Matérias » Brasil

Perseguição e morte: a arriscada vida da mulher judia no Brasil Colonial

Na época, a comunidade judaica sofreu um duro golpe, sendo obrigada a abrir mão de seus costumes, livros, idioma e até mesmo, seus nomes

Anita Novinsky, Daniela Levy, Eneida Ribeiro e Lina Gorenstein Publicado em 28/06/2020, às 10h00

Ilustração de Roque Gameiro, mostrando a expulsão de judeus
Ilustração de Roque Gameiro, mostrando a expulsão de judeus - Wikimedia Commons

A saída dos judeus da Espanha e a sua conversão ao catolicismo representam uma nova era na História de Portugal e Espanha. As consequências da instituição do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição, da expulsão dos judeus da Espanha e da Conversão Forçada em Portugal trouxe consequências marcantes para a Península Ibérica, o que a longo prazo arruinou o comércio português, fazendo emigrar do reino seus mais prestigiosos elementos, prejudicando por muitos anos a produção nacional, destruindo famílias e negócios.

Obrigando os judeus a serem católicos, em 1497, dom Manuel não lhes tirou apenas a religião. Tirou-lhes os costumes, as festas, os rituais, as escolas, a sinagoga, os livros, o idioma, os nomes. Despiu os judeus de sua cultura e identidade. O mundo judaico se rompeu, e durante muitas gerações jamais se reconstruiu integralmente.

Com a introdução do Tribunal da Inquisição, em 1536, teve início a perseguição e prisão dos conversos (judeus que se converteram ao cristianismo) que tentavam fugir, ou burlando leis ou pagando somas exorbitantes a quem os ajudasse a deixar a Península Ibérica. Formaram-se, nesse tempo, redes familiares e comerciais, algumas secretas, que os ajudaram a iniciar seu êxodo da pátria que tomaram como sua, passando, nos séculos seguintes, a peregrinar pelo mundo. E vieram para o Brasil. A religião judaica, então
proibida, passou a ser praticada em segredo, dentro das casas, principalmente pelas mulheres.

O livro Os Judeus Que Construíram o Brasil, da Editora Planeta, obra que serviu de base para esta reportagem, revela os mecanismos internos de funcionamento de um Tribunal criado especialmente para punir e perseguir os judeus convertidos, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Era uma verdadeira “fábrica de judeus” (segundo a expressão utilizada pelo padre Antônio Vieira em uma carta que remete ao papa Inocêncio XI), que através de uma instituição corrupta e julgamentos teatrais punia homens e mulheres inocentes.

Queima de cripto-judeus em Lisboa / Crédito: Wikimedia Commons

 

Os cristãos-novos tiveram que buscar no Novo Mundo a oportunidade perdida na Europa, um local onde pudessem refazer sua vida. Chegaram ao Brasil junto com os primeiros colonizadores. E também com eles vieram as mulheres judias: fortes, determinadas, instruídas. As cristãs-novas no Brasil colonial se destacaram por uma relativa autonomia em um contexto de desigualdade e domínio masculinos. A documentação deixada pela Inquisição, especialmente os processos – em milhares de páginas manuscritas –, é fonte riquíssima, praticamente única, na qual a voz dessas mulheres pode ser ouvida.

Grande parte das cristãs-novas era alfabetizada, diferentemente das portuguesas e luso-brasileiras. O conhecimento facilitava à mulher o controle do patrimônio familiar e sua administração. Algumas alcançaram papel importante na administração das finanças familiares e chegaram a dirigir engenhos, quando viúvas ou como auxiliares do marido. Contratavam serviços para a manutenção dos negócios, compravam e vendiam escravos,negociavam a venda da produção do açúcar e faziam comércio.

Os cristãos-novos estavam havia muito tempo isolados do judaísmo tradicional e imersos em um mundo cristão, que alterou sua crença profundamente; não havia livros judaicos para ler e ninguém para instruir. O judaísmo que conheciam na superficialidade era limitado a transmissões orais, e geralmente pela voz das mulheres da família. As práticas judaicas secretas que atravessaram séculos eram de domínio doméstico: hábitos alimentares, higiene, o shabat e as celebrações tinham que ser realizados dentro das casas, em segredo, “a portas fechadas”.

