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Peronismo: Quando a Argentina se rendeu ao populismo

Conheça características desse regime de cunho populista que floresceu na Argentina do século XX

Joseane Pereira Publicado em 03/04/2019, às 14h44

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Getty Images

Andando pelas ruas de Buenos Aires, não é difícil encontrar a imagem de Eva Perón em estátuas, pinturas e até "santinhos" feitos para os turistas. Cultuada como a Mãe dos Pobres durante o Peronismo, regime de cunho popular protagonizado pelo militar e estadista argentino Juan Domingo Perón na segunda metade do século XX, a figura de Evita é um ótimo exemplo para o entendimento de características de líderes populistas.

Casal Perón discursando em Buenos Aires / Reprodução

Após o término da Segunda Guerra em 1945 e com a ascensão do capitalismo liberal protagonizado pelos Estados Unidos, a influência desse país sobre a América Latina causou o surgimento de inúmeros regimes militares de cunho liberal, sendo uns populistas e outros não. A intervenção constante dos EUA na economia e política dos países latino americanos, incluindo o embargo econômico sobre Cuba -- que prejudicou longamente a economia do país --, causou uma dependência que repercute ao longo dos anos, e no Brasil podemos ver traços dessa intervenção tanto na Era Vargas quanto na ascensão da Ditadura Militar de 64.

Falando sobre Era Vargas, este também foi um grande exemplo de governo populista. Caracterizados pelos historiadores como sustentados pelo apoio maciço da população mais pobre, e muitas vezes envoltos em uma aura de comoção e nacionalismo exacerbado, os líderes populistas se utilizaram de reivindicações camponesas e operárias para alcançar o poder e, na história dos países latino americanos do século XX, ficaram marcados como heróis.

Reprodução

Assim foi com o Peronismo, que ascendeu na Argentina em 1946. Tal regime se iniciou com o Movimento Nacional Justicialista, protagonizado pelo então vice-presidente e ministro da guerra Juan Domingo Perón, que estabeleceu diálogo com diversas frentes, principalmente o operariado fabril de Buenos Aires. Como Secretário do Trabalho e Segurança Social, Perón passou a desenvolver uma política ativa de proteção aos trabalhadores, tomando medidas como a criação da Justiça do Trabalho, o estabelecimento de bônus salarial e extensão do sistema de aposentadoria.

Entretanto, pela pressão de forças do Exército contrárias às suas medidas, Perón é deposto e mandado a exílio, o que gerou uma das maiores manifestações populares da história na Praça de Maio, centro de Buenos Aires, protagonizada por trabalhadores que exigiam a liberdade de Perón, com destaque para um grupo denominado "descamisados". Voltando do exílio, o líder faz um de seus primeiros discursos para uma população afoita e emocionada, prometendo a realização de eleições e a construção de uma nação forte e justa. Dias depois casa-se com Eva Perón, sua segunda esposa, que teria papel central no regime.

Juan e Evita / Reprodução

Assim foi repercutida a figura de sua esposa: Eva Perón era de origem humilde, nascida na pequena cidade de Los Toldos, província de Buenos Aires. Segundo relatos, quando pequena, costumava afirmar que só se casaria com um príncipe ou um presidente. Aos 15 anos resolve ir para a capital com o sonho de ser atriz e, sozinha em um mundo hostil cujas regras desconhecia, Eva triunfa em sua ambição e passa a ser uma atriz reconhecida e citada nas rádios. Entretanto, seu destino era outro: em um festival realizado pela comunidade artística de Buenos Aires, Eva conhece o coronel Perón, pelo qual se apaixonou profundamente. Sua presença nos discursos eleitorais de 1946 é caracterizada como essencial para a definitiva subida ao poder do Peronismo.

Em um de seus escritos mais famosos, Eva afirma:  "Se me perguntassem o que eu prefiro, minha resposta não demoraria em sair de mim: gosto mais do meu nome de povo. Quando um garoto me chama de 'Evita', me sinto mãe de todos os garotos e de todos os fracos e humildes da minha terra. Quando um operário me chama de 'Evita', me sinto com orgulho companheira de todos os homens." E assim a atriz se consolidou como líder política, desenvolvendo trabalhos intensos no âmbito social em uma carreira que durou apenas sete anos, mas que a levou a uma idolatria que resiste até hoje.

Eva acabou falecendo em 1952 por um câncer no útero, tendo seu corpo embalsamado e exposto ao público. Durante o golpe de Estado que tirou Juan Domingo Perón do poder, em 1955, seu corpo fora roubado, sendo encontrado apenas em 1971 em um cemitério italiano. Como uma boneca, a Mãe dos Pobres permaneceu embalsamada até 1976, quando foi enterrada por sua família.

Apesar de sucessivos golpes de estado e de uma segunda ocasião no exílio, Perón manteve-se no poder por mais dois mandatos, até sua morte em 1974 quando foi substituído por sua segunda esposa, Isabel Perón.

Isabel, à qual a população da Argentina não tinha muita afeição, foi destituída pelos militares em 1976, encerrando assim as sucessivas candidaturas do movimento Peronista.


Saiba mais:

Discurso de Evita Perón na televisão Argentina, 1951: https://www.youtube.com/watch?time_continue=5&v=cMrVm7j4nzU

Peronismo e Política de massas (Univesp TV): https://www.youtube.com/watch?v=KjjG454JuBQ 

Artigo "Memória e História de Eva Perón", Revistas USP: http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/82568/85540

Artigo "Peronismo: movimento popular democrático ou populismo autoritário?", Revistas UNICAMP: http://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/artigos_pdf/Margarita_Victoria_Rodriguez_artigo.pdf