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Conheça as profecias de Nostradamus, que ainda hoje despertam medo

Morto há 453 anos, o alquimista previu grandes acontecimentos históricos

Reinaldo José Lopes Publicado em 02/07/2019, às 08h00 - Atualizado às 10h36

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O francês Michel de Nostredame (1503-1566) fez muita coisa ao longo de sua movimentada vida: estudou medicina, inventou seus próprios remédios, traçou o horóscopo de membros da realeza (entre vários clientes que tinha). Mas talvez seu maior talento tenha sido a capacidade de criar uma aura de mistério em torno de si mesmo.

Ao mudar seu sobrenome para Nostradamus (forma latinizada de Nostredame, que caía bem numa época em que a sabedoria da Antiguidade era redescoberta) e escrever centenas de versos enigmáticos que chamava de profecias, ele caiu nas graças dos poderosos de seu tempo e ainda cativa quase todo mundo que tenha uma quedinha pelo sobrenatural.

Para seus defensores mais ardorosos, o profeta anteviu todos os grandes acontecimentos da História entre sua morte e os dias de hoje, sem falar no que ainda aguarda a humanidade no futuro, claro.

A fama atual do vidente francês vem principalmente de Les Propheties (As Profecias), nome que deu à coletânea de suas previsões, quase todas escritas em quadras rimadas. Curiosamente, trata-se de uma forma poética que, em português, está mais associada a versinhos infantis, do tipo Batatinha quando nasce. A diferença é que cada um dos versos de Nostradamus tem dez sílabas, não sete, mas o tipo de rima alternada, com quatro versos no total, é o mesmo.

Por estarem reunidas, quase sempre, em grupos de 100, as quadras ficaram conhecidas também como As Centúrias. Ao todo, Nostradamus publicou exatamente nove conjuntos de 100 quadras e um décimo com 42 quadras.

Nostradamus / Crédito: Wikimedia Commons

 

Um erro de tradução, muito comum em português, fez com que os textos também fossem chamados de Os Séculos, provavelmente por influência da palavra inglesa centuries, usada para designar tanto centúrias quanto séculos. A primeira coletânea dos versos saiu em 1555 e foi sendo ampliada até a edição final, divulgada após a morte do autor, em 1568.

Escrito nas estrelas

Nostradamus defendia a possibilidade de estimar a ocorrência de eventos futuros com base na repetição da configuração dos astros em eventos passados. Grosso modo, se a disposição astral que anunciou a morte de um imperador ou uma invasão bárbara se repetir, é porque coisas assim vão acontecer de novo.

É possível identificar nas Centúrias influências de augúrios de várias fontes anteriores. O livro bíblico do Apocalipse é um caso óbvio, mas Nostradamus também teria se inspirado em textos de historiadores da Antiguidade, como o romano Suetônio, e nos do monge medieval Joaquim de Fiore.

O uso de datas não é frequente — quando elas aparecem, em geral é preciso esforço para achar uma correlação. Um dos exemplos mais famosos, que ilustra bem esse caráter genérico das previsões, é a quadra 51 da segunda centúria. Nela, o vidente diz: "O sangue dos justos será exigido em Londres/ Queimada pelos relâmpagos em três vezes vinte mais seis/ A dama antiga cairá de sua alta posição/ Muitos da mesma seita serão mortos".

A interpretação tradicional é que o texto se refere ao incêndio que devastou Londres em 1666 (multiplicando o número 20 por 3 e somando 6, temos 66), matando muitas pessoas inocentes (os Justos) e destruindo a Catedral de São Paulo, a dama antiga. O detalhe é que a catedral, até onde se sabe, nunca teve esse apelido.

Versões da quadra posteriores ao desastre substituíram Relâmpagos por Fogo, aparentemente no esforço de deixá-la mais verossímil. O mesmo ocorre na análise de outros versos. Ainda que tenha acertado, o profeta é tão genérico que até hoje ninguém conseguiu prever um acontecimento com base em sua obra. O que existe é a correlação após o fato.


Saiba mais

As Centúrias de Nostradamus Comentadas, Abner Macoto, Ivan Guimarães, 2003

Novas Profecias de Nostradamus, Erika Cheetham, Nova Fronteira, 1986