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Pedro Afonso: a outra morte prematura que devastou Dom Pedro II e ameaçou a monarquia

Membro da Casa de Bragança, o herdeiro do imperador foi visto como um “triunfo” para o Império, mas sua trágica morte abalou a família real e o povo brasileiro da época

Fabio Previdelli Publicado em 28/05/2020, às 11h37

Pedro Afonso sentado no colo de sua mãe, a imperatriz Teresa Cristina, e cercado por suas duas irmãs, Isabel e Leopoldina
Pedro Afonso sentado no colo de sua mãe, a imperatriz Teresa Cristina, e cercado por suas duas irmãs, Isabel e Leopoldina - Wikimedia Commons

Às oito horas da manhã, do dia 19 de julho de 1848, no Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, vinha ao mundo o pequeno Pedro Afonso Cristiano Leopoldo Eugênio Fernando Vicente Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, o último entre os quatro filhos de Dom Pedro II com Teresa Cristina. Membro da Casa de Bragança, o pequeno recebeu o título de Dom assim que veio ao mundo.

A notícia do nascimento do herdeiro real foi recebida com grande alegria entres os brasileiros da época, que realizaram uma série de comemorações incluindo foguetes e salvas de tiros. Anos antes, o imperador fora impactado com a morte de Afonso Pedro de Alcântara, que veio à óbito quando tinha apenas dois anos de idade após crises epilépticas.

Naquele mesmo dia, Pedro II recebeu congratulações oficiais e, segundo um contemporâneo, disse que aquele era o evento “mais esplêndido e com maior presença” desde que teve sua maioridade declarada, em 1840.

O Palácio de São Cristovão, no Rio de Janeiro / Crédito: Wikimedia Commons

 

O principal motivo para a excitação foi o fato de Pedro Afonso ser um herdeiro masculino de Pedro II, que via o garoto como vital para a continuidade da monarquia, que corria risco pela morte prematura de seu irmão mais velho, Dom Afonso, que faleceu um ano antes do nascimento do caçula.

Apesar de, na época, a Constituição de 1824 permitisse uma sucessão feminina, o imperador não tinha total segurança de que sua filha Isabel seria plenamente aceita pela classe política e pela opinião pública. Assim, o escritor Manuel de Araújo Porto-Alegre, que mais tarde se tornaria o Barão de Santo Ângelo, considerou o nascimento de Pedro Afonso, que era neto de Pedro I e sobrinho da Rainha Maria II de Portugal, um "triunfo" que havia assegurado a sucessão.

No dia 4 de outubro daquele ano, o herdeiro aparente foi batizado em uma cerimônia privada realizada na Capela Imperial. Seus padrinhos foram Fernando I da Áustria e a rainha consorte Dona Estefânia de Portugal, que foram representados por Pedro de Araújo Lima, Visconde de Olinda (que mais tarde seria Marquês de Olinda, e pela Condessa de Belmonte.

A ducha de água fria em Pedro II

Os dois primeiros anos de vida de Pedro Afonso foram marcados por uma quebra de tradição de seu pai, que havia decidido passar os verões em Petrópolis, contrariando os membros da corte, que "rejeitavam qualquer mudança que lhes ameaçasse o estilo de vida e os interesses".

No entanto, em 1849, o imperador se sujeitou às tradições e concordou em ficar esse período na Fazenda Imperial de Santa cruz, uma propriedade rural que pertencia aos Bragança há inúmeras gerações.

Os pais de Pedro Afonso: Dom Pedro II e a princesa Teresa Cristina/Crédito: Getty Images 

 

Porém, durante esta estadia, Dom Pedro II foi pego por uma notícia devastadora, Isabel e Pedro Afonso haviam contraído uma forte febre. A princesa superou a crise, mas o pequeno herdeiro morreu convulsionando às 4h20 da manhã do dia 9 de janeiro. A fatalidade pode ter sido uma consequência da encefalite ou de uma doença congênita.

Mas de fato, o que se sabe, é que Pedro II ficou devastado, como ficou documentado em uma carta que trocou com Joaquim Teixeira de Macedo (cortesão responsável por Santa Cruz): "foi o golpe o mais fatal que poderia receber, e decerto a ele não resistiria se não me ficassem ainda mulher e duas crianças".

Já para o rei consorte de Portugal e seu cunhado, Dom Fernando II, ele escreveu: "No momento em que você recebe isso, você vai certamente ter tomado conhecimento da grave perda tenho sofrido... Deus que me fez passar embora tão difícil um teste, vai em sua misericórdia me dê motivos para consolar as minhas dores."

Em homenagem ao garoto, um grande funeral foi realizado dois dias depois de sua morte. As ruas foram tomadas por pessoas que estavam de luto pela morte prematura do herdeiro. O evento também ficou marcado pelos turistas que pagaram pelo privilégio de assistir a cerimônia de um hotel no centro do Rio. Naquele dia, Pedro Afonso foi sepultado no mausoléu do Convento de Santo Antônio.

Mais tarde, Honório Hermeto Carneiro Leão, um dos principais líderes políticos do império, que mais tarde se tornaria Marquês do Paraná, lamentou a perda e discursou acerca da sucessão do trono em uma Assembleia Provincial.

"É dever doloroso o de informar-vos do falecimento do Príncipe Imperial D. Pedro, ocorrido em 10 de janeiro do corrente ano. Pela segunda vez perdemos um herdeiro presuntivo da coroa".

O líder político prosseguiu: "Sirva-nos de consolação e certeza da [boa] saúde de S. M., o Imperador e de sua augusta esposa. Ambos na flor dos anos, e cheios de vida, prometem ainda numerosos frutos do seu tálamo, e à coroa uma sucessão masculina, tal como a consolidação de nossas ainda recentes instituições, e o espírito agitado do século exigem".

Porém, ao contrário do que era esperado, Dom Pedro II e Teresa Cristina jamais voltaram a ter filhos. Segundo historiadores, a razão pode ter sido o fato de o imperador ter ficado arrasado com a perda do filho e jamais ter voltado a ter relações sexuais com a esposa. “[Ele ficou] profundamente abalado, emocional e intelectualmente”, explica Roderick J. Barman.


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