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Père Lachaise: o cemitério das celebridades criado por Napoleão Bonaparte

O lugar se tornou disputado entre os burgueses e passou a abrigar os restos de filósofos, músicos e heróis militares

Leandro Narloch Publicado em 17/11/2019, às 10h00

Uma das áreas do cemitério Pére Lachaise
Uma das áreas do cemitério Pére Lachaise - Divulgação

Após a Revolução Francesa, em 1789, os novos líderes da França tiveram a ideia de construir um cemitério diferente em Paris. Não dava mais para seguir enterrando ricos atrás das igrejas e pobres em seu destino mais comum: as valas sem identificação. Foi assim que surgiu, em 1804, por ordem de Napoleão Bonaparte, o Père Lachaise, primeiro cemitério laico e primeiro jardim público da cidade, no qual qualquer pessoa poderia entrar.

O nome veio do jesuíta Père François de La Chaize, com quem Luís XIV, o Rei Sol, costumava se confessar. O terreno era propriedade dos jesuítas até 1762 — nesse ano, eles foram expulsos da França e o lugar ficou sem proprietário. Mas o cemitério demorou a cair no gosto dos parisienses. Ficou vazio até 1817, quando a administração da cidade resolveu passar para lá os restos mortais dos escritores Molière e La Fontaine. Deu certo. O espaço passou a ser disputado entre os burgueses e enterrar gente famosa ali virou moda.

Hoje, o Père Lachaise é um museu a céu aberto sobre a história da França e da cultura ocidental. Recebe 2 milhões de turistas por ano. Tem 690 mil monumentos funerários, que abrigam filósofos como Auguste Comte, pintores como Modigliani, figuras da música que vão de Chopin a Jim Morrison. Também há cantoras, como Maria Callas, alas para heróis militares e políticos, além do túmulo do célebre casal medieval Aberlardo e Heloísa.

Conheça mais sobre algumas das celebridades enterradas no Père Lachaise:


1. Abelardo (1079-1142) e Heloísa (1101-1164)

Crédito: Wikimedia Commons

 

Protagonista do caso de amor mais trágico da Idade Média, o filósofo francês Abelardo, que enfatizava a razão sobre a fé, foi condenado por heresia em 1140. Apaixonado por sua aluna Heloísa, casou com ela em segredo. Quando a família dela descobriu, Abelardo foi castrado e nunca mais a viu. Viveu monasticamente por mais dois anos até sua morte, aos 63. Antes de morrer, Heloísa pediu que fosse enterrada ao lado do amado. Seu último desejo foi atendido.

2. Jim Morrison (1949-1971)

Crédito: Wikimedia Commons

 

Esta é a relíquia que mais dá dor de cabeça à administração do cemitério — a ponto de ter vigilância o dia todo. Tudo porque, em 1991, no 20º aniversário da morte do líder da banda The Doors, uma multidão de fãs alucinados foi visitar o túmulo — a polícia teve de usar bombas de gás. Jim Morrison morreu em julho de 1971, na banheira de sua casa, vítima, segundo os médicos, de coma alcoólico.

3. Frédéric Chopin (1810-1849)

Contrariado com as revoluções populares na França, onde morava, o compositor polonês Chopin abandonou os recitais parisienses em 1848, partindo para a Inglaterra e Escócia. Lá, difundiu ainda mais sua fama. Cada vez pior por causa da tuberculose, voltou a Paris em novembro, morrendo no ano seguinte. Seu túmulo, a principal atração de uma viela de compositores do cemitério, é o mais visitado pela comunidade polonesa.

4. Auguste Comte (1798-1857)

Crédito: Wikimedia Commons

 

Considerado o pai da sociologia, Comte sofria de depressão profunda, tentou o suicídio diversas vezes e morreu sozinho, de gripe. Depois da morte da mulher, Clotilde, passou a divulgar sua corrente filosófica, o positivismo, como religião. Seu cortejo foi acompanhado, além dos amigos, por quatro mulheres — entre elas, a escritora luso-brasileira Nísia Floresta.

5. Édit Piaf (1915-1963)

A cantora francesa jaz no mesmo túmulo ocupado por quatro familiares. Filha de um acrobata alcoólatra, Édit cantou na rua dos 16 aos 20 anos, até ser descoberta, cantar em cabarés e virar amiga de poetas e escritores franceses. Morreu de câncer no fígado. Seu enterro causou o primeiro grande congestionamento em Paris desde a Segunda Guerra Mundial.

6. Oscar Wilde (1854-1900)

Crédito: Wikimedia Commons

 

Autor do livro O Retrato de Dorian Gray, o escritor irlandês ficou dois anos na cadeia por causa de sua homossexualidade — saiu de lá em 1897. Morreu em Paris, miserável, de meningite, três anos depois (ele também tinha sífilis). Seu túmulo tem um anjo com um grande pênis — o membro já foi roubado diversas vezes. A escultura também recebe vários beijos com batom dos visitantes.

7. Sarah Bernhardt (1844-1923)

Crédito: Wikimedia Commons

 

Amiga de Oscar Wilde e uma das primeiras celebridades mundiais, a atriz francesa, a predileta do imperador Napoleão III, causou polêmica na virada do século 20 por usar calças, interpretar homens e ter amantes mulheres. Representante do imperialismo cultural francês da época, Sarah veio três vezes ao Brasil. Durante uma peça de teatro no Rio de Janeiro, em 1905, levou um tombo no palco que abalaria sua saúde para sempre. Depois de ter a perna amputada, em 1915, morreu de problemas renais.

8. Marcel Proust (1871-1922)

A proximidade da morte foi corriqueira na vida do autor de Em Busca do Tempo Perdido. Em 1905, após receber uma fortuna de herança de sua mãe e cada vez mais doente e alquebrado, recolheu-se a sua casa, em Champs Elysées, em Paris, e escreveu os sete volumes de sua obra-prima (Proust considerou a obra acabada várias vezes, para depois voltar a dar retoques nela). Viveu meio enclausurado até sua morte, de bronquite.

9. Allan Kardec (1804-1869)

Crédito: Wikimedia Commons

 

Fundador do espiritismo — cujo túmulo é o mais visitado pelos brasileiros —, Kardec, ou Hyppolyte Leon Denizard Rivail, foi um cético professor de física, química, linguística e astronomia. Em 1854, deparou com fenômenos estranhos, como mesas que se mexiam sozinhas. Estudou os fatos e escreveu O Livro dos Espíritos. Morreu em 1869, devido a ruptura de um aneurisma.

10. Honoré de Balzac (1799-1850)

O grande novelista da vida social francesa, autor de A Comédia Humana, escreveu uma das cenas do livro O Pai Goriot no próprio cemitério onde hoje está enterrado. Viciado em café e em escrever, Honoré de Balzac trabalhava normalmente durante 15 horas por dia. Em 1849, ele decidiu largar o trabalho e ir para a Polônia, em busca da dama polonesa Eveline Hanska. Morreu três meses depois de se casarem. Jaz em um túmulo adornado por um busto feito pelo escultor Auguste Rodin.


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