Terror no Recife: A lenda da Perna Cabeluda

Criatura da noite foi uma legítima peça do folclore tecnológico

quinta 16 agosto, 2018
Perna Cabeluda: lenda recifense foi musa de cordel e de música
Perna Cabeluda: lenda recifense foi musa de cordel e de música Foto:Divulgação

Exatamente o que diz o nome: uma perna cabeluda. E nada mais: decepada e se movendo aos pulinhos, ela ainda assim era mais que capaz de matar com seus poderosos chutes, rasteiras, enfim, coisas de que uma perna é capaz. A lenda, que tirou o sono das crianças (e adultos que nunca admitirão) no Recife dos anos 70, cresceu a partir daí. Alguns alegavam que o pé tinha unhas grandes e podres. Outros, que o pedaço de corpo não era sequer humano. As vítimas eram cegas de súbito na madrugada e sofriam ataques nas ruas – e, mesmo caídas, continuavam a ser surradas.

A lenda se tornou símbolo da cultura recifense e durante anos levou crianças a olhar debaixo da cama antes de dormir. Mas, diferentemente da maioria das lendas urbanas (ou lendas, ponto), essa é uma cujo autor conhecemos: Raimundo Carrero, jornalista do Recife e autor de obras literárias premiadas.

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Nos idos da década de 1970, Carrero, que trabalhava no Diário de Pernambuco, afirma que um companheiro de redação chegou afoito ao trabalho durante a noite. Dizia tervisto, embaixo da cama que dividia com a esposa, uma perna cabeluda. “Mas e o tronco?”, indagaram os amigos, “Não tinha”, respondeu, com toda a sinceridade.

Raimundo Carrero, o pai da Perna Cabeluda Reprodução

Não é o que parece (dizemos nós, não a esposa). Como relata Raimundo à AH, os jornalistas da época eram boêmios e gostavam de contar histórias mirabolantes uns para os outros. Era uma piada desde o começo.

O relato ganhou status de estrela com um empurrão do regime político da época. “Como vivíamos sob a ditadura militar e muito conteúdo não podia ser publicado devido à censura, o então editor do Diário de Pernambuco, e hoje ministro do Superior Tribunal de Justiça, Og Marques Fernandes, incumbiu a mim uma coluna policial com casos tido como absurdos. Surgiu aí a história da Perna Cabeluda”, contou Carrero à AH. O sucesso foi imediato. No dia seguinte, a Perna já era citada em programas radiofônicos de grande alcance. Pessoas machucadas – às vezes com ossos quebrados – apareceram dizendo ter sido atacadas pelo membro que agia de forma totalmente autônoma.

Raimundo – que fez parte do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna na busca por criar arte erudita a partir da popular – tem uma teoria desconfortável para explicar o fenômeno da Perna Cabeluda: as brigas entre os maridos e os amantes de suas esposas. Nesses casos, melhor do que assumir a verdade, as marcas eram atribuídas à perna.

Em tempo: depois de ser musa do jornal e de programas de rádio, das aparições no cinema e em música de Chico Science, e ser estrela de uma HQ própria – A Rasteira da Perna Cabeluda, editora Bagaço –, a Perna Cabeluda apareceu em versão digital em 2018, no carnaval de Salvador, dançando axé. Ao menos foi o que relataram foliões estropiados.

Lucas Vasconcellos


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