Há 20 anos, o Edifício Palace II desmoronava no Rio

Obra da construtura de um deputado federal deixou 8 mortos e 150 famílias desabrigadas, num caso que ainda corre na justiça

quarta 21 fevereiro, 2018
O prédio destruído em reportagem da TV Globo
O prédio destruído em reportagem da TV Globo Foto:Rede Globo/Reprodução

Era meia-noite do domingo para segunda de Carnaval quando os moradores do Palace II ouviram o estrondo. O concreto na base de duas colunas do prédio havia cedido, restando apenas colunas de ferro a sustentar os 130 metros e 22 andares do edifício. Um frenético esforço de evacuação começou, mas nem todo mundo estava fora quando, às 3 da manhã, vieram brutalmente ao chão 44 apartamentos inteiros do bloco afetado. Abriu-se um rombo de cima a baixo, deixando apenas uma horrenda montanha de entulho no lugar. Na qual jaziam 8 vítimas, todos os que estavam dentro do bloco, sem nenhum sobrevivente. 

MATERIAL DE QUINTA

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O Palace II foi erguido pela Construtora Sersan, do empresário e engenheiro Sérgio Naya. Que também vinha a ser deputado federal pelo PP (Partido Progressista).

As obras em si já causaram polêmica. Iniciadas em 1990, na Barra da Tijuca, estavam previstas para serem finalizadas em 1995, mas houve atrasos. Em 1996, após a morte de um operário que caiu no fosso do elevador, a construção foi interrompida pela Defesa Civil.

A Sersan já havia sido processada 4 vezes pela má construção do prédio, que não possuía o habite-se – documento que determina se um empreendimento foi construído seguindo as exigências impostas pela prefeitura. Além disso, o Ministério Público acusou a empresa de ter utilizado materiais de má qualidade na construção do prédio, que iam de areia da praia até garrafas pet. "Se areia de praia desse concreto, mesmo de baixa qualidade, não haveria mais praias no Rio de Janeiro, pois não dá liga para o concreto", declarou o empresário Sérgio Naya na época.

Depois do desastre, o deputado federal tentou culpar os moradores, alegando que o excesso de carga no edifício teria sido o real causador da tragédia.

SEGUNDO ACIDENTE

Após a constatação de falhas na estrutura, a prefeitura anunciou que o prédio seria implodido em um prazo de 5 dias.

No dia 27 de fevereiro o inesperado aconteceu. O que restava da estrutura desmoronou quando toneladas de água – que haviam sido despejadas na cobertura do prédio na tentativa de diminuir os impactos ambientais da implosão – vieram abaixo, destruindo 22 apartamentos.

Detalhe: um lado técnico emitido então afirmava que os moradores poderiam voltar ao edifício para buscar os seus pertences. A implosão do prédio aconteceu de fato no dia seguinte. Ao final de tudo, 150 famílias estavam desabrigadas.

Temendo as consequências, Naya fugiu para os Estados Unidos. Foi capturado em Miami e ficou preso por 137 dias. O deputado terminaria absolvido por não ter sido o engenheiro que errou no cálculo do projeto e pelo fato de o laudo não ter sido "convincente" quanto ao uso de materiais de má qualidade. Além disso, os promotores envolvidos no caso alteraram a classificação do caso de homicídio doloso para culposo, isto é, sem intenção de matar.

"JUSTIÇA"

Diante do escândalo, Sérgio Naya perdeu seu mandato. Seu cargo foi cassado pela câmara em 31 de março, por 277 a favor, 163 contra, 21 abstenções e 10 brancos. Quase não passou: eram necessários 257 votos. 

A Sersan se comprometeu a indenizar as famílias em um prazo total de 6 meses. Mas a promessa foi em vão. Naya teve suas contas bancárias bloqueadas e foi condenado a pagar indenizações que iriam de 200 mil a 1,5 milhões de reais. Seus bens foram leiloados – na época, ele possuía inúmeros imóveis tanto no Brasil quanto fora, uma dezena de carros luxuosos e empresas de mineração e turismo.

Para o azar dessas famílias,  as execuções judiciais não terminaram antes de sua morte em fevereiro de 2009, vítima de um infarto agudo. Ainda recebia sua pensão como ex-deputado.

Hoje, no local onde ocorreu o desabamento existe o Barra One, um edifício de luxo da construtora Calçada. Ele fica ao lado do Palace I, que passou por melhorias. E, quanto às famílias, mais de 130 delas ainda brigam na justiça pelo pagamento total das indenizações, que são estimados em um total de 70 milhões de reais. Até 2016, elas haviam recebido menos da metade desse valor. 


Fontes: Acervo Folha, O Globo, Rede Globo, Jornal do Brasil / Imagens: Rede Globo

Thiago Lincolins


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