À mulher cabia educar seus filhos e transmitir-lhes as tradições de seus antepassados, e por isso os inquisidores desconfiavam das mulheres portuguesas de origem judaica, considerando-as uma ameaça para a religião católica e perseguindo-as. O Brasil não tinha um Tribunal da Inquisição próprio. As denúncias da colônia eram feitas aos chamados familiares ou Comissários do Santo Ofício, e o acusado era preso e levado a Lisboa.

Quando mulheres eram denunciadas, ficavam sob a vigilância dos jesuítas à espera das naus que as transportariam para o Reino. No ano de 1593, os inquisidores iniciaram a primeira visita oficial ao Brasil, e a Bahia foi o primeiro destino. Na ocasião foram presas 36 mulheres, todas cristãs--novas. Os bens dos processados eram sequestrados no momento da prisão. Algumas prisioneiras, como o caso da cristã-nova Izabel de Paredes, reclamaram que o Juiz do Fisco havia retirado até a fivela dos sapatos de seus filhos. Era comum que cônjuges e crianças fossem colocados na rua. Ao desembarcar em Portugal, as presas eram encaminhadas para os cárceres dos Estaus, a sede da Inquisição em Lisboa. Geralmente ficavam alojadas em celas com duas ou três companheiras.

Eram espaços pequenos, escuros, úmidos, com uma janela no alto, os dejetos retirados somente uma vez por semana, o que piorava as condições de higiene e limpeza. As mulheres só saíam da cela quando chamadas para prestar depoimento. A poucas era permitido circular pelos espaços comuns. Dmitido entre as cristãs-novas condenadas do século 16 se destaca Ana Rodrigues, pertencente a uma ilustre família da sociedade baiana. Semanalmente, a família se encontrava para discutir a antiga religião e tentar cumprir parte dos ritos judaicos, sob o pretexto de um jogo de cartas.

Pintura mostra o Brasil Colônia após a imigração portuguesa / Crédito: Wikimedia Commons

 

Tais reuniões eram chamadas de esnogas, e ocorriam principalmente no engenho da família, na região de Matoim. Mesmo com idade avançada, Ana foi presa e condenada à morte. Não chegou a cumprir a pena: morreu no cárcere antes de ir para a fogueira. Seus ossos foram desenterrados a mando dos inquisidores e queimados. A Inquisição utilizava a expressão “queimada em estátua” para designar o cumprimento da execução, mesmo após a morte. O Tribunal do Santo Ofício não considerava a condição física do réu ou idade.

Havia doentes, idosas, debilitadas que eram presas, julgadas e condenadas utra grande investida oficial do Santo Ofício ao Brasil se deu no início do século 18, quando a comunidade do Rio de Janeiro atraiu a atenção da Inquisição: cerca de 325 cristãos-novos foram presos e enviados para Lisboa pelo crime de judaísmo, entre eles 167 mulheres. Com os bens confiscados, como era prática do Tribunal, a instituição teve muitos ganhos. O tribunal estava sempre interessado nas denúncias, que lhe trariam novos réus. Era necessário que os presos confessassem e incriminassem todos que conheciam: pais, mães, avós, filhos, primos, tios e amigos.

Para a Inquisição, a lealdade não era um valor, e o amor a Deus estava acima do amor aos pais. Quando alguém deixava de citar algum parente (mesmo que distante, ou já morto) era levado ao tormento. Para as mulheres a tortura era ainda maior, e como prática eram despidas da cintura para cima para que as roupas não atrapalhassem a execução do castigo. Havia mulheres que, quando torturadas, gritavam invocando Jesus e os santos católicos, e não Moisés, na tentativa de fugir à suspeita dos inquisidores. A veracidade das confissões não pode ser confirmada.

Nenhuma generalização é possível: havia aqueles que eram fiéis católicos, aqueles que eram criptojudeus (cristãosnovos que praticavam o judaísmo em segredo) e ainda os que assumiam com orgulho sua nova categoria sociorreligiosa: eram cristãos-novos. A maioria tinha um comportamento duplo – praticavam de um lado a religião que haviam aprendido em segredo e de outro o catolicismo. Como muitas vezes as práticas judaicas e católicas se confundiam, emergiu aí uma simbiose que caracterizou nova prática religiosa, marcada pelo segredo.

O comportamento do converso não foi uniforme nem no tempo nem no espaço. Sua essência pode ser resumida na crença em um único Deus – Criador do Universo –,
e na salvação, que para o cristão-novo só poderia ser alcançada pela Lei de Moisés. Na religião judaica a salvação é sempre coletiva, nunca individual. Uma das mais antigas famílias do Rio de Janeiro, a Vale teve durante dois séculos diversas gerações de mulheres presas pela Inquisição. Os Vale chegaram ao Brasil fugindo do Santo Ofício português.

