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Pearl Harbor, 77 anos: Roosevelt sabia do ataque?

Teria o presidente americano deixado os japoneses atacarem para alcançar o objetivo de participar da Segunda Guerra?

quinta 6 dezembro, 2018
 O bombardeio
O bombardeio Foto:Reprodução

O sol mal havia anunciado a manhã do domingo quando um radar, instalado dias antes, acusou a aproximação de um grupo de aviões ao paradisíaco arquipélago havaiano. O alerta de nada adiantou. Os oficiais responsáveis confundiram o ataque inimigo com a chegada previamente agendada de novas aeronaves. Em duas horas, os japoneses feriram e mataram 3.581 pessoas e destruíram 18 navios e 249 aviões de Pearl Harbor, base naval e quartel que os americanos mantinham no Pacífico. No dia seguinte, os Estados Unidos entraram oficialmente na Segunda Guerra Mundial.

O ataque ocorreu em 7 de dezembro de 1941, data que os americanos lembrariam depois como o “Dia da Infâmia”. Mas haveria uma infâmia ainda maior nisso? A infâmia de deixar o ataque acontecer, para atingir um objetivo político altamente impopular: o de entrar na Segunda Guerra contra toda a vontade do povo dos EUA?

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Foto tirada por um avião japonês após o início do ataque Reprodução

O falecido historiador americano John Toland (1912-2004) foi um dos estudiosos a defender a tese de que o ataque a Pearl Harbor não foi nenhuma surpresa para os governantes dos Estados Unidos. O serviço secreto americano teria interceptado e decifrado mensagens dos japoneses dando conta da iminência do ataque à base naval no Havaí. Mas o então presidente Franklin Delano Roosevelt teria preferido “fechar os olhos” para a agressão, pois queria convencer os americanos sobre a necessidade de o país se juntar aos Aliados.

Toland escreveu dois livros sobre o assunto: Infamy (“Infâmia”) e The Rising Sun: The Decline and Fall of the Japanese Empire (“O Sol Nascente: o Declínio e a Queda do Império Japonês”). Este último narra a Guerra do Pacífico do ponto de vista japonês e rendeu ao autor o Prêmio Pulitzer de jornalismo.

Na opinião de Maria Aparecida de Aquino, professora de História Contemporânea na Universidade de São Paulo (USP), a tese de Toland é plausível. “Os Estados Unidos já ajudavam os Aliados com suprimentos desde o começo da guerra (1939)”, diz ela. “Era preciso justificar o envio de soldados americanos para um conflito até então eminentemente europeu.” Segundo a professora, antes do ataque a Pearl Harbor, a guerra parecia muito distante das necessidades imediatas do cidadão médio americano.

Mas a rivalidade com o Japão já somava anos. De todo o Oriente, o arquipélago japonês era o único totalmente independente do colonialismo euro-americano. E o Japão foi também o único país da Ásia a derrotar uma potência europeia. Em 1904, na guerra russo-nipônica, conquistou duas grandes vitórias, uma naval (Tsushima) e outra terrestre (Port Arthur), tornando-se a mais poderosa força militar do Extremo Oriente.

Por tudo isso, os Estados Unidos, a França e a Grã-Bretanha trataram de se aproximar da China nas primeiras décadas do século 20. A estratégia era contrabalançar o crescente vigor do Japão, que se expandira para a ilha de Taiwan, a península da Coréia e a Manchúria (região do nordeste da China). Tomando partido da China, os Estados Unidos adotaram uma severa política de embargos contra o Japão, com a supressão da venda de aço e petróleo, produtos estratégicos para as operações militares japonesas. O Japão deveria recuar em todas as frentes conquistadas nos anos anteriores para que o boicote fosse suspenso – uma condição ultrajante aos olhos do imperador japonês Hiroíto.

Nas franjas da historiografia

É bom lembrar aqui que estamos lidando com uma teoria fringe, isto é, das franjas, dos cantos obscuros da historiografia. Não defendida pela maioria dos historiadores, apesar da adesão de um ou outro peso-pesado.

