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Para historiador, Jesus era mais um revolucionário judeu

Em sua visão, Jesus tinha o objetivo de combater a ocupação romana e devolver a Terra Santa ao povo escolhido

Fabio Marton // Edição 123, Outubro 2013 Publicado em 28/11/2021, às 09h00

Representação de Jesus Cristo
Representação de Jesus Cristo - Getty Images

Não é segredo que existe um Jesus para os fiéis e outro para os historiadores. O primeiro é Deus encarnado no útero de uma virgem. O segundo é um profeta judeu. Mas isso não quer dizer que eles não tenham semelhanças: Jesus, histórico ou religioso, era alguém da paz. Enquanto outros candidatos a messias da época tentavam se livrar da dominação romana, ele defendia que era preciso dar a outra face e deveríamos dar a César o que é de César, a Deus o que é de Deus.

Para o escritor e acadêmico das religiões Reza Aslan, esse Jesus apolítico é tão anti-histórico quanto aquele que anda sobre as águas. Ele é autor de 'Zelota — A Vida e a Época de Jesus de Nazaré', no qual desconstrói o estereótipo do Jesus pacifista como uma “completa fabricação” de cristãos que nunca o conheceram em pessoa.

Fora, romanos

O método de Zelota não é diferente de outros trabalhos de busca pelo Jesus histórico. É uma leitura crítica dos Evangelhos na qual são excluídas as partes que contradizem o contexto da época. Por exemplo, quase nenhum historiador contemporâneo acredita que Jesus nasceu em Belém, porque o censo dos Evangelhos não existiu.

A diferença é que Aslan decidiu cortar muito do que se considera a essência de Jesus. Os zelotes, ao qual o título do livro faz referência, eram os integrantes de uma seita que, literalmente, “zelavam por Deus”. Era um movimento político que tentava incitar a população do Oriente Médio a se insurgir contra a dominação romana. Para Aslan, Jesus era um deles. Para a Bíblia, pelo menos um de seus discípulos, Simão, era zelote, e ficou conhecido pelo apodo.

Em João 18:36 há um verso crucial nesse entendimento: “Meu reino não é deste mundo”. Ou seja, Jesus não queria ser rei de Israel. “A figura histórica de Jesus é a de um pacifista, em oposição aos candidatos a messias anteriores e contemporâneos a ele”, diz André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Mosaico de Jesus Cristo / Crédito: Getty Images

 

Jesus é muito reacionário, não tem nada de incendiário, defensor de uma luta aberta.” De acordo com Chevitarese, estava “muito mais para Gandhi do que Arafat”, em analogia com o líder pacifista da Índia e o briguento fundador da Organização para a Libertação da Palestina, Yasser Arafat. Aslan descarta o Evangelho de João, que estabelece a concepção de Jesus que dura até hoje.

Para o historiador, tal imagem seria impossível enquanto ele estava vivo. “Se alguém quer descobrir no que Jesus realmente acreditava, não pode perder de vista este fato: Jesus de Nazaré era, em primeiro e último lugar, um judeu”, afirma.

E zelo, entre os judeus da época, significava não só viver de acordo com as leis religiosas mas lutar pela restituição do Reino de Deus, isto é, de Israel, sob o comando dos judeus. Um reino bem deste mundo, que o Jesus “zelote” de Aslan — ou da História, de acordo com ele — defendia ferrenhamente.

A passagem do “dai a César o que é de César”, na qual Jesus é questionado a respeito dos impostos pelos fariseus (corrente religiosa que daria origem ao judaísmo atual), é vista, no que talvez seja a interpretação mais original, como um chamado à teocracia. Para Aslan, a questão colocada a Jesus não era realmente sobre impostos.

“O tributo era particularmente ofensivo porque implicava que a terra pertencia a Roma, não a Deus”, diz. Assim, quando Jesus diz para dar a Deus o que é de Deus, ele se refere à terra de Israel, enquanto dar a César as moedas com sua face estampada era um jeito de gritar “fora, romanos”.

Aparecimento de Jesus Cristo a Maria Magdalena (1835) por Alexander Andreyevich Ivanov / Crédito: Wikimedia Commons

 

"Hosana"

Jesus entrega suas pretensões reais, segundo Aslan, no episódio do Domingo de Ramos, quando fez uma entrada triunfal em Jerusalém, montado em burro, com ramos de palmeira colocados no caminho pelo povo, que o saudava com “Hosana!” (salve!). Jesus buscava cumprir a profecia em Zacarias 9:9: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu rei virá a ti, justo e salvador, pobre, e montado sobre um jumento, e sobre um jumentinho, filho de jumenta”.

Até aí, é coisa que qualquer denominação cristã concorda. Mas, segundo Aslan, não existia então o conceito do messias de um reino imaterial. Jesus estava clamando o trono para si. E seu ato seguinte, atacar os comerciantes no Templo, era uma afronta direta à única autoridade dos judeus que restava, os sacerdotes, não apenas coniventes mas parte da estrutura de dominação de Roma.

