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Por que os Estados Unidos não têm um sistema nacional de saúde?

Ao fim da Segunda Guerra, o país foi a única potência ocidental a não implantar o projeto, ainda que fosse o desejo do presidente

Pamela Malva Publicado em 04/03/2021, às 20h30 - Atualizado às 20h58

Imagem meramente ilustrativa de quarto de hospital
Imagem meramente ilustrativa de quarto de hospital - Wikimedia Commons

Natural da Polônia, o filósofo Arthur Schopenhauer acreditava que “o maior erro que um homem pode cometer é sacrificar a sua saúde a qualquer outra vantagem”. Depois dele, diversos teóricos, da sociologia até a polítcia, concordaram com a prioridade da saúde.

No Brasil, por exemplo, o acesso à saúde é um direito básico do cidadão, previsto pelo artigo 6º da Constituição. Dessa forma, tanto no país, quanto em outras nações, toda e qualquer pessoa deve poder usufruir de um sistema de saúde de qualidade.

Desde a Segunda Guerra Mundial, no entanto, os Estados Unidos não oferecem um sistema de saúde universal para a sua população. O território norte-americano, inclusive, foi a única potência ocidadental a rejeitar o projeto logo depois do conflito.

Imagem meramente ilustrativa de soldados no Dia D / Crédito: Wikimedia Commons

 

Sob novo comando

Em abril de 1945, Harry S. Truman assumiu o cargo de 33º presidente dos Estados Unidos, governando o país nos últimos meses da Segunda Guerra. Na época, ele substituiu o falecido Franklin D. Roosevelt, de 63 anos.

Logo que o conflito mundial terminou, então, Truman concentrou seus esforços para resolver questões internas do país. De repente, o novo presidente se deparou com uma política que deixava um dos direitos mais básicos de lado.

A fim de recuperar os Estados Unidos da Grande Depressão, Roosevelt criou o chamado “new deal”, que tinha algumas prioridades além do setor hospitalar. “Devemos reconhecer um fato básico”, lamentou Truman, à época. “O custo dos cuidados de saúde é proibitivo para muitos milhões de nosso povo.”

Retrato de Franklin D. Roosevelt / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um novo acordo

"Ele substituiu o 'new deal' pelo que chamou de 'fair deal' e, como parte de sua agenda, se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a endossar um plano nacional de seguro saúde”, explicou o professor de medicina social Jonathan Oberlander, da Universidade da Carolina do Norte, em entrevista à BBC News Mundo.

A nova proposta de Truman, que chegou ao Congresso, portanto, visava beneficiar um grande número de norte-americanos. "Não estou falando apenas sobre os muito pobres ou muito ricos, mas sobre todos os milhões entre eles”, explicou o então presidente.

Ao mesmo tempo, do outro lado do Oceano Atlântico, o Reino Unido colocava em prática um plano ambicioso, que prometia atendimento gratuito para toda a sua população. Tratava-se do sistema nacional de saúde que serviu de molde para Truman

Em terras norte-americanas, o presidente não planejava nacionalizar a saúde — como estava sendo feito na Inglaterra —, mas ele desejava modificar todo o sistema de pagamento da área da saúde. O obstáculo, contudo, eram os próprios médicos.

Retrato de Harry S. Truman / Crédito: Wikimedia Commons

 

Planos frustrados

Segundo Oberlander, a ideia de Truman era responsabilizar o governo pela organização do “pagamento dos cuidados médicos por meio de um programa de seguro”. Nesse sentido, hospitais e consultórios não seriam controlados pelo Estado.

"Há 110 milhões de pessoas neste país que não podem pagar pelos cuidados médicos adequados”, justificou o presidente, à época. “Isso é uma pena no país mais rico do mundo.” Assim, a ideia era garantir o básico a partir de um imposto — cerca de 4% do rendimento de cada cidadão —, cujo valor que seria revertido para os hospitais.

O problema é que, para os médicos, a nova proposta era bastante arriscada. “Eles estavam preocupados com sua autonomia, a capacidade de praticar a medicina como bem entendessem e queriam manter sua autonomia financeira”, explicou Oberlander.

Imagem meramente ilustrativa de estetoscópio / Crédito: Divulgação/Pixabay

 

Sem saída

Com os Republicanos no Congresso e a resistência dos médicos, o projeto acabou sendo engavetado, em meados de1946. Quando Truman foi reeleito, em 1949, contudo, os Democratas tomaram conta das cadeiras, o que deixou os médicos bastante inquietos.

Tamanho foi o medo dos especialistas que a Associação Médica Americana passou a fazer propagandas contra o plano do presidente. Entre outros pontos, a campanha — “que foi a campanha de lobby mais cara da época”, segundo Oberlander — afirmava que o projeto de Truman faria da América um país comunista.

Para piorar, os democratas no congresso criaram alianças partidárias tradicionalistas. A grande coalizão conservadora, portanto, empacou completamente os planos de Truman, que acabaram, por fim, esquecidos com o tempo. Até hoje, então, a ideia de uma cobertura universal de saúde está bastante distante da realidade dos norte-americanos.


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