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Perseguições e paranoia: Yu Xiangzhen, uma jovem nos horrores do regime Mao Zedong

Atuando na Guarda Vermelha do tirano, Yu revelou os episódios presenciados durante o regime de Zedong

Caio Tortamano Publicado em 23/09/2020, às 19h50

Estudantes membros da Guarda Vermelha em volta de Mao
Estudantes membros da Guarda Vermelha em volta de Mao - Wikimedia Commons

Apenas uma garota de 13 anos quando Mao Zedong tomou o controle da China, Yu Xiangzhen conta que quando o ditador acenava para a população em alvoroço, era uma loucura. A menina fazia parte da chamada Guarda Vermelha, grupo de apoiadores de Zedong que defendia a pátria e seus ideais acima de tudo — basicamente soldados ideológicos.

Segundo o The Guardian, em matéria de 2016, a mulher, 50 anos depois da Revolução Cultural Proletária de 1966, começou a escrever sobre suas memórias em um blog pessoal e com uma intenção bem diferente da que tinha mais de 50 anos antes: evitar que seu país passe pelo o que ela vivenciou.

Yu Xiangzhen ainda jovem / Crédito: Divulgação

 

No verão daquele ano, uma violenta repressão ocorreu no país, afetando todos os chineses e estrangeiros que poderiam se opor ao movimento ascendente dos comunistas no poder.

Historiadores estimam que milhões de vidas tenham sido ceifadas diante das campanhas de Mao. “A fome tomou dimensões muito além do que se pensava anteriormente”, descreve Frank Dikötter, professor catedrático na Universidade de Hong Kong, no livro A grande fome de Mao – A história da catástrofe mais devastadora da China.

“Os especialistas estimavam a catástrofe demográfica entre 15 e 30 milhões de mortes. Com as estatísticas compiladas pelo próprio Gabinete de Segurança Pública na época, descobre-se uma calamidade muito maior: pelo menos 45 milhões de mortes prematuras entre 1958 e 1962. Mas não é simplesmente a extensão do número de mortos que conta, mas também como essas pessoas morreram”.

Pequeno general

Yu, que se tornou jornalista, encarou a Revolução Cultural, como é chamado esse momento na história chinesa. Ela englova o grupo de 'pequenos generais' do ditador. “Nos tornamos da Guarda Vermelha porque nós acreditávamos que morreríamos protegendo o Presidente Mao”.

Em entrevista concedida ao The Guardian, Xiangzhen detalha mais o processo psicológico pelo qual essas crianças passavam. Todo lugar venerava o presidente, e a educação era voltada a idolatrar a figura presidencial que se ergueu após uma revolta liderada pelo então presidente do Partido Comunista Chinês. “Acreditávamos que Mao era mais próximo de nós que nossos pais e mães”, explicou a jornalista.

Imagem de Mao / Crédito: Getty Images

 

E foi assim que ela começou os relatos de seu blog, inclusive, quando o partido comunista fechou as escolas primárias de Pequim, em maio de 1966. O trauma da mulher, inclusive, também se deu nesse período, quando professoras e colegas de turma foram perseguidos sem provas concretas de que eram traidores da nação.

Entre suas funções como pequena general da Guarda Vermelha, Yu entrava em ônibus públicos e encarava trechos do Pequeno Livro Vermelho de Mao, em que recitava trechos. "A revolução não é uma festa, ou uma redação, pintura ou foto. É impossível ser feita de maneira de elegante ou gentil". 

Essas frases, é claro, justificavam a forte repressão popular sofrida pelo povo chinês. Jovens e crianças eram usadas como massa de manobra para que a mensagem chegasse aos trabalhadores.

Terror Vermelho

À medida que as repressões começaram a ficar mais violentas, uma atmosfera de medo começou a pairar em Pequim. A Guarda Vermelha começou a saquear casas em busca de mantimentos e suprimentos para os defensores do governo. Ela também explica que opositores eram espancados em público.

Estudantes membros da Guarda Vermelha / Crédito: Wikimedia Commons

 

As ações cruéis eram louvadas no jornal estatal Bandeira Vermelha, conta Yu, que trazia na sua capa afirmações como “Os Guardas Vermelhos castigaram sem piedade a reacionária cultura burguesa, deixando-os em posição de ratos, correndo pelas ruas e sendo perseguidos”.

Encurralada, a jornalista — que teve um de seus professores espancados na sua frente — não abriu mão da Guarda Vermelha, e às vezes saía em rondas com amigos que faziam parte desse grupo. O momento decisivo para perceber o momento vivenciado ocorreu durante uma ronda. Diante de um grupo de prisioneiros, seus parceiros pediram para a menina bater nos presos com um cinto.

A relação com os amigos ficou estremecida, coincidindo com a época em que seu pai, um antigo correspondente de guerra para o jornal estatal Xinhua, foi apontado como um espião e denunciado. Apesar disso, eles não foram separados, mas a menina temeu muito pela vida dele, que os aconselhou a “nunca fazerem nada do qual poderiam se arrepender pelo resto de suas vidas”.

Essa foi uma das deixas que a menina precisou para abandonar gradativamente a idolatria que foi obrigada a cultivar na figura de Mao. A era de opressão pesada na China teve fim oficialmente em 1969, mas, na prática, só foram observadas mudanças em 1976, depois da morte do líder comunista.


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