Atlântico. A busca por seu corpo envolveu a Marinha, a Aeronáutica, e um grupo de bombeiros voluntários que passaram um mês inteiro vasculhando o mar nos arredores de Santa Catarina, onde acredita-se que ocorreu a queda. A única coisa que acharam, porém, foram balões de hélio furados, como um triste fim de festa. 

Foi apenas três meses depois que um navio da Petrobrás encontrou por acaso os restos mortais do padre paranaense, a 100 quilômetros da costa fluminense. Um teste de DNA confirmou a identidade de Adelir Antônio de Carli, que provavelmente morreu de hipotermia.