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Pais enxergam 'erotização': Diário de Anne Frank é alvo de polêmica esdrúxula no Brasil

Pais de estudantes reclamaram de trecho de adaptação em quadrinhos do livro escrito pela judia; Fundação rebate acusações: “ultrajantes e ridículas”

Fabio Previdelli Publicado em 08/06/2021, às 16h00

Ilustração de "O diário de Anne Frank em quadrinhos" (2017)
Ilustração de "O diário de Anne Frank em quadrinhos" (2017) - Divulgação/ Editora Record/ David Polonsky

Meses após a Alemanha nazista invadir os Países Baixos na Segunda Guerra Mundial, a pequena Anne Frank começou a relatar em seu diário os momentos vivenciados pelo grupo de judeus confinados em um esconderijo.  

Anne, pouco depois, acabou sendo capturada e transportada até o campo de concentração de Bergen-Belsen, falecendo de febre tifoide pouco antes da libertação do local, em 1945, quando tinha apenas 15 anos.  

Com os judeus em liberdade após anos de perseguições e dizimação, o pai da jovem, Otto, recebeu da ajudante Miep Gies as anotações feitas por Frank. Segundo o site Anne Frank House, a princípio, Otto não suportou ler os textos escritos pela filha. “Não tenho forças para lê-los”, escreveu em carta para sua mãe em agosto daquele ano.  

Simulação do anexo secreto de Anne Frank /Crédito: Wikimedia Commons


Porém, meses depois, ele mudou de ideia, decidindo compartilhar trechos com seus parentes na Basiléia, parlamente traduzindo os escritos para o alemão.

Impulsionado por amigos e familiares que achavam que os relatos eram “um importante documento”, o pai de Anne decidiu procurar uma editora para publicar os escritos da filha.  

Hoje, 76 anos depois, O Diário de Anne Frank já vendeu mais de 35 milhões de cópias em todo mundo, segundo o The New York Times. Traduzido em mais de 70 idiomas e publicado em mais de 40 nações, a obras vendeu 16 milhões de exemplares no Brasil, como aponta o site Público, de Portugal.  

O livro se tornou um importante registro de um dos períodos mais sombrios da história da humanidade, se tornando fundamental para quem deseja compreender os horrores do Holocausto. Apesar de sua importância histórica, a obra virou alvo de polêmicas em uma escola particular de São Paulo. 

A polêmica

Conforme aponta matéria publicada pela Folha de São Paulo na última quarta-feira, 2, pais de estudantes da Escola Móbile, em São Paulo, entraram em contato com a direção do colégio por considerarem que a versão em quadrinhos do “Diário de Anne Frank” estava erotizando a personagem.  

O livro em questão era a versão em inglês da obra, usada pelos alunos na aula do idioma estrangeiro. Em tradução livre, as partes que causaram polêmica são: “toda vez que vejo um nu feminino, vou a êxtase” e “esse buraco é tão pequeno que mal consigo imaginar como um homem entra aqui dentro [...] já é difícil enfiar meu dedo indicador dentro”. 

Rebatendo as acusações, representantes da Escola Móbile disseram que “Anne’s Frank Diary: The Graphic Adaptation” é uma versão oficial da história da judia, defendendo que o livro, inclusive, é recomendado pela Fundação Anne Frank e pela Unicef, da ONU — que considera a escrita um patrimônio da humanidade.  

Anne Frank /Crédito: Wikimedia Commons


Em nota, a escola disse que a adaptação em quadrinhos estava sendo usada por estudantes do sétimo ano do Ensino Fundamental. “A leitura integra um projeto amplo para o debate e reconhecimento dos horrores do Holocausto, estimulando a reflexão sobre seu contexto histórico”, salientando que o livro é recomendado para crianças da faixa etária entre 8 e 12 anos.  

“A Móbile salienta que todo o conteúdo textual da edição consta no diário original redigido por Anne Frank, inclusive os trechos pontuais que suscitaram a referida discussão. Por fim, a escola tem conversado com alguns pais que levantam dúvidas sobre o conteúdo do livro”, completaram. 

Editora e Fundação se manifestam 

Com a repercussão da reclamação, a Fundação Anne Frank se manifestou oficialmente por meio de uma nota divulgada na Veja São Paulo, onde diz consideram as acusações dos pais dos estudantes como “ultrajantes e ridículas”. 