Todos os dias, o sumo sacerdote oferecia dois sacrifícios de animais pela saúde do imperador romano. Jesus não foi condenado por heresia, mas por conspiração. A placa sobre sua cruz, “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”, não foi piada dos romanos.

Era a descrição de seu crime, o de proclamar-se rei. O título de “Filho do Homem”, que Jesus usa diversas vezes para se referir a si mesmo, é uma forma críptica de se chamar de Messias, tirado de uma passagem profética do Livro de Davi. O codinome, assim como o hábito de se comunicar por parábolas, são indícios que Jesus queria manter em segredo sua real pretensão: tornar-se rei de Israel, expulsar os romanos e punir seus colaboradores. Os romanos sabiam muito bem o que “messias” queria dizer.

“Chamar-se Messias durante a ocupação romana era equivalente a declarar guerra a Roma”, escreve Aslan. Mas não faltavam candidatos. No ano 6, Judas da Galileia juntou um exército e tomou o quartel de Séforis, para ser aniquilado pelos romanos. O mesmo Pôncio Pilatos que ordenou a execução de Jesus também crucificou “O Samaritano”, outro candidato a messias que não tinha Exército. Em 46, os filhos de Judas da Galileia, Tiago e Simão, tiveram o mesmo fim.

Durante a Grande Revolta Judaica, de 66 a 73, houve uma multidão de messias entre os líderes rebeldes, como Eleazer ben Simon, Simon bar Giora e Menahen ben Jair (este, um neto de Judas). Em 136, mais de 100 anos depois da morte de Jesus, Simon bar Kokhba liderou mais uma tentativa de restaurar o reino de Israel.

Representação de Jesus Cristo, líder religioso / Crédito: Wikimedia Commons

 

O propagador

A natureza divina era algo que dificilmente Jesus ou seus apóstolos defenderiam. “A ideia de um messias divino seria um anátema a tudo que o judaísmo representa”, diz Aslan. Eles simplesmente não sobreviveriam a essa afirmação, heresia mortal para os judeus.

Estevão, o primeiro mártir do cristianismo, foi apedrejado em Jerusalém em 34 por afirmar que viu Jesus “à mão direita de Deus”, quer dizer, compartilhando de sua divindade. Tiago, chamado na Bíblia de irmão de Jesus, sobreviveria quase três décadas em Jerusalém como o líder dos cristãos — e, mesmo assim, sendo um homem muito respeitado na cidade. Sua morte, numa conspiração do sumo sacerdote Hanan ben Hanan, em 62, foi retratada pelo historiador judeu Flávio Josefo como uma grande infâmia, condenada por todos os cidadãos honestos.

Estevão era um judeu da diáspora, que nunca viu Jesus em pessoa e falava grego como língua materna, vindo de uma cultura altamente helenizada. Exatamente como Paulo de Tarso, considerado quase universalmente o verdadeiro fundador do cristianismo por historiadores contemporâneos.

“O cristianismo que a gente tem hoje é paulino, não só na vertente católica como protestante, não tem discordância a respeito disso”, afirma André Barroso, professor de História e Filosofia do Núcleo de Pesquisas Sócioambientais da Universidade Estácio de Sá. Paulo defendia uma ruptura completa com o judaísmo, abandonando as leis mosaicas, pregando para os gentios (isto é, os não etnicamente judeus), e defendendo o status divino de Jesus.

Reconstituição facial forense de Jesus de Cícero Moraes / Crédito: Wikimedia Commons

 

Paulo teve rusgas com Pedro e Tiago, os líderes da ala “judaizante” do cristianismo, que limitavam sua pregação aos judeus e seguiam estritamente as leis judaicas. A destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70, durante uma grande revolta nacionalista, fez com que essa ala fosse extinta, sobrando os conversos internacionais, do trabalho de Paulo. O trauma da destruição teve suas consequências.

Todos os evangelhos foram escritos depois da guerra e tentam varrer para debaixo do tapete o lado revolucionário de Jesus. “Depois da revolta dos judeus e da destruição do Templo de Jerusalém, a Igreja primitiva tentou desesperadamente separar Jesus do nacionalismo que levou àquela guerra terrível”, diz Aslan. Jesus se tornou uma figura quase pró-Roma, que pede para dar a outra face ao soldado inimigo. Pôncio Pilatos, um tirano cruel e insensível segundo todas as fontes da época, torna-se quase um herói, de forma que a culpa pela morte de Jesus recaísse sobre os judeus, não sobre os romanos.

“Dois mil anos depois, o Jesus de Paulo soterrou completamen- te o Jesus da História”, afirma Aslan. “É uma vergonha. Porque aquilo que qualquer estudo compreensivo sobre o Jesus histórico deve revelar é que Jesus de NazaréJesus, o homem — é tão intrigante, carismático e merecedor de louvor quanto Jesus, o Cristo.”


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