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Por que o ex-presidente da Geórgia está em greve de fome?

Prisão de Mikheil Saakashvili chama atenção

Pedro Paulo Furlan, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 20/11/2021, às 10h00

Mikheil Saakashvili na Concordia Summit, em 2014
Mikheil Saakashvili na Concordia Summit, em 2014 - Getty Images

Fundador do partido MNU (Movimento Nacional Unido), um dos maiores partidos da Geórgia, país na intersecção da Europa com a Ásia e anteriormente parte da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), e ex-presidente, Mikheil Saakashvili foi preso em 1° de outubro deste ano e tem estado em greve de fome.

A prisão foi feita em base de acusações de abuso de poder e acobertamento de provas. A sentença foi declarada em 2018, no entanto, o político esteve na Ucrânia entre este momento e sua prisão em 2021, quando decidiu retornar a Geórgia e “salvar o país”, como declarou em suas redes sociais.

São 50 dias em que o ex-presidente Saakashvili entrou em greve de fome e a decisão têm tido impactos profundos em sua saúde física, com seu médico, o dr. Guiorgui Grigolia apontando que a “sua vida está ameaçada” e exigindo que o político seja movido para uma clínica civil, na qual ele pode ser vigiado e cuidado.

Mas quem é Mikheil Saakashvili?

Mikheil Saakashvili e o ex-presidente americano Obama em 2012 - Foto: Getty Images

 

Nascido na Geórgia em 1967, quando o país ainda era uma república socialista, Mikheil Saakashvili ingressou na política em 1995, quando ainda estava nos Estados Unidos, estudando direito. O ex-presidente começou com uma cadeira no recente parlamento georgiano sob o partido centro-esquerdista União dos Cidadãos da Geórgia.

Em 2001, no entanto, retirou-se deste partido e criou um movimento próprio, que unia sob uma bandeira direitista e nacionalista as oposições ao presidente, na época, Eduard Shevardnadze, o Movimento Nacional Unido (MNU).

Dois anos depois, Mikheil Saakashvili candidatou-se para as eleições parlamentares e foi negado seu posto, mesmo com grandes provas de que havia conquistado a posição. Após várias denúncias de que estas eleições haviam sido manipuladas, a população georgiana foi às ruas exigir um governo justo.

No que foi chamado a Revolução Rosa, inúmeros protestos, com grande protagonismo de Saakashvili, resultaram na renúncia de Shevardnadze e, em janeiro de 2004, as novas eleições aconteceram e Mikheil foi selecionado com 96% dos votos.

Eleito por dois mandatos seguidos, ficando no poder até 2013, o ex-presidente aproximou-se dos Estados Unidos e estreitou as relações com os países ocidentais, investindo no exército e buscando apoio internacional para a Geórgia.

Em 2008, envolveu-se em um conflito armado contra a Rússia e, a partir daí, investiu na separação entre a nação georgiana e o país de Putin, inclusive explicitamente apoiando os movimentos do Euromaidan em 2013 e 2014, que criticavam o governo Ucraniano e sua recusa de assinar um documento que aproximava o país da União Europeia.

E por que ele foi preso?

Mikhail Saakashvili preso em outubro de 2021 - Foto: Divulgação / Vídeo / FRANCE 24 English

 

As acusações de Saakashvili de 2017 e 2018, e suas respectivas sentenças, podem ser divididas em supostos crimes pontuais do ex-presidente, que está usando sua greve de fome como forma de protesto às denúncias.

Junto com acusações de corrupção e roubo de fundos georgianos para uso pessoal, Mikheil Saakashvili foi sentenciado, em 2017, a 11 anos na prisão, devido ao abuso de seu poder na dispersão dos movimentos de 2007 e na invasão da estação de TV Imedi Media Holding.

Durante 2007, a população georgiana foi às ruas para denunciar a suposta corrupção do governo do ex-presidente, no entanto, o político declarou que este movimento era arquitetado pela Rússia, utilizando forças policiais violentas para quebrar qualquer protesto

Além disso, usou das mesmas tropas para invadir o escritório da Imedi TV, que estava noticiando as movimentações da polícia para cima dos protestantes, destruindo os equipamentos e suspendendo os direitos de transmissão da emissora por meses.

As denúncias de 2018 foram por motivos diferentes e são os dois últimos ‘crimes’ que mantém Saakashvili na prisão hoje em dia. As acusações envolveram os casos de Sandro Girgvliani e Valery Gelashvili

No primeiro, as autoridades conectaram Saakashvili com o assassino de Girgvliani, em 2005, que foi organizado pelo Ministro do Interior na época, Vano Merabishvili. Segundo as denúncias, Saakashvili foi condenado porque abusou de seu poder como presidente ao perdoar as pessoas envolvidas no crime.

Enquanto isso, o caso de Gelashvili foi um espancamento que o levou ao hospital e também foi arquitetado por oficiais do governo de Mikhail Saakashvili. Nesta vez, o ex-presidente foi condenado por esconder provas deste acontecimento.

No entanto, até hoje, Saakashvili e seus apoiadores consideram qualquer uma de suas acusações como motivada por política e não uma denúncia válida. Devido a esta posição, o político está na greve de fome que pode levar a sua morte, já durando mais de 50 dias.