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Quando o SBT foi protagonista na Globo

Como uma quase tragédia levou a uma grande peça pregada na emissora

José Renato Santiago Publicado em 23/09/2019, às 00h00

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- Crédito: Reprodução

A Copa João Havelange disputada em 2000, que posteriormente seria reconhecida pela CBF como o Campeonato Brasileiro daquele ano, foi envolvida em muita polêmica desde sua criação.

Por conta de a equipe do Gama, do Distrito Federal, ter entrado na Justiça, contra seu rebaixamento à série B no ano anterior, pelo confuso caso que envolveu o jogador do São Paulo Sandro Hiroshi, atleta que falsificou seu registro de nascimento, o que acabou salvando o Botafogo do Rio Janeiro da queda, e o STJD ter mantido a decisão contrária em favor de sua queda, a CBF ficou impedida juridicamente de organizar o Campeonato Brasileiro da primeira divsão sem a presença do Gama.

A solução encontrada foi que o Clube dos 13, entidade formada pelos maiores clubes do país, resolveu organizar a competição que reuniria 116 equipes, divididas em quatro módulos (azul, amarelo, verde e branco).

A fórmula de disputa adotada permitiria que times de diferentes módulos — na verdade, alguns já participantes das distintas divisões do Campeonato Brasileiro no ano anterior e outros convidados, segundo critérios muito particulares e convenientes aos dirigentes das federações estaduais — chegassem a disputar o título máximo.

Dentro dessa óptica o Campeonato Brasileiro daquele ano pode ser considerado como o maior de todos os tempos, superando o de 1979, que contou com 94 equipes na disputa pela conquista. Tal decisão acabou entrando para a História como uma grande “virada de mesa” diante dos vários acessos com que muitas equipes foram presenteadas, dentre elas Bahia e Fluminense.

Com tanta confusão, a final da competição não poderia deixar de seguir a este inusitado padrão. De um lado a equipe carioca do Vasco da Gama, que buscava o seu quarto título nacional, e do outro o surpreendente São Caetano, da cidade paulista homônima, que eliminara três gigantes do futebol brasileiro, Fluminense, Palmeiras e Grêmio.

Impossibilitado de atuar em seu estádio, o acanhado Anacleto Campanella, o clube mandou a primeira partida das finais no estádio do Parque Antarctica, pertencente ao Palmeiras, no dia 27 de dezembro. O empate por 1 a 1 manteve a decisão em aberto. A segunda partida foi marcada para o dia 30 no estádio de São Januário no Rio de Janeiro.

Com todos os ingressos vendidos, 33 mil, para uma capacidade máxima de 40 mil, o fato é que não se tinha ideia da quantidade real de pessoas presentes naquele dia no campo vascaíno, uma vez que não havia um único espaço vazio na torcida do Vasco, que era a única presente e fazia uma grande festa.

Em campo, no entanto, a partida estava bem equilibrada. Ainda que a equipe carioca, comandada pelo técnico Joel Santana, tivesse grandes nomes como Romário, Juninho Pernambucano e Juninho Paulista, o Azulão, como era conhecido o time paulista, não se intimidou e jogava de igual para igual, chegando até mesmo a acertar a trave da equipe cruz-maltina.

O jogo transcorria com certa normalidade, até que, aos 23 minutos do primeiro tempo, uma briga no meio da torcida vascaína acabou por provocar um tumulto na arquibancada e certo empurra-empurra que causou a queda de várias pessoas, umas sobre as outras, sob o alambrado, que não aguentou e caiu. Uma confusão generalizada se perpetuou no campo de São Januário, com ambulâncias e helicópteros socorrendo quase 200 vítimas que sofreram escoriações de vários níveis de gravidade.

Foi um verdadeiro milagre que ninguém tenha morrido por conta do fatídico acidente. As cenas pareciam com a de uma praça de guerra, com o campo de jogo ficando quase que plenamente ocupado pelas centenas de feridos. Preocupado com os desdobramentos que a interrupção da partida poderia provocar, o vice-presidente do Vasco, na verdade naquele momento a maior autoridade do clube, Eurico Miranda, tentou de todas as formas apressar a retirada dos feridos do campo para que o jogo pudesse ser reiniciado.

Pressionado, o então governador do estado, Anthony Garotinho, deu a ordem ao chefe da Defesa Civil, que acabara de autorizar o reinício da partida, para que o jogo fosse suspenso, o que irritou por deveras o dirigente carioca.

Aborrecido, e após chamar o governador de frouxo, Eurico mandou a equipe de volta ao gramado para que desse a volta olímpica como campeã, uma vez que o empate sem gols lhe garantia o título, pelo critério de ter marcado gol fora de casa, na primeira partida da final. Uma cena lamentável e, igualmente, constrangedora.

Discussões se sucederam nos dias seguintes, até que o STJD e o Clube dos 13 decidiram marcar uma nova partida a ser realizada em 18 de janeiro de 2001 no estádio do Maracanã, com entrada gratuita e limitada a 60 mil espectadores. Mas a surpresa maior ainda estava guardada para a entrada em campo do time vascaíno.

Irritado com as reportagens exaustivamente apresentadas em seus programas diários pela Rede Globo de Televisão, Eurico Miranda confeccionou um uniforme especial para o Vasco usar naquela ocasião. Sendo assim, os jogadores vascaínos entraram em campo com uma camisa que continha um logo do SBT, então segunda rede do país atrás da Globo, uma clara provocação à emissora carioca.

Pega de surpresa, a Globo tentou de todo jeito fazer a transmissão da partida em um plano aberto, de forma a dar menos destaque ao logo do SBT. Nas arquibacandas, os vascaínos gritavam “Ah, é Silvio Santos”, “Ão, ão, ão, é o jogo do milhão”, e “Ritmooooo, é ritmo de festaaaa”, em alusão aos programas produzidos pela emissora de Silvio Santos.

Em campo, a equipe carioca levou a melhor, foi campeã ao vencer o São Caetano por 3 a 1, com gols de Juninho Pernambucano, Jorginho Paulista e Romário, enquanto que Adãozinho marcou para os paulistas.

Após o jogo, ao ser perguntado sobre o uso da marca da emissora paulista na camisa do clube, Eurico Miranda, entre uma tragada e outra de charutos cubanos, destacou: “Essa vitória foi uma oportunidade que eu tive de prestar