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Eterna controvérsia: Cleópatra era branca ou negra?

A dúvida sobre a cor de pele da mais famosa rainha do Egito tem gerado disputas ideológicas há séculos

Joseane Pereira Publicado em 08/02/2020, às 09h00

Poster do filme Cleópatra (1963)
Poster do filme Cleópatra (1963) - Divulgação

Estabelecer a verdadeira cor da pele de Cleópatra é uma das maiores disputas da História. Enquanto uns afirmam que a grande Rainha era negra de sangue egípcio, outros defendem que sua origem grega automaticamente a teria feito branca.

Em artigo reproduzido pelos Cadernos Pagu, da Universidade de Campinas, em 2004, a pesquisadora norte-americana Ella Shohat analisou a representação iconográfica de Cleópatra no século 20. Nessa época, com a proliferação de filmes hollywoodianos que mostravam uma rainha branca de olhos claros, o debate sobre sua cor tomou grandes proporções.

Com pai ptolomaico e mãe desconhecida, estima-se que o sangue de Cleópatra continha traços gregos, macedônios e persas. Para Michael Grant, autor da biografia Cleópatra, embora a rainha tivesse vivido e reinado no Egito, ela não tinha “uma gota de sangue egípcio em suas veias”. Como era da dinastia ptolomaica, ela foi criada e ensinada a ser grega.

Busto de Cleópatra no Museu Altes, Alemanha /  Crédito: Wikimedia Commons

 

Mas o problema é que os próprios gregos são fruto de mistura: vivendo no mar Mediterrânio desde tempos imemoriais, esse povo se relacionou comercialmente – e também de outras formas - com inúmeras culturas. Na época de seu nascimento, em 69 a.C., a mistura entre gregos e egípcios já vinha de longa data.

De acordo com Shohat, “A miscigenação greco-egípcia, em outras palavras, deve ter ocorrido no Egito desde que os senhores de escravos tiveram filhos com suas escravas egípcias”.

Assim seria o rosto da faraó / Crédito: Divulgação

 

Esse debate, que mistura discursos eurocêntricos e afrocêntricos, tem em sua essência uma ideia de pureza. E é aí que está o foco do conflito: “As afirmações opostas – de que Cleópatra era egípcia, e portanto negra, e de que era grega, e portanto branca – são igualmente problemáticas. Tanto a equação simplista entre, de um lado, ser egípcia e negra, quanto, de outro, ser grega e branca, essencializam geografias culturais”, afirma a autora Shohat.

Se gregos, egípcios e macedônios eram essencialmente misturados, não faz sentido que perguntemos sobre a verdadeira cor de Cleópatra. Essas opiniões, que mudam de acordo com o tempo, mostram muito sobre os matizes políticos e ideológicos de seus criadores. Portanto, o invés de buscar essa resposta, mais interessante seria compreender os discursos políticos e ideológicos existentes por trás da pergunta.


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