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Paulo Mendes Rocha acreditava que Brasília era um 'tropeço histórico'

O esplendido arquiteto brasileiro, que era reconhecido internacionalmente, deu sua opinião sobre a cidade em 2016

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 24/05/2021, às 19h42

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha
O arquiteto Paulo Mendes da Rocha - Divulgação/ André Seiti

No último domingo, 23, morreu o premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha, então com 92 anos. O profissional brasileiro, que é considerado uma referência no ramo não só dentro do país, mas também internacionalmente, teve sua morte confirmada pela assessoria de imprensa do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU-BR). 

Apenas na cidade de São Paulo, por exemplo, Mendes foi responsável por projetar a Pinacoteca do Estado, o Sesc 24 de Maio, o arco da Praça do Patriarca e o Museu Brasileiro da Escultura (MuBE), além de reformar o Museu da Língua Portuguesa, conforme divulgado pelo G1.

A intervenção arquitetônica na Pinacoteca do Estado de São Paulo / Crédito: Wikimedia Commons

 

Seu conjunto de obras únicas lhe rendeu ainda diversos prêmios globais importantes da área, fazendo com que fosse o primeiro brasileiro a levar para casa o Leão de Ouro de Veneza, e o segundo a receber Prêmio Pritzker (com o primeiro nesse caso sendo o insubstituível Oscar Niemeyer).

O comitê da Bienal de Arquitetura de Veneza, que lhe concedeu esse primeiro, descreveu Mendes na época como "um desafiador não conformista e, ao mesmo tempo, um realista apaixonado. O atributo mais marcante de sua arquitetura é a atemporalidade. Muitas décadas depois de construídos, cada um de seus projetos têm resistido ao teste do tempo, tanto estilisticamente quanto fisicamente”. 

Interior da Capela de São Pedro Apóstolo, localizada em Campos do Jordão (SP) / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em uma entrevista repercutida pelo site Terra em 2016, em ocasião dessas homenagens internacionais, Paulo, que é um arquiteto da geração modernista, revelou uma opinião curiosa a respeito da cidade de Brasília, construída entre 1957 e 1960. 

“Eu não teria feito Brasília”

Questionado a respeito do que faria caso tivesse a chance de reconstruir Brasília, notoriamente uma das partes mais marcantes do legado de Niemeyer, Mendes da Rocha deu uma resposta surpreendente, afirmando que não faria a cidade. O motivo por trás dessa opinião é que o arquiteto acreditava que a mudança da capital do Brasil havia sido um “erro político”. 

"É como se, na Itália, dissessem: agora Roma não é mais a capital. Não faz nenhum sentido. É um tropeço histórico. Não tem nada que ver com a obra do Niemeyer, que é altamente criativa. É a decisão política que, na minha opinião, é errada”, contou ele, de acordo com o Terra.  

Para Paulo, a arquitetura não existia de forma isolada. Em vez disso, relacionava-se com o campo social e o político, que seriam centrais ao se pensar a cidade contemporânea e as obras que são construídas nela.

Assim, como discordava da ideia da construção de Brasília como ação política, não faria parte das obras, ainda que fossem uma grande oportunidade de mostrar seu trabalho. 

Entrada projetada por Paulo da Praça do Patriarca, em São Paulo / Crédito: Wikimedia Commons

 

O arquiteto brasileiro acreditava ainda que teria sido muito melhor ter usado os recursos da época para construir outras cidades, em vez de uma nova capital: "A navegação da grande rede hidroviária do Brasil e as ligações necessárias e fáceis de imaginar entre o Atlântico e o Pacífico obrigariam à construção de inúmeras cidades com uma utilidade mais interessante do que aquilo que já estava feito, que era a capital no Rio de Janeiro", concluiu ele na entrevista de 2016.