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Pedido final fúnebre: a múmia decapitada de Jeremy Bentham

O intento do pai do utilitarismo era que seu corpo fosse conservado igual os maoris faziam, mas seu desejo não saiu como planejado

Gabriel Fagundes Publicado em 14/03/2020, às 08h00

A cabeça de Jeremy Bentham na University College London - UCL
A cabeça de Jeremy Bentham na University College London - UCL - Divulgação/UCL Collections

Jeremy Bentham foi um filósofo inglês, economista, jurista e pai da teoria ética chamada de utilitarismo. Sua biografia é lembrada até hoje, entretanto, alguns fatos ocorridos nela são bem estranhos para a época em que viveu. Um dos episódios envolvem o fato de ter deixado prescrita certas instruções sobre o que deveriam fazer com o seu cadáver após a morte, ocorrida em 1832. Ele desejava ser um “ícone automático” depois de falecido, onde conseguiria ser levado às festas caso seus amigos sentissem sua ausência.

Tal desejo se correlaciona a sua oposição aos enterros cristãos, pois era ateu e via os ensinamentos da igreja como uma tolice, algo retrógrado. Por isso, esse combate e o desejo de que outras pessoas tivessem a mesma concepção, a de doar seus corpos para o estudo da medicina, de poder ser útil para além da vida.

O "ícone automático", esqueleto real de Bentham com suas roupas, mas com a cabeça de cera / DIvulgação: Twitter

 

Seus desejos foram acatados, embora certos detalhes tenham fugido daquilo que foi planejado. Seu cadáver foi preservado e disponibilizado para exibição na University College London, devidamente como queria. Mas, sua cabeça não. O órgão passou por um processo de mumificação da forma que não pretendia. Bentham havia requisitado que ela fosse conservada igual faziam os maoris (neozelandeses nativos). Contudo, seu amigo, o Dr. Southwood Smith, não era profissional ao ponto de conseguir desempenhar com excelência a realização do procedimento solicitado.

Assim, o resultado não saiu do jeito requerido, e a cabeça não ficou adequada para a exposição. Motivo pelo qual se fez necessário encomendar uma em modelo de cera para substituir a peça real. A fictícia foi colocada no “ícone automático”, que nada mais é do que o esqueleto real de Bentham com suas respectivas roupas, localizado numa caixa no claustro do sul da universidade.

Além disso, seu crânio chegou a ser sequestrado por estudantes de uma faculdade rival da King's College, em Londres. O que acabou resultando na aplicação de uma medida protetiva, tal qual colocá-la num lugar secreto e seguro de conservação. Para isso, sua pele foi desidratada com ácido sulfúrico visando conseguir estabilidade, porém como nada é para sempre, seus cabelos inevitavelmente têm caído com o excesso dos dias.

Crânio de Jeremy emestado de decomposição / Divulgação: UCL

 

Todavia, o que ao primeiro olhar leva a crer se tratar de uma grande maluquice, é, contudo, algo bem maior do que seu indício. Já que a proposta objetivava o estudo da anatomia humana, do corpo com suas complexidades, não o sepultamento pelo sepultamento dado a expiração dos dias terrenos, mas o conhecimento do ser perecível.

Como consequência, foi feita uma análise em seu DNA com a ajuda do Museu de História Natural, que possui novas técnicas de estudo do genoma antigo, para comprovar se o pai do utilitarismo foi realmente autista ou tinha Asperger (um transtorno que afeta na eficiência da socialização e na comunicação com o coletivo). Isso porque ele era circunspecto, retraído, não muito afável às multidões, comportamento que motivou a suspeita de uma possível doença. 

Segundo Subhadra Das, curador de coleções da UCL Culture, “estudar o DNA antigo é como olhar para as páginas trituradas de um livro, muita informação está faltando. E descobrimos que 99% do DNA coletado é proveniente de bactérias em sua boca. Portanto, pode ser complicado chegar a uma conclusão firme."

Outro ponto fundamental a ser citado é o da primeira força policial da Grã-Bretanha, que somente foi implementada em decorrência de Bentham. Para além desse feito, ele também era um defensor do protagonismo feminino, do reconhecimento dos direitos das mulheres e a legalização da homossexualidade na Inglaterra.

Dada essas posturas, se fossemos enquadrá-lo numa categoria ideológica ele seria um verdadeiro progressista. Posicionamento que no seu tempo era totalmente opositor as noções dos ideais aceitos pelas autoridades. No entanto, apesar de incompreendido, Jeremy ansiava pela justiça social, da equidade entre os homens, ainda que o chamasse de um “velho radical”.


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