A polaridade Japão-EUA firmou-se como uma disputa quase declarada pela hegemonia do continente asiático. Para o governo americano, entrar numa guerra contra o Japão parecia, portanto, muito oportuno. Mas a história é como os tribunais – motivos, por si sós, não fazem culpados. “Não há nenhum indício, nenhum documento, nenhum testemunho sequer que possa confirmar a tese de que o governo Roosevelt sabia previamente do ataque”, afirma o historiador e escritor Voltaire Schilling, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O ex-presidente Franklin D. Roosevelt assinando a declaração de guerra contra o Japão no dia 8 de dezembro de 1941 Reprodução

Segundo Schilling, a direita americana da época tinha ligações com o Eixo. “Ela lançou essa mentira para difamar Roosevelt, apontando-o como enganador do povo americano.” Nos Estados Unidos, há uma lei que torna os documentos do Estado disponíveis para análise pública depois de 20 anos. O presidente Richard Nixon, republicano eleito em 1969, tratou de revirar os arquivos da Segunda Guerra em busca de provas contra Roosevelt. Nada encontrou. “E jamais encontrarão algo, pela simples razão de que nenhum estadista, muito menos Roosevelt, ousaria perder grande parte da sua esquadra num momento em que uma crise se espalhava pelo mundo, apenas para motivar o povo à guerra”, diz Schilling.

Com o ataque a Pearl Harbor, o almirante Isoroku Yamamoto pôs fora de combate toda a esquadra americana do Pacífico e fez com que, por um bom período, o grande oceano se tornasse um lago japonês. Até que os Estados Unidos se recuperassem, as forças nipônicas puderam montar um complexo sistema de defesa espalhado pelas ilhas do Pacífico.

Schilling aponta também que dezenas de pessoas trabalhavam para o presidente – oficiais do Pentágono e funcionários da Casa Branca, telefonistas, telegrafistas, secretárias etc. “Essas pessoas não ficariam de boca fechada, deixando o país ser friamente atacado sem fazer nada, apenas para agradar ao chefe.”

Mas a negligência americana no episódio foi notável. Mesmo Schilling se impressiona com o fato de que, em Pearl Harbor, todo o sistema de alerta tenha miseravelmente falhado. Houve trapalhadas com os radares, as primeiras informações sobre os vôos rasantes dos aviões japoneses não foram levadas a sério, não havia patrulhas aéreas... Como que para facilitar a destruição, os navios estavam ancorados muito próximos uns dos outros. Quando um era atingido, o fogo logo chegava ao vizinho, seguindo facilmente seu caminho incendiário. Não surpreende que tamanho amadorismo dê até hoje munição para os defensores de teorias conspiratórias.

Mas há de se desculpar em parte o descuido americano. Naqueles dias, os japoneses estavam ocupados com as ilhas Filipinas, bem longe do Havaí, perto da China. Era difícil imaginar que eles investiriam tanto numa força-tarefa tão distante de casa.

Ataque

O ataque começou às 7h53, na hora local. No Japão, já eram 3h53 do dia seguinte, 8 de dezembro. Os aviões japoneses atacaram em duas vagas. Juntas, em duas horas, elas mandaram 353 aviões a Oahu, o arquipélago de Pearl Harbor. A primeira vaga foi liderada por 186 torpedeiros-bombardeiros, aproveitando a surpresa da chegada para atacar os navios no porto, enquanto bombardeiros-de-mergulho destruíam as bases aéreas.

O segundo grupamento, com 168 aviões, atacou o campo Bellows e a ilha Ford, uma base militar no meio de Pearl Harbor. Entre os navios, o afundamento mais trágico foi o do Arizona, que submergiu com 1106 marinheiros. Em nenhuma outra época os Estados Unidos haviam perdido tanta gente em tão pouco tempo. Nos dias que se seguiram, a população americana foi rapidamente tomada pela revolta e pelo desejo de vingança. A entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra tornou-se inevitável.

O USS Arizona em chamas após o ataque Reprodução

O ataque japonês parece hoje um tiro no pé. A vitória em Pearl Harbor foi efêmera. Basta lembrar o trágico desfecho que teria a Segunda Guerra: o lançamento de duas bombas atômicas pelos americanos, sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945. “Foi um recado para o mundo”, diz a historiadora Maria Aparecida. “Muito antes das bombas, já estava claro que os japoneses perderiam a guerra.”

No memorável discurso pós-ataque, em 9 de dezembro de 1941, quatro anos antes do lançamento das bombas atômicas sobre o Japão, o presidente americano Roosevelt havia declarado: “Nós, americanos, não somos destruidores – somos construtores”. Foi quando classificou o episódio do ataque japonês como o “Dia da Infâmia”.

Seria uma guerra de muitas infâmias. Sabemos que ela terminou com outra infâmia: os Estados Unidos detonando duas bombas nucleares em solo japonês.

Saiba Mais

Pearl Harbor, Randall Wallace, Ediouro/Time Warner, 2001
Roosevelt, Lord Roy Jenkins, Nova Fronteira, 2005

Leandro Quintanilha


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