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Pode um gato ser um telefone? Cientistas responderam a essa pergunta

Em 1929, pesquisadores dos EUA tentaram descobrir se era possível passar mensagens telefônicas pelos nervos de um animal. Tiveram sua resposta, ao custo de muita crueldade

terça 8 janeiro, 2019
 Essa não é uma história meiga
Essa não é uma história meiga Foto:Getty Images

O que um gato tem a ver com um cabo de par trançado? Ambos podem transmitir ligações telefônicas.

Sabemos porque alguém testou para descobrir. E não qualquer alguém: o autor da ideia foi o professor da Universidade de Princeton, Ernest Glen Wever, que ainda viria a ser o chefe do departamento de psicologia da prestigiada instituição.

Apesar de oficialmente psicólogo, Wever era o que hoje chamaríamos de neurocientista, termo que ainda não existia. Foi um dos pioneiros nesse campo. Em 1929, ele e seu assistente Charles William Bray conseguiram transmitir uma chamada telefônica através do nervo auditivo de um gato.

Reprodução

E quem tem pouca tolerância para ouvir sobre crueldade com animais pode parar por aqui. O caso é que o gato estava vivo.

O experimento

Para dar acesso a seu nervo, foi sedado, teve seu crânio aberto e parte do cérebro removida. Wever então ligou um cabo telefônico ao fim do nervo, que ia até uma sala isolada, onde estava Bray. E falou na orelha do pobre animal.

O assistente recebeu uma mensagem clara, como se fosse um cabo normal. O gatofone era um sucesso – provando que qualquer mamífero, até você, também pode ser um cabo telefônico.

Mas esse não era o ponto deles. Era um experimento neurológico, e o que queriam testar era uma teoria de que os nervos transmitem seus impulsos em frequência maior quando o estímulo é maior. Estímulo, no caso, a amplitude, o volume do som. Wever então falou baixinho e gritou, depois falou fino e falou grosso. Provou que não era como se imaginava. A frequência e a amplitude eram proporcionais.

Também experimentou mudar a posição do cabo para outra parte do cérebro, para verificar se não estava simplesmente conduzindo eletricidade pelos tecidos vivos. Não funcionou. Cortou o suprimento de sangue para o nervo temporariamente. Também nada.

Quando tanto abuso levou ao inevitável e o gato terminou por perecer, nunca mais deu resultado.

Para além de qualquer dúvida, o tímpano pode funcionar como um bocal telefônico; e o nervo, como cabo. Bray e seu assistente foram premiados com a medalha da Sociedade de Psicólogos Experimentais em 1936. Wever passaria o resto de sua vida estudando a audição, cessando suas atrocidades contra felinos. Bray trabalharia com a Marinha dos EUA na Segunda Guerra, desenvolvendo o sonar.

Ambos nunca viram qualquer utilidade prática em seu experimento. Mas tem. E, nisso, chegamos a um final, na medida do possível, feliz: o gatofone daria origem aos mais modernos aparelhos auditivos, que são ligados direto ao nervo, intracranialmente.

Fabio Marton


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