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A polêmica de Elias Figueroa, o craque nu que confrontou a família tradicional

Fotos de Figueroa nu andando pelo vestiário resultaram em um escândalo sem precedentes que ganhou contornos nacionais em programas e revistas

José Renato Santiago Publicado em 25/10/2019, às 08h00

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Reprodução

Nascido na cidade chilena de Valparaíso em 1946, Elias Figueroa foi um dos maiores jogadores chilenos de todos os tempos e, para muitos, o maior zagueiro da história do futebol sul-americano. Dono de um jogo vigoroso, ganhou destaque pela grande capacidade de se antecipar aos seus adversários, pela elegância com que dominava a bola e partia para o ataque, algo raro naqueles tempos, e, sobretudo, por sua forte personalidade e liderança junto aos demais jogadores, o que o fez ser capitão em praticamente todas as equipes em que atuou.

Estreou como profissional ainda em 1964 na pequena equipe do Unión La Calera, onde logo foi notado. Não demorou muito para ser contratado pelo Santiago Wanderers, que defendeu durante o Campeonato Chileno de 1965. Suas grandes atuações fizeram com que fosse escolhido o melhor atleta da competição e renderam sua primeira convocação para a seleção nacional.

Tinha apenas 19 anos quando vestiu as cores chilenas como titular absoluto durante a Copa do Mundo de 1966, disputada na Inglaterra. Suas boas atuações impressionaram e ele logo partiu para novos ares, o Uruguai, contratado para atuar em um dos maiores clubes do mundo, o Penãrol de Montevidéu.

A polêmica que roubou todas as manchestes / Crédito: Reprodução

 

Já bicampeão uruguaio e reconhecido mundialmente, em 1971 recebeu o convite para atuar no Real Madrid. No entanto, recusou. Sua intenção era atuar no campeonato onde estavam os melhores jogadores do mundo – o do Brasil, atual campeão mundial. Assim, preferiu jogar no Internacional de Porto Alegre. Vestindo a camisa colorada, o agora aclamado como “Dom Elias” fez jus à sua fama e logo se tornou um dos maiores atletas do futebol nacional.

Sua legião de fãs incluía admiradores não só de seu talento apresentado nos campos como de sua beleza física destacada pela forma elegante como costumava se apresentar também nos programas esportivos. Esse interesse viria a envolvê-lo em um fato, no mínimo, pitoresco, que resultou em muita polêmica na época.

Era abril de 1973, quando, após um árduo treino comandado pelo técnico Dino Sani, os jogadores do Internacional se encaminharam aos vestiários onde tomaram banho, fizeram massagem e partiram para a concentração de uma partida do Campeonato Gaúcho.

Poucos dias depois, o jornal Zero Hora publicou, na coluna do chargista Marco Aurélio Carvalho, fotos de Figueroa nu andando pelo vestiário do estádio do Beira Rio. Um escândalo sem precedentes para a sociedade da época e que ganhou contornos nacionais em programas e revistas. Sob a sombra das surpreendentes fotos de Jacqueline Onassis, viúva do presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, nua
na praia da Ilha de Skorpios na Grécia, em 1972, o fotógrafo Hipólito Pereira havia decidido se embrenhar entre as frestas do estádio colorado e fazer o mesmo com Figueroa.

Segundo ele, foram quase dois meses de tentativas, em um plano que chegou a incluir a chegada ao estádio do Beira Rio, de barco através do Rio Guaíba, devidamente fantasiado de amante de pesca submarina. O alvo das fotos sempre foi Figueroa e algumas vezes apareciam outros atletas, que, inadvertidamente, acabavam por encobrir sua imagem.

Após a publicação, foram inúmeras as cartas de mães endereçadas para a redação do jornal, até mesmo para o clube gáucho, reprovando o episódio, que segundo elas ousara macular a honra e o respeito característicos da tradicional família gaúcha. Por conta disso, muitas delas afirmaram que passariam a proibir que seus filhos continuassem a frequentar os estádios de futebol.

Pressionado pela opinião pública, o presidente da Federação Gaúcha de Futebol Rubens Freire Hoffmeister emitiu uma nota oficial de repúdio ao episódio e resolveu cancelar a rodada do Campeonato Gaúcho, o que viria a causar muitos problemas para as equipes gaúchas, cujos jogos faziam parte da Loteria Esportiva, jogo mantido pela Caixa Econômica Federal.

O adiamento das partidas provocou a ausência dos times gaúchos por alguns anos na loteria, como forma de punição, o que também significou a perda de receitas. O afamado jornalista João Saldanha, ex-técnico da seleção brasileira de futebol, publicou em sua coluna que o cancelamento dos jogos do Campeonato Gaúcho só caberia em caso de calamidade pública, o que certamente não era o caso.

Já o autor Luis Fernando Verissimo, por sinal, um fanático torcedor colorado, destacou que Figueroa tinha se tornado uma personalidade controvertida a partir da imagem intelectual criada em torno dele porque citara, certa vez, um poema de Pablo Neruda, e que suas fotos apenas serviam para destacar o preconceito com relação ao jogador de futebol.

Escreveu “aqui há aquela coisa gaúcha – esta, sim, provinciana – de tentar preservar a
sobriedade em tudo, uma certa aversão ao brilho pessoal e à extravagância. Figueroa está vencendo este preconceito também, o que me parece muito saudável.”

Passado o escândalo, ao final daquela temporada, em agosto, o Internacional
viria a conquistar o pentacampeonato gaúcho, o quinto de uma sequência que chegaria a oito títulos consecutivos em 1976. Segundo entrevista dada pelo então técnico da equipe, Dino Sani: “As fotos ajudaram porque o campeonato foi paralisado, o que nos deu tempo para recuperar os lesionados e partir com força total para o título”.

Quanto a Figueroa, defendeu a seleção chilena na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha, onde voltou a ser indicado como um dos maiores jogadores de sua posição, e continuou como o grande líder do Internacional, chegando a marcar o gol do primeiro título brasileiro da equipe, na vitória por 1 a 0 frente ao Cruzeiro em 1975.

Aliás, esse gol, de cabeça, entrou para a História como o “gol iluminado”, pois um único feixe de luz do Sol iluminou exatamente a cabeça do craque chileno. Deixou os gramados como atleta profissional em 1982, aos 36 anos. Por fim, quanto às fotos de jogador nu, coube a Vampeta, então atleta do Corinthians, ser o protagonista de nova polêmica em janeiro de 1999, mais de 25 anos depois do episódio de Figueroa, quando posou nu, por livre e espontânea vontade, para a revista G Magazine. A partir daí, inúmeros outros atletas optaram por fazer esse tipo de trabalho.


 José Renato Santiago é Doutor e mestre pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo com pós-graduação pela ESPM. Autor de livros sobre a história do futebol, gestão do conhecimento e capital intelectual.