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Perseguição, violência e terror: como Mussolini aproveitou um turbilhão de desordem para ganhar espaço

Para avaliar sua perspectiva, o futuro ditador vazava na imprensa a ideia de um golpe de Estado, mas nenhum líder político protestou, nem o rei

Carlo Cauti Publicado em 15/06/2020, às 11h07

Mussolini enquanto estava no poder
Mussolini enquanto estava no poder - Wikimedia Commons

"Vou precisar de muita sorte”, declarou Benito Mussolini no dia 30 de outubro de 1922 para um jornalista. Pouco depois, o futuro ditador – o Duce – apresentaria seu governo ao rei da Itália, Vitor Emanuel III. Parecia até um paradoxo ver o líder dos Fasci di Combattimento invocar a sorte diante dos 40 mil “camisas negras” (o grupo militar do fascismo) em marcha sobre Roma para a tomada do poder.

Com o golpe de Estado, Mussolini parecia em posição de força, mas ele próprio sabia que era preciso agir rápido, antes que fosse tarde demais. Ainda hoje, especialistas se perguntam como um homem como Mussolini, jornalista quase falido, ex-militar sem rumo, ex-revolucionário socialista expulso do próprio partido e líder de um movimento desamparado e mal armado como os Fasci, conseguiu chegar ao governo e instaurar 20 anos de ditadura na Itália, levando o país para a infame aliança com a Alemanha nazista e ao desastre da Segunda Guerra Mundial.

Para entender a ascensão de Mussolini ao poder absoluto é necessário descrever o contexto político da Itália na época. “Em 1918, o país tinha saído da Primeira Guerra Mundial formalmente vencedor, mas, na verdade, prostrado. A economia sofria uma forte crise. O desemprego era altíssimo. A epidemia de gripe espanhola provocava centenas de milhares de vítimas. E milhões de ex-soldados voltaram da frente de combate com os espíritos carregados de mais de três anos de violência brutal – e sem encontrar um papel adequado na sociedade”, explica Emilio Gentile, historiador e professor da Universidade La Sapienza de Roma, autor de Mussolini e a Itália Fascista, entre outras obras sobre o tema.

Ao mesmo tempo, inspirados pela Revolução Russa de 1917, trabalhadores rurais e operários criaram tumultos, greves e ocupações de fábricas – gerando o chamado Biênio Vermelho, o período de dois anos (1919-1920) de intenso conflito social na Itália.

Assim como no modelo soviético, o movimento operário foi além das reivindicações salariais, apontando para o controle total das fábricas e a conquista do poder. Com a falta de manejo do governo, o medo de uma revolução bolchevique começou a se alastrar.

Era o caos. As instituições pareciam ter perdido o controle do país e os executivos estavam cada vez mais frágeis. Não à toa, oito governos diferentes passaram pela Itália entre 1919 e 1922 – todos com curta duração, por incapacidade de reestabelecer a ordem pública, por brigas internas ou coalizões políticas.

Nem mesmo os funcionários dos ministérios obedeciam às ordens dos ministros. “A historiografia e a memória coletiva subavaliaram a dimensão caótica e de violência daquele momento. Mas houve verdadeiras batalhas em várias cidades italianas, especialmente onde os movimentos de trabalhadores rurais e de operários eram mais organizados. Uma brutalidade que perturbou a população amedrontada pelo risco de uma revolução socialista”, descreve Sergio Luzzatto, historiador e professor da Universidade de Connecticut, autor de Dizionario del Fascismo (sem tradução para o português).

E foi nesse turbilhão de desordem que Mussolini fundou, em 1919, os Fasci di Combattimento, em uma reunião realizada no palácio do Círculo Industrial, Comercial e Agrícola, em Milão. Um episódio que passou sem alarde na mídia da época, quase despercebido.

No início, o movimento nada mais parecia que um grupo de exaltados semeando o tumulto: não tinham proposta política clara ou base ideológica orgânica. As cerca de 100 pessoas que participaram do ato de fundação dos Fasci eram ex-militares, maçons, futuristas e sindicalistas anárquicos.