A Fundação compreende que esse tipo de reflexão poderia ser visto como pouco provável para uma jovem que vivia naquela época, mas ressaltou que Anne já tinha "ideias muito visionárias sobre a independência feminina, os direitos das mulheres e a posição das mulheres na sociedade em geral". 

Inicialmente, como a própria Fundação explica, Otto suprimiu tais passagens na primeira versão do livro, publicada em 1946. “Ele estava muito envergonhado e achou que não eram apropriados para uma menina”.  

Porém, a Fundação diz que os tempos mudam e que cada vez mais os fãs do mundo inteiro anseiam para conhecer a “REAL Anne Frank”. “Então foi decidido, após a morte de Otto Frank, publicar o Diário completo, incluindo pela primeira vez todas as passagens que Otto Frank retirou”.

Páginas do diário de Anne Frank / Crédito: Getty Images

 

A versão original que foi adaptada aos quadrinhos está disponível ao público desde 1991. "Ninguém teria, nem remotamente, a ideia maluca de adicionar algo ao diário que Anne nunca tivesse escrito. Por que faríamos uma coisa tão estúpida?", questiona a Fundação.

"Todo o propósito da existência de nossa fundação é PROTEGER o legado de Anne, o que significa ser sempre verdadeira e fiel à sua herança e defender seus direitos de personalidade sem comprometimento”, completa a Fundação, que disponibilizou ao site da revista as imagens originais das escritas de Frank sobre os trechos citados acima, que podem ser vistos na matéria publicada pela Veja

Parceira da Fundação Anne Frank no Brasil, a Editora Record também se manifestou, dizendo que a acusação é “totalmente infundada e descabida”. “A versão em quadrinhos, publicada com muito orgulho pela Editora Record, assim como a sua versão em inglês, retrata de forma fiel o trecho do diário em que a autora, a adolescente judia Anne Frank, fala sobre a descoberta do próprio corpo, algo comum nesta fase da vida.” 

Outras polêmicas com O Diário de Anne Frank 

Em janeiro deste ano, os escritos de Anne já haviam virado alvo de uma polêmica no Twitter. Na ocasião, como relata matéria publicada pela equipe do site do Aventuras na História, em um post no Twitter dedicado a 'Criar uma treta literária', um usuário disse que “O Diário de Anne Frank é superestimado”, algo que foi corroborado por uns, mas criticado pela maioria. 

Em entrevista exclusiva ao Aventuras, Carlos Reiss, Coordenador-Geral do Museu do Holocausto de Curitiba, disse que O Diário de Anne Frank não pode ser analisado apenas como um produto literário, ou seja, uma obra desprovida de contexto histórico. 

Foto de Anne Frank / Crédito: Wikimedia Commons

 

“A riqueza do livro está tanto no perfil da autora quanto na possibilidade de nos identificarmos, de gerar empatia, de desenvolver a alteridade”, afirmou.

A entrevista completa pode ser lida clicando aqui.  

Piadas no Diário 

Pesquisadores da Fundação Anne Frank, em Amsterdã, revelaram, em 2018, conteúdos ocultos que foram descobertos no primeiro diário escrito pela menina judia, datados até novembro de 1942 — as escritas posteriores de Anne foram feitas em cadernos.  

Assim as páginas 78 e 79 — que foram cobertas com papel kraft (espécie de papelão fino), colado pela própria Anne para que não fossem lidas — foram reconstruídas por meio de um processo fotográfico digital. Nesses trechos, encontraram-se algumas piadas maliciosas e descobertas sexuais feitas pela garota.  

Textos revelados pelo processo digital / Crédito: Divulgação/ Fundação Anne Frank

 

Segundo Frank van Vree, diretor do Instituto de Estudos da Guerra, Holocausto e Genocídio da Holanda, “qualquer pessoa que ler as passagens recém-descobertas será incapaz de evitar um sorriso”.

Para o diretor, as escritas mostram que, apesar de sua situação, Anne tinha a curiosidade e os questionamentos de qualquer garota de sua idade, como aponta matéria publicada pela equipe do site do Aventuras na História. Leia a matéria completa.


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