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Por que a maioria das bruxas são mulheres?

Durante os julgamentos da bruxas em Salem, no século 17, as mulheres eram as mais acusadas

Bridget Marshall Publicado em 19/11/2019, às 17h36

Um dos muitos julgamentos por bruxaria
Um dos muitos julgamentos por bruxaria - Wikimedia Commons

Caça as bruxas já é uma frase comumente usada, hoje em dia, para designar desde processos de impeachment e de assédio sexual, até alegações de corrupção.

Quando homens poderosos falam sobre bruxas, eles não estão falando sobre mulheres verdes com chapéus pontudos. Eles falam, na verdade, sobre os julgamentos de bruxas sem Salem, quando 19 pessoas, na Massachusetts do século 17, foram executadas sob a acusação de bruxaria.

Usar a frase para decretar alegações supostamente infundadas, no entanto, reflete um mal-entendido da história americana. Os julgamentos de Salem não tinham os poderosos como alvos. Eles perseguiam os membros mais marginalizados da sociedade — particularmente mulheres.

Em minhas pesquisas sobre os aspectos mais sombrios da cultura americana, escrevi sobre vários julgamentos de bruxas. Dou um curso universitário em Massachusetts que explora o período frequentemente mal interpretado na história da Nova Inglaterra.

Talvez, um dos pontos mais importantes sobre os julgamentos seja o gênero, como meus alunos descobrem rapidamente. Em Salem, 14 das 19 pessoas consideradas culpadas e executadas por bruxaria em 1692 eram mulheres.

Em toda a Nova Inglaterra, onde a caça as bruxas ocorreu com alguma regularidade entre 1638 e 1725, as mulheres superavam em número os homens nas fileiras dos acusados ​​e executados. De acordo com o livro O Diabo em Forma de Mulher, de Carol F. Karlsen, 78% das 344 supostas bruxas suspeitas no país eram do sexo feminino.

Mesmo quando eram homens quem sofriam acusações de bruxaria, era porque estavam, de alguma forma, associados a mulheres também acusadas. O historiador John Demos estabeleceu, em seu livro de 1982, os poucos homens puritanos julgados por bruxaria eram principalmente maridos ou irmãos de supostas bruxas.

Nesse contexto, as mulheres ocupavam uma posição precária e impotente dentro de uma sociedade puritana e profundamente religiosa.

Para esses religiosos, as mulheres deveriam ter e criar seus filhos, administrar a vida doméstica e serem devotas ao cristianismo e aos seus maridos. No entanto, numa história semelhante a de Eva e sua maçã pecaminosa, os puritanos acreditaram que as mulheres eram propensas às tentações do diabo.

Julgamento de mulheres acusadas de bruxaria / Crédito: Wikimedia Commons

 

IMPOTENTES

Considerando que cargos como magistrados, juris e de clérigos eram ocupados por homens, foram eles quem impuseram uma série de regras nessa sociedade primitiva.

Sendo assim, quando mulheres saíam dos papéis que deveriam desempenhar, elas se tornavam alvos. Se a mulher era rica, poderia ser por um caminho de pecados. Se ela tinha pouco dinheiro, era porque demonstrou mau caráter. Se ela tivesse muitas crianças, a quantidade poderia indicar um acordo com o diabo. No entanto, ter poucos filhos também era suspeito.

Mary Webster, de Hadley, Massachusetts, por exemplo, era casada, não tinha filhos e contava com a caridade dos vizinhos para sobreviver. Mesmo assim, para a população, ela não demonstrava gratidão suficiente para a ajuda que recebia. Rapidamente, recebeu a reputação de uma pessoa desagradável.

Os vizinhos da mulher a acusaram de bruxaria em 1683, quando ela tinha cerca de 60 anos. Todos alegavam que ela trabalhava com o diabo e que teria enfeitiçado a produção de gado local. O Tribunal de Assistentes de Boston, que presidiu os casos de bruxaria, declarou-a inocente.

Poucos meses depois do veredito, um dos vizinhos de Mary, Philip Smith, adoeceu. Novamente, os moradores do bairro culparam a mulher e tentaram enforca-la pelo ocorrido, para, supostamente, acabar o sofrimento de Smith.

O home morreu assim mesmo. Enquanto isso, Mary sobreviveu à tentativa de execução — para o terror de seus vizinhos.

Mary Bliss Parsons, de Northampton, Massachusetts, também acusada de bruxaria, era o oposto de Webster. Ela era esposa do homem mais rico da cidade e mãe de nove filhos saudáveis.