Havia de tudo entre aquelas paredes, mas sobre um tema todos concordavam: a luta deveria ser conduzida contra os burgueses, os clericais e os focos de articulação comunista e socialista – embora a essência do programa do próprio grupo fosse vagamente socialista.

No discurso inaugural, Mussolini declarou: “Nós somos fortemente contra todas as formas de ditadura. Da militar à da religião, da do dinheiro à da política”. Mais um paradoxo, pois a História tomará outro rumo.

Filho do proletariado

Benito Amilcare Andrea Mussolini, filho de um ferreiro e de uma professora, veio de um passado modesto e turbulento. Educado em escola de padres salesianos, se inscreveu no Partido Socialista em 1900 e logo se tornou um dos líderes do socialismo revolucionário e anticlerical. Militante engajado, agitador e antimilitarista, foi alvo de mandados de prisão, tanto que precisou se exilar.

De volta à Itália, obteve a direção do jornal oficial do Partido Socialista, o Avanti!, reunindo cada vez mais pessoas dispostas a movimentos revolucionários – mas sem perspectivas. Expulso do partido em 1914, por ser favorável à participação italiana na Primeira Guerra Mundial, fundou o Popolo d’Italia, um jornal ultranacionalista: uma bandeira importante da política de extrema -direita no mundo todo.

“Enviado na frente de batalha como soldado, Mussolini entendeu que a guerra representava uma ruptura com o passado e que, após o conflito, os ex-combatentes teriam sido uma massa de manobra muito significativa e útil na perspectiva política. Então, seria essencial manter o contato com eles. Os Fasci di Combattimento representavam justamente esse instrumento”, diz Luzzatto.

Esses grupos de ex-militares desocupados começaram a formar esquadrões: as famosas Squadre Fasciste, que iniciaram uma verdadeira campanha de perseguição contra comunistas, socialistas e católicos.

Logo, centenas de jornais, casas do povo, câmaras do trabalho, ligas camponesas, círculos culturais e de trabalhadores, bibliotecas, igrejas, cooperativas e sindicatos foram invadidos. Ninguém era poupado da agressão. “A violência não é para nós um sistema, nem um estetismo, muito menos um esporte, mas uma dura necessidade na qual nos apoiamos”, chegou a dizer Mussolini num discurso.

Mas a violência não gerou frutos eleitorais. Nas eleições de 1919, os fascistas, mesmo apresentando candidaturas de peso, como a do famoso diretor Arturo Toscanini (que depois se tornará antifascista), tiveram apenas 4795 votos e nenhum assento no Parlamento.

“Os fascistas eram um pequeno grupo que não representava nada na Itália da época. No final de 1919 existiam no país inteiro apenas 800 fascistas inscritos no movimento. E a derrota eleitoral foi tamanha que Mussolini chegou a cogitar abandonar tudo, se exilar e tocar violino em navio de cruzeiro”, conta Gentile.

Tal desastre levou os adversários de Mussolini à chacota: organizaram um funeral abaixo da sede do Popolo d’Italia, levando até um caixão com a escrita “fascismo”. Não tinham a menor ideia do que viria pela frente. Nos dois anos seguintes, Mussolini organizou o movimento fascista e deu passe livre aos esquadrões para que tocassem o terror na sociedade italiana.

Num cenário de deterioração democrática, com greves protestos e ocupações, o fascismo começou a encontrar seu rumo como resposta armada em função antissocialista e antissindical.

Parecia uma forma de suprir a ausência das forças policiais e, com isso, Mussolini começou a receber importantes financiamentos e apoios dos proprietários de terras e dos industriais – transformando a Squadre Fasciste em uma milícia da classe média italiana.

O fascismo, nesse clima de pré-guerra civil, parecia representar a única força política capaz de manter a ordem e, por isso, começou a ganhar relevância nacional. Se em 1920 os inscritos no partido eram 20 mil, no ano seguinte já passavam de 250 mil – uma parcela eleitoral que logo chamou a atenção de líderes liberais e conservadores, que dominavam a política italiana naquela época.