Matérias » Literatura

Personagens do Sítio do Picapau Amarelo criaram novos valores familiares em favor da liberdade

Relembre-os no Dia Nacional do Livro Infantil

Redação Publicado em 18/04/2019, às 10h00

Personagens do Sítio do Picapau Amarelo
Reprodução

Dona Aranha Costureira tirou do armário de madrepérola o vestido feito de "cor do mar". A noiva, tonta de admiracão, teve de se sentar para não cair. "Que maravilha das maravilhas!", disse Lúcia, prestes a tornar-se princesa do Reino das Águas Claras. Peixes azuis, dourados, de todas as formas e cores nadavam na fazenda. Casar aos 7 anos com um príncipe escamado, debaixo d’água e tendo uma boneca de pano tagarela como dama de companhia, não é para qualquer uma. E não foi fácil celebrar a união com uma lista de convidados como a dela. Era sua segunda visita ao reino. Na primeira, o doutor Caramujo dera à boneca Emília as pílulas falantes - que fizeram dela uma grande "asneirenta". Dessa vez, a menina levou consigo também o primo da cidade, Pedrinho, o sábio Visconde de Sabugosa, feito de espiga de milho, e o Marquês de Rabicó, porquinho de gula incontrolável - comeu a coroa de rosquinha da noiva e quase estraga a festa.

Lúcia e a turma viveram tantas aventuras quanto permitiu o faz de conta. Criada em 1920, em A Menina do Narizinho Arrebitado, ela ganhou um volume especial de suas peripécias em 1931. O apelido pegou, assim como o universo encantado do Sítio do Picapau Amarelo, criado pelo escritor Monteiro Lobato. Reinações de Narizinho traz 11 histórias, com começo, meio e fim, escolhidas dentro de algumas de suas favoritas publicadas até então.

Reinações de Narizinho pela Editora Brasiliense / Créditos: Reprodução

Reinações, como praticamente toda a obra de José Bento Monteiro Lobato, é um contraponto entre o arcaico e o moderno no Brasil da primeira metade do século 20. "No ambiente rural (o da infância do próprio autor numa Taubaté abandonada após o ciclo do café), vive Dona Benta, uma mulher extremamente culta, conhecedora da ciência e progressista", diz o historiador Raimundo Campos Bandeira, estudioso do trabalho do escritor. "Lobato dissecou a realidade brasileira."

É a avó, "uma velha de mais de 60 anos", a principal influência sobre Narizinho, com quem vive no sítio, junto com a "negra de estimação", Tia Nastácia, e a boneca Emília, "bastante desajeitada de corpo". Como se nota, alguns termos do livro retratam bem a época em que foram escritos, assim como o lugar de fala do autor.

Os personagens já existiam em outras obras de Lobato, como Pedrinho, que surgiu em A Caçada da Onça, de 1924, e depois foram trazidos para o contexto do sítio. Outros "expandiram-se" de Reinações para suas próprias histórias publicadas mais tarde, como O Poço do Visconde, Histórias de Tia Nastácia e Serões de Dona Benta, todos de 1937. Como a primeira grande coleção de aventuras da turma, Reinações deu uma nova dimensão ao sítio, consolidando seu universo encantado. Seduzido pela ideia do progresso e admirador do cinema americano (o autor morou nos EUA de 1927 a 31), Lobato fez interagir com os personagens do sítio o caubói Tom Mix e o Gato Félix, além de figuras "clássicas", como Branca de Neve e Aladim. "É um verdadeiro trançar de histórias", afirma Bandeira. Até surgir Narizinho, "a literatura infantil praticamente não existia entre nós, havia tão-somente o conto de fundo folclórico", diz Edgar Cavalheiro em Monteiro Lobato - Vida e Obra. O primeiro livro para crianças publicado no país, Contos da Carrocinha (1896), era a tradução de historietas europeias. Com Narizinho, "Lobato faculta à infância brasileira, com o prazer da leitura, o sentimento das coisas da terra".

