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O passado narrado a partir da moda: "Os tecidos e suas modelagens definem momentos da história"

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, a especialista em História da Moda e idealizadora do projeto Moda com História, Laura Wie, explicou como as vestimentas revelam períodos históricos

Victória Gearini | @victoriagearini Publicado em 01/08/2021, às 07h18

Ilustração de Gabrielle Chanel
Ilustração de Gabrielle Chanel - Openthedoor estúdio de animação (todos os direitos reservados)

A história da moda está diretamente ligada à história da humanidade. Uma determinada roupa, por exemplo, pode contar a história de uma cultura, de uma nação e até mesmo de uma geração.

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, a especialista em História da Moda e idealizadora do projeto Moda com História, Laura Wie, explicou como as vestimentas estão diretamente ligadas ao contexto histórico de uma determinada sociedade e época.

A história a partir da moda 

Segundo a especialista, a partir das roupas de um determinado período histórico podemos conhecer o contexto histórico e social de um povo.

A palavra moda vem do latim modus que significa modo, maneira (de um indivíduo se comportar, de conviver, de agir). Ou seja, a moda de cada época é um retrato daquele período histórico, que documenta por meio de peças de roupas as necessidades da sociedade e seus códigos de comportamento, além dos tecidos disponíveis e técnicas de corte, modelagem e costura. Tudo isso proporciona panoramas da expressão de um povo, em determinado tempo”, disse a idealizadora do projeto Moda com História.
Ilustração de Gabrielle Chanel / Crédito: Openthedoor estúdio de animação (todos os direitos reservados)

 

Conforme explicou Laura Wie, guerras e revoluções também impactaram diretamente a indústria da moda, desde o estilo de se vestir até as formas de confecções. 

Os movimentos marcantes da história, que alavancaram a evolução da sociedade, sempre foram preponderantes para o desenvolvimento da moda também. Foi a partir do ano de 1750 — que marca o início da Primeira Revolução Industrial — que surgiram as máquinas de fiar e o tear mecânico, o que viabilizou os setores de confecção como um todo. Já as guerras trazem situações emergenciais que exigem um esforço maior das nações envolvidas, nas áreas de tecnologia, ciência e infraestrutura. Tudo isso acaba respingando na vestimenta”, analisou ela. 

No século passado, por exemplo, o mundo enfrentou duas guerras mundiais. Ambos conflitos armados mudaram o modo de produção de muitos países. Além disso, impactaram diretamente na cultura e, consequentemente, na moda daquele período.  

Apenas no século 20 tivemos duas grandes guerras que, independentemente do seu caráter destrutivo, proporcionaram conquistas duradouras no campo da moda — nem sempre pelo excesso de possibilidades; na maioria das vezes, pela falta delas. Um exemplo na Primeira Guerra Mundial foi o macacão feminino, traje usado nas fábricas por mulheres que entraram no campo de trabalho, já que os homens estavam no front. Depois disso, o look perdurou. Já durante a Segunda Guerra Mundial, eu gosto de mencionar a criação de sapatos feitos com cortiça, palha, cânhamo e tecidos sintéticos, uma vez que havia escassez de couro. Não esquecendo que a criatividade em novos usos e materiais é o recurso mais valioso de estilistas e designers”, revelou a especialista. 

Da Antiguidade aos dias atuais 

Os tecidos das roupas revelam momentos da história, o que comprova que a moda está diretamente ligada aos aspectos culturais e sociais de um determinado período e civilização.

Desde a Antiguidade, os tecidos naturais que usamos em nossas roupas são os mesmos: algodão, linho, lã e seda. No século 20 surgiram os tecidos sintéticos, mas atualmente existem também os tecidos tecnológicos. Os tecidos e suas modelagens definem momentos da história. E o que acontece atualmente é a possibilidade de uma cartela muito ampla em nosso guarda-roupa, que une panos já vestidos na pré-história por nossos antepassados com as últimas invenções, que são os tecidos de ponta usados pelos atletas olímpicos”, explicou a especialista. 
Ilustração de Gabrielle Chanel / Crédito: Openthedoor estúdio de animação (todos os direitos reservados)

 

De acordo com Laura Wie, a moda como conhecemos hoje foi predominantemente influenciada pelas criações do século passado, inspiradas nas vestimentas mais práticas dos homens. 

De uma maneira geral, as peças de roupas femininas que vestimos hoje em dia têm a sua origem a partir do início do século 20, quando as mulheres deixaram de usar espartilhos e saias com excesso de volume e enfeites, para se espelharem no vestuário sóbrio e prático dos homens. Foi Coco Chanel quem trouxe este primeiro olhar para a moda com influência masculina, por meio das calças, camisas brancas, blazers e o uso da cor preta, entre outras escolhas funcionais”, disse ela.

É notório como a moda se reinventou ao longo dos anos. Tal fato se deu graças às ilustres criações de profissionais da indústria da moda, que ao longo do tempo revolucionaram não só o modo da sociedade se vestir, mas também a história da humanidade.

Além da Chanel, que é considerada a estilista que deu o tom atual de modernidade e elegância simples para a vestimenta feminina, há vários criadores que deixaram heranças significativas. Thomas Burberry criou o trench-coat, Elsa Schiaparelli trouxe fantasia e arte em as suas peças; Yves Saint Laurent e Pierre Cardin difundiram o prêtà-porter (ou ready to wear); Gianni Versace estourou com o look sexy e Calvin Klein foi o primeiro empresário da moda a colocar o jeans em uma passarela, só para citar alguns”, comentou a especialista. 

O impacto da Era Digital 

Consolidada no final do século 20, a atual Era Digital é compreendida como um momento de inovações tecnológicas e globalização. Para Laura Wie, as redes sociais, por exemplo, têm um papel crucial na indústria da moda. 

Ilustração de Gabrielle Chanel / Crédito: Openthedoor estúdio de animação (todos os direitos reservados)

 

As redes sociais não só divulgam, mas criam moda! Acredito que o Tik Tok, Instagram e Reels, entre outros, são veículos de expressão do nosso momento, principalmente para a moda urbana e rápida”, refletiu a especialista em História da Moda.

Para ela, muitas tendências do passado estão voltando atualmente. Contudo, cabe aos profissionais da área ressignificar as tendências que fizeram sucesso e impactaram a sociedade no passado.

Eu acredito que tudo o que poderia ser criado no mundo, em termos de modelagem, já foi realizado! Então nos resta ressignificar tendências, trazendo de volta movimentos da moda que fizeram sucesso em décadas passadas. A única mudança real possível, sob meu ponto de vista, seriam novíssimos tecidos tecnológicos — a serviço da moda já existente”, concluiu a especialista. 

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