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As origens do "Coquetel Molotov": resistência, batizado e deboche

A bomba artesanal foi apropriada e difundida pelos finlandeses durante a guerra contra a URSS e seu nome tem origem em uma piada

André Nogueira Publicado em 11/04/2019, às 09h18

Finlandeses preparam atiradeira para lançar coquetéis contra o Exército Vermelho
Reprodução

O coquetel Molotov é, hoje, uma das mais famosas armas incendiárias utilizadas em protestos e revoltas populares e tem sua origem associada à Guerra de Inverno (início em novembro de 1939) -- importante conflito travado entre Finlândia e União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial.

O coquetel é uma mistura de praticamente três elementos básicos: 1 (ou mais) líquido altamente inflamável como gasolina, ácido sulfúrico, álcool, entre outros, 1 líquido não solúvel nesta mistura e que tenha alta adesão e grude no objeto atingido (esse item não é obrigatório, mas aumenta a eficiência da arma) – ambos dentro de uma garrafa de vidro - e 1 pano ou corda embebido no primeiro líquido que serve como pavio ao ser acesso. A ideia do coquetel é que, ao atingir o objeto mirado, a garrafa se quebre, espalhe o líquido inflamável do interior que entra em contato com o fogo do pavio e incendeie o alvo.

 

Esquematização do Coquetel molotov usado pelos finlandeses (Reprodução)

 

É muito difícil delinear com precisão a origem exata dessa arma. É possível ver o uso de objetos com a mesma estrutura pelas guerrilhas antifascistas durante a Guerra Civil espanhola, alguns anos antes do conflito na Finlândia. Ao mesmo tempo, também há relatos de bombas incendiárias parecidas usadas nas primeiras guerras coloniais. Porém, é na Finlândia que se define o que é essa arma, sua lógica e seu nome.

No início da Segunda Guerra Mundial, após a assinatura do pacto de não agressão entre URSS e Alemanha e a ocupação da Polônia, o exército soviético inicia um empreendimento de ocupação do território finlandês e expansão do território imperial. O Exército Vermelho, após anos do projeto stalinista de industrialização e desenvolvimento tecnológico, era incomparável ao frágil exército dos finlandeses. O uso de fortíssimos tanques blindados e armas automáticas de alto poder de impacto facilitou inicialmente a ocupação soviética e fez com que o exército finlandês procurasse formas de conter o avanço soviético e de produção de armamento antitanque.

Inspirados no “protótipo” desenvolvido pela resistência antifranquista de Toledo (Espanha), os finlandeses então começaram a testar o uso de armas incendiárias contra os tanques do Exército Vermelho e o resultado é um sucesso: a contenção da ocupação era possível. Em pouco tempo, o Exército da Finlândia começa a produzir em massa o coquetel e arma cada soldado com pelo menos um exemplar para que pudessem resistir aos soviéticos.

 

Soldado finlandês equipado com um Molotov (Wikimedia Commons)

 

No mesmo período, a resistência dos poloneses contra os soviéticos e os nazistas, inspirados no sucesso da arma na Finlândia, fizeram com que criassem armas parecidas, porém compostas com líquidos como éter e clorato de potássio, que não precisam do fogo para funcionar, mas sim do impacto contra o alvo.

E foi na Finlândia que essa arma recebeu o nome pelo qual será conhecida até hoje. A alcunha é uma referência ao Comissário do Povo para Relações Exteriores (como era denominado o ministério do Politburo) da URSS, Vyacheslav Mikhailovich Molotov. Como a Guerra de Inverno não tinha grande repercussão na época, a maioria das informações relativas à situação da Escandinávia durante a Segunda Guerra vinha dos pronunciamentos oficias via rádio do Kremlin, que declarava que a URSS não utilizava bombas contra o povo finlandês, mas enviava ajuda humanitária e alimento para a Finlândia.

Vyacheslav Molotov (Wikimedia Commons)

 

Essas declarações de Molotov geravam revoltas entre os finlandeses que, a partir de então, começaram a apelidar os bombardeios soviéticos como “cesta de pães do camarada Molotov” ("toverin Molotovin leivän kori", no original). Ao mesmo tempo, começaram a usar o sobrenome do comissário, em forma de ironia, para chamar as bombas lançadas contra os tanques soviéticos. Desde então, a arma carrega o nome-piada em referência a V. Molotov.