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Quando Monteiro Lobato foi preso por criticar a tortura do Estado Novo

Recolhido ao presídio Tiradentes, ficou encarcerado de 20 de março a 17 de junho de 1941

Valentina Nunes Publicado em 02/07/2019, às 00h00

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- Reprodução

Monteiro Lobato não precisou da Academia Brasileira de Letras (ABL) para se tornar imortal. Eternizada em histórias e personagens que encantam o imaginário popular, como os lendários moradores do Sítio do Pica-pau Amarelo, sua obra é parte do legado do cidadão engajado politicamente, preocupado com questões essenciais para a soberania nacional.

Advogado, promotor público, produtor rural e empreendedor na época em que a indústria internacional do petróleo dava os primeiros passos, foram muitas as atividades paralelas do livreiro e escritor nascido em 18 de abril de 1882, em Taubaté, São Paulo, e que se tornou referência da literatura infantil.

A relação entre Monteiro Lobato e a Academia nunca foi das melhores. Em 1921, ele chegou a ser cogitado para a vaga de Pedro Lessa, mas abriu mão simplesmente porque não quis fazer as visitas de praxe para pedir votos. Foi derrotado na disputa à cadeira até então ocupado por João Luís Alves, em 1926, coincidindo com o lançamento de O presidente negro e How Henry Ford is regarded in Brazil.

Passada a eleição, escreveu ao presidente da República, Washington Luís, em defesa dos interesses da indústria editorial brasileira, sendo nomeado no ano seguinte para o cargo de adido comercial do Brasil nos Estados Unidos.

Na volta, fundou a Companhia Petróleos do Brasil e a Companhia Mato-grossense de Petróleo, em 1938, para exploração na fronteira com a Bolívia. O empreendedorismo nacionalista de Lobato mexeu com gente importante da política brasileira, personalidades do governo que defendiam os grandes grupos estrangeiros interessados na exploração das reservas nacionais de minério.

Enquanto teve forças, Lobato os enfrentou por meio de cartas, livros, artigos em jornais e entrevistas, na defesa das pesquisas e da extração das jazidas petrolíferas, e no investimento dos lucros em qualidade de vida para o povo brasileiro. Paralelamente, publicou histórias infantis e traduziu livros estrangeiros para sobreviver com a família.

Aceitou o convite da Academia Paulista de Letras e, em 1936, publicou o dossiê O escândalo do petróleo, com críticas ao governo “por não perfurar e não deixar que se perfure”. Irritado, Getúlio Vargas proibiu as vendas e determinou a apreensão de todas as edições.

Três anos se passaram até a criação da União Jornalística Brasileira, agência para distribuição de notícias a jornais, e a morte de seu terceiro filho, Guilherme. Na mesma época, enviou carta ao Ministério da Agricultura, precipitando abertura de inquérito sobre o petróleo. E recusou convite de Vargas para ser diretor do Ministério da Propaganda.

Em carta ao presidente, criticou a política nacional de mineração. Considerado subversivo, foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, acusado de desmoralizar o Conselho Nacional do Petróleo, e teve a prisão preventiva decretada. Foi recolhido ao presídio Tiradentes, e lá ficou encarcerado de 20 de março a 17 de junho de 1941. Em liberdade, continuou a ser perseguido, mas não deixou de denunciar as torturas da polícia do Estado Novo.

Em 1944, recusou a indicação feita por Cassiano Ricardo e Menotti Del Picchia à Academia Brasileira de Letras, para não conviver com Getúlio Vargas, escolhido em agosto de 1941. Monteiro Lobato morreu dormindo, em Tremembé, São Paulo, em 4 de julho de 1948, aos 66 anos.


Reportagem retirada do Livro 365 dias que mudaram o Brasil, da autora Valentina Nunes, Editora Planeta do Brasil, (p.170, 171).