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Qual o papel da família real britânica nos dias atuais?

Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, o professor Elion Campos, doutorando em história social e professor nos cursos de História da faculdade Estácio, falou sobre a função da monarquia atualmente

Penélope Coelho Publicado em 19/05/2021, às 14h37

Fotografia da Família Real em 2016
Fotografia da Família Real em 2016 - Getty Images

“Deus salve nossa bondosa Rainha. Longa vida à nossa nobre Rainha. Deus salve a Rainha”, essas são as palavras que abrem o hino nacional britânico e fazem referência à monarca que está no poder a quase sete décadas, rainha Elizabeth II, de 95 anos.

Ao longo de uma história de longa data, que teve início entre os séculos 11 e 13, a monarquia continua sendo o sistema político inglês. Hoje em dia, com uma monarquia constitucional, o poder executivo é liderado pelo primeiro-ministro.

Por esse motivo, pode se tornar confuso entender qual o papel da rainha à frente da monarquia nos dias atuais. Para isso, é preciso compreender como Elizabeth II se encaixa nesse cenário.

Para entendermos melhor o assunto, o Aventuras na História entrevistou com exclusividade o professor Elion Campos, doutorando em história social e professor nos cursos de História da faculdade Estácio de Sá.

O papel da rainha 

Elizabeth II é a atual chefe de estado do Reino Unido, ou seja, “é ela que oficialmente nomeia os ministros de Estado, convoca o Parlamento, sanciona as leis e que é a comandante-em-chefe das Forças Armadas. Mesmo funções corriqueiras como emissões de alguns documentos oficiais, como passaportes são, em teoria, funções reais. As agências dos correios e as cabines telefônicas carregam símbolos reais”, afirma Elion.

Entretanto, o professor pontua que: “Na prática, hoje é totalmente diferente. A monarquia já concentrou muito poder no passado”.

“O governo é distribuído entre os três poderes, como em qualquer sistema republicano. O regime é monárquico, mas o funcionamento do sistema político é parlamentarista, portanto, o Primeiro-Ministro governa enquanto poder executivo, o Parlamento legisla e os juízes atuam no judiciário. A monarquia transmutou-se definitivamente em um símbolo”.

Contudo, o historiador reitera que mesmo simbolicamente, a monarquia tem sua importância. “Poderíamos dizer que ela [Elizabeth II] é a face do Estado Britânico. Não toma decisões, mas em alguns momentos, pode servir como uma espécie de blindagem para quem efetivamente exerce o poder. Não se pode ignorar isso”, afirma Elion.

Com isso, podemos concluir que hoje em dia, o papel da monarquia tem um elemento maior de identificação, do que político. “Muitos ingleses hoje consideram a monarquia um elemento identitário, de caráter nacional. Isso explica o fenômeno da mobilização popular, que surge em ocasião dos eventos relacionados à família real, em especial, os casamentos”, conta Campos.

De acordo com o historiador, nesse quesito, o papel dos outros membros da família real, como o príncipe Charles e príncipe William, não está muito distante daquele que é realizado pela rainha, mas, consequentemente, é feito em uma escala bem menor.

“Enquanto Elizabeth II está viva, a função dos seus parentes é a mesma que a sua, só que em graus cada vez menores, conforme as possibilidades de cada um/uma herdar o trono diminuem”, revela.

Rainha Elizabeth II, príncipe Charles, príncipe William e príncipe George / Crédito: Divulgação/Instagram/Ranald Mackechnie

 

Renda polêmica 

Atualmente, um dos pontos mais conflitantes sobre a família real britânica está relacionado à sua fonte de renda. O professor nos explica que os membros da monarquia não recebem um salário, mas, parte de sua renda provém dos cofres públicos, do dinheiro dos contribuintes.

“Grosso modo, funciona da seguinte maneira: há as propriedades da Coroa; há o Sovereign Grant (fundo ou subvenção soberana); há a Privy Purse (carteira privada ou propriedades da realeza); e há os investimentos pessoais da monarca. São essas as fontes de renda da família real”, explica.

Sabe-se que tais privilégios fornecidos para a família real trazem questionamentos por parte da sociedade britânica sobre "se, de fato, vive-se em uma sociedade de direitos iguais e liberdades individuais", como pontua o professor.

O historiador explica que tais questionamentos se tornaram ainda maiores para os britânicos, pelo fato dos rendimentos reais possuírem isenção fiscal.

“Não se paga um centavo, ou melhor, um penny de imposto por uma fortuna, que sustenta uma vida nababesca e que não é nem de longe a realidade do trabalhador médio britânico. Afinal, se todos são iguais perante a lei, essas propriedades deveriam ser consideradas como bens públicos. Aí está a raiz econômica dos questionamentos à manutenção da monarquia”, pontua Campos.

Adaptações para perseverar

Mesmo com as polêmicas e controvérsias, existem alguns elementos que explicam como esse sistema se mantém até hoje, mesmo com um papel político simbólico, como explica o professor de história.

Fotografia da rainha Elizabeth II / Crédito: Getty Images

 

Um dos principais pontos se refere à adaptação para as condições atuais da sociedade: “Por conseguir adaptar-se a diferentes realidades sociais, mantendo apoio de grandes parcelas da população e da elite política e econômica”, afirma Elion.

Muito se especula sobre o futuro da monarquia após a morte de Elizabeth II, que atualmente é a face desse sistema. Sabe-se que constantemente surgem dúvidas e teorias sobre uma possível queda da família real. 

O especialista explica que não é possível fazer previsões, já que esse não é o papel do historiador, mas, que é cabível “fazer certos prognósticos e ter expectativas”.

“Há uma tendência de aumento da oposição, pois esse mundo de privilégios e fantasias reais afasta-se cada vez mais da realidade da maioria da população britânica”, revela Elion. “Contudo, há também um considerável apoio popular, que pode declinar conforme a ocasião, mas que sempre permaneceu como considerável fonte de apoio”, pontua o professor.


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