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A polêmica de Monteiro Lobato em Sítio do Picapau Amarelo: homem de seu tempo ou racismo explícito?

Em sua obra infantil, o escritor taubateano utilizou inúmeras expressões controversas para caracterizar, principalmente, a personagem Tia Nastácia, cozinheira negra do sítio

Isabela Barreiros Publicado em 04/01/2020, às 08h00

Ilustração da tirinha do Sítio do Picapau Amarelo
Ilustração da tirinha do Sítio do Picapau Amarelo - Divulgação

"Na casa ainda existem duas pessoas – Tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo", escreveu Monteiro Lobato em “Reinações de Narizinho”, livro infantil de 1931. O trecho é um bom exemplo do que é possível ler nas obras do famoso escritor.

Em várias outras obras, como em “Caçadas de Pedrinho”, de 1933, também podemos observar o uso de expressões de cunho racista e preconceituosas. No livro citado, os termos “macaca de carvão” e “carne preta” são utilizados para caracterizar Tia Nastácia, a cozinheira da casa no Sítio do Picapau Amarelo

“Tia Nastácia era sempre a ‘bola da vez’: ingênua, simplória, medrosa, serviçal e alvo de racismo e discriminações explícitas. Tudo em perfeita consonância com a hierarquia racial: na base da pirâmide, a mulher negra”, explica a historiadora e professora do Departamento de História da Unicamp, Lucilene Reginaldo em artigo. 

Retrato de Monteiro Lobato / Crédito: Wikimedia Commons

 

Reginaldo ainda aponta que Tia Nastácia era “adjetivada como negra, preta, o tempo todo. Só ela tinha cor, apenas nela a cor se colava como uma marca indelével, mesmo que fosse ‘a boa negra’. No trecho, ainda de “Reinações de Narizinho”, é possível perceber a questão levantada pela historiadora: “Dona Carochinha botou-lhe a língua – uma língua muito magra e seca – e retirou-se furiosa da vida, a resmungar que nem uma negra beiçuda", narra Lobato. 

No dia primeiro de janeiro deste ano, as obras de Monteiro Lobato passaram a ser de domínio público, após 70 anos estarem sob os direitos autorais de seus descendentes. Este fato permite que as editoras publiquem os títulos adaptados ou na íntegra. 

Pedro Bandeira é um dos escritores responsáveis por readaptar algumas histórias de Monteiro Lobato, e também falou sobre as mudanças necessárias para que as obras estivessem de acordo com novas concepções sociais. O autor alterou trechos considerados racistas e cortou da narrativa o personagem Pedrinho.

Crédito: Divulgação/Rede Globo

 

Por exemplo, no trecho "Dona Carochinha botou-lhe a língua – uma língua muito magra e seca – e retirou-se furiosa da vida, a resmungar que nem uma negra beiçuda", Pedro Bandeira readapta para "Dona Carochinha botou-lhe a língua — uma língua muito magra e seca — e retirou-se danada da vida, a resmungar". 

“Sua obra não perderá a qualidade se tirarmos, aqui e ali, xingamentos acachapantes”, afirma o autor. “Lobato era um homem do seu tempo. Usando uma expressão que já virou lugar-comum, surfava na onda das teorias científicas e do pensamento social dominantes na primeira metade do século 20”, relembra Reginaldo. 


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