São novos valores, associados à ideia da autonomia e inteligência infantil. No sítio, não há pai nem mãe. A família tradicional é rompida em favor da liberdade. "Só as vovós aturam crianças e deixam-nas fazer o que querem", escreveu Lobato. Numa época em que os pequenos eram vistos como miniadultos e não tinham espaço definido na sociedade, o autor foi visionário, diferenciando os dois públicos na forma como compreendem a realidade e a fantasia. Na pele de Pedrinho, ele até manifesta sua preferência pela maneira de pensar das crianças. O garoto é valente, não tem medo de nada (só "respeita" as vespas) e é ele quem protege Nastácia dos bichos do fundo do mar que vão visitar o sítio - animais inofensivos que metem medo nos adultos. Já Narizinho demonstra sabedoria invejável": concilia as mais distintas (e intensas) personalidades da turma, resolve conflitos e tem bom coração, sem ser submissa.

Narizinho, Emília e Pedrinho em versão do Sítio do Picapau Amarelo exibida pela Rede Globo de 2001 a 2007 / Créditos: Reprodução

Empurrão

A entrada dessa literatura na vida das crianças, porém, precisou de um empurrãozinho do criador. Editor de seus próprios livros, Lobato doou 500 exemplares de Narizinho Arrebitado, a primeira obra que compôs Reinações, para escolas públicas de São Paulo. Logo ganhou muitos fãs entre os alunos. Após notar os volumes sempre sujos e surrados em várias escolas, o então presidente do estado, Washington Luís, mandou comprar e distribuir mais de 30 mil exemplares.

Foi uma verdadeira "avalanche nasal", nas palavras do autor. Narizinho nunca mais deixou de ser lida, reeditada e repaginada em todas as mídias. (E Reinações prenunciou esse sucesso.) Rendeu programas de TV, rádio, filmes, música, HQ, peças de teatro e está na internet. A primeira versão do Sítio para a televisão foi ao ar em 1952 na extinta TV Tupi. Depois passou por mais duas emissoras até chegar à TV Globo, em 1977. Essa adaptação (conhecida inclusive no exterior) ficou no ar até 1986 e ganhou novas temporadas, exibidas entre 2001 e 2007. Em 2010, aos 90 anos, A Menina do Narizinho Arrebitado foi transformada na primeira versão interativa de uma obra literária brasileira para iPad.

Empreendedor, Lobato não só costumava editar os próprios livros como se envolveu em várias polêmicas. Sua crítica à pintura de Anita Malfatti fez com que os modernistas (que liderariam a Semana de Arte Moderna de 1922) o tratassem como reacionário - diferenças superadas posteriormente. Em 1940, ao defender a exploração de petróleo no Brasil (ele montou uma empresa de perfuração, em 1932), lançou um dossiê acusando o governo de agir contra o interesse nacional. Também atacou a política mineradora e foi preso no ano seguinte pela ditadura Vargas. Livrou-se seis meses depois graças a uma campanha de intelectuais. Ele não segurava a língua e lembrava Dona Benta, "que nunca havia mentido em toda a sua vida". A avó bem que tentou uma vez, com medo de que Anastácia não acreditasse no relato da viagem com pó de pirlimpimpim até o castelo do barão de Munchausen. Mas a cozinheira a corrigiu, pois já sabia das aventuras pelo burro falante. Nesse último capítulo de Reinações, aparece uma avó com a mente ainda mais aberta, como se verá nos Serões.

Defensor da liberdade de imprensa, o escritor teve problemas com o governo mesmo após o Estado Novo e mudou-se para Buenos Aires em busca de um pouco de sossego. Em 1948, um aneurisma cerebral o matou. À época, já andava triste (perdera os dois filhos alguns anos antes), tal qual Pedrinho no fim das Reinações, quando foi convocado pela mãe para voltar à casa e deixar para trás Narizinho e o Sítio do Picapau Amarelo.