Inicialmente se dedicaram ao comércio, e logo passaram para a atividade agrícola. Foram proprietários de um dos maiores e mais importantes engenhos do Rio de Janeiro, o engenho de Golambandé da Invocação de Nossa Senhora de Montesserate, em São Gonçalo. Além da Casa Grande, onde morava a família, o engenho possuía quatro casas utilizadas para o fabrico do açúcar, pastos para 120 bois, cavalos, canaviais e matos. Mais de 120 escravos trabalhavam a terra, e cerca de 20 serviam à família como escravos domésticos, Izabel Mendes foi a primeira mulher da família Vale a ser presa, no século 17.

Ao chegar a Lisboa, ficou internada por quatro anos no Hospital de Todos os Santos por ser considerada insana. Consta que sofria de “gota coral” (provavelmente uma espécie de epilepsia). Quando voltou para os cárceres da Inquisição, foi submetida a longos inquéritos e tortura. Izabel fugia ao comum das mulheres ibéricas. Além de saber ler e escrever, em sua confissão afirma conhecer latim e hebraico. Quando a prenderam, encontraram escondido em seu travesseiro papel e pena e um texto escrito de seu próprio punho, a “contradita” (defesa do réu negativo, aquele que negava ser culpado, afirmando que as testemunhas que contra ele depuseram eram falsas por serem seus inimigos).

Izabel Mendes possuía alguns livros e conhecia diversas passagens da História judaica. Considerava a Lei de Moisés a mais perfeita. Contou que no tempo em que vivia no Rio de Janeiro costumava se reunir com outros cristãosnovos todas as sextas-feiras, sob o pretexto de jogar cartas, mas que na verdade celebravam o shabat. Sua sentença, tornada pública em Auto de Fé de 2 de abril de 1634, condenou-a a cárcere e hábito penitencial a arbítrio dos inquisidores, ou seja, deveria permanecer residindo em bairro determinado pelo Tribunal e vestindo uma túnica com os desenhos que lembravam sua passagem pelos cárceres. Descendentes de Izabel Mendes foram presos no século 18, ao todo 50 pessoas da mesma família, e condenados, todos acusados de judaísmo.

É possível afirmar que o mais persistente modo de resistência à ação inquisitorial era o conhecimento que as mulheres cristãs-novas tinham do funcionamento do Tribunal. Presas, ao chegar em Lisboa, pediam para ser ouvidas e confessavam o que os inquisidores esperavam ouvir, denunciando todos que conheciam. As que demoravam para confessar seus crimes, ou aquelas que negavam ter cometido algum, ficavam na prisão por mais tempo.

Além das torturas, muitas terminaram a vida no degredo, na miséria ou na fogueira. As mulheres criptojudias se inserem no universo secreto marrano ou b’nei anussim (os descendentes de judeus convertidos à força) e podem ser consideradas o baluarte da resistência ao catolicismo, imposto por violência a todos os portugueses que tiveram antepassados judeus. O judaísmo e o povo judeu, vistos pela ótica da Igreja, foram o motivo central da criação do Tribunal da Inquisição e seu motor principal durante os três séculos de História colonial do Brasil. Os bens e riquezas sequestrados de todos os cristãos-novos no momento da prisão serviram como o fundamental combustível desse motor.


Os Judeus Que Construíram o Brasil - Fontes Inéditas para uma Nova Visão da História Anita Novinsky, Daniela Levy, Eneida Ribeiro, Lina Gorenstein Editora Planeta


+Saiba mais sobre o tema através das obras disponíveis na Amazon

História do Brasil colônia, Laima Mesgravis (2015) - https://amzn.to/2CLohqL

O Brasil colonial, João Luís Ribeiro Fragoso, Maria de Fátima Gouveia (2014) - https://amzn.to/3dIlyLC

Histórias da gente brasileira - Colônia - Vol. 1, Mary Del Priore (2016) - https://amzn.to/2YAlUiK

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, a Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.

Aproveite Frete GRÁTIS, rápido e ilimitado com Amazon Prime: https://amzn.to/2w5nJJp

Amazon Music Unlimited – Experimente 30 dias grátis: https://amzn.to/2yiDA7W