Os vizinhos, entretanto, consideraram Parsons uma mulher dominadora de discurso forçado, segundo o historiador James Russell Trumbull, em seu livro História de Northampton, de 1898. Em 1674, Mary Parsons foi acusada de bruxaria.

Ela também foi absolvida. Eventualmente, rumores contínuos sobre bruxaria forçaram a família Parsons a se instalar em Boston.

O Inquisitor / Crédito: Getty Images

 

MANTENHA-SE NA LINHA, MULHER

Antes do ocorrido em Salem, a maioria dos julgamentos de bruxaria na Nova Inglaterra resultou em absolvição. Segundo Demos, dos 93 julgamentos documentados antes de Salem, apenas 16 "bruxas" foram executadas.

Os acusados, porém, raramente ficavam impunes.

Em seu livro de 2005, Escaping Salem (Escapando de Salem), Richard Godbeer examina o caso de duas mulheres de Connecticut — Elizabeth Clawson, de Stamford, e Mercy Disborough, de Fairfield — acusadas de enfeitiçar uma criada chamada Kate Branch.

Ambas estavam "confiantes e determinadas, prontas para expressar suas opiniões e permanecer firmes". Elizabeth foi considerada inocente após passar cinco meses na prisão. Já Mercy permaneceu presa por quase um ano até que foi absolvida.

As duas tiveram que pagar multas e taxas relacionadas ao encarceramento.

Ilustração de Martha Corey e seus perseguidores / Crédito: Getty Images

 

MULHER VS MULHER

Ainda que muitos dos acusados fossem mulheres, a maioria das pessoas que alegavam serem vítimas de bruxariam também eram do sexo feminino.

Nos famosos julgamentos de Salem, as pessoas afligidas por uma cinomose (uma doença altamente contagiosa) em 1692 eram todas meninas adolescentes.

Inicialmente, duas meninas da casa do Reverendo Samuel Parris alegaram que estavam sendo mordidas, beliscadas e picadas por espectros invisíveis. Logo, outras meninas relataram sentimentos semelhantes. Algumas até deram ataques, gritando que viam espectros aterrorizantes.

Muitas pessoas chegaram a sugerir que as meninas estavam fingindo todos os sintomas. Em seu livro de 1700, o comerciante e historiador Robert Calef, de Boston, as chamou de vile varlets, um termo que designava patifes.

A peça de Arthur Miller, The Crucible, também retratava as garotas de Salem como vilãs. Abigail, uma das personagens — que era, na vida real, uma garota de 11 anos — como uma garota manipuladora de 16 anos, que tinha um caso com um homem casado. Na narrativa, Abigail queria afastar seu amado da esposa e acabou por fazer acusações de bruxaria.

Nenhum registro histórico sugere que os dois tenham realmente tido um caso. Mas a peça de Miller é tão conhecida que um número incontável de americanos conhecem apenas essa versão dos eventos.

OPRESSÃO SISTEMÁTICA

Outras histórias de Salem culpam Tituba, uma mulher escravizada na casa do reverendo Samuel Parris, por ensinar bruxaria às meninas locais. Ela teria confessado assinar o livro do diabo em 1692, confirmando o pior temor dos puritanos: de que o diabo estava recrutando pessoas.

Entretanto, dada a sua posição como uma pessoa escravizada e uma mulher de cor, é quase certo que a confissão de Tituba tenha sido coagida.

Por esses motivos os julgamentos de bruxas não eram apenas acusações que hoje parecem infundadas. Eles se tratavam de um sistema de justiça que escalava as queixas locais em ofensas capitais e tinha como alvo uma minoria subjugada.

As mulheres foram vítimas dessa terrível parte da história americana e de uma sociedade criada e controlada por homens poderosos.

Ilustração de julgamento de mulher acusada de bruxaria / Crédito: Wikimedia Commons

 


Bridget Marshall é professora associada de Inglês da Universidade de Massachusetts Lowell. Este artigo foi republicado no The Conversation sob uma licença Creative Commons.


+ Saiba mais sobre as bruxas de Salem com os livros a seguir

Entertaining Satan: Witchcraft and the Culture of Early New England, John Putnam Demos (2004)

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The Devil in the Shape of a Woman: Witchcraft in Colonial New England, Carol F. Karlsen (1998)

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Escaping Salem: The Other Witch Hunt of 1692, Richard Godbeer (2005)

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Eu, Tituba: Bruxa negra de Salem, Maryse Condé (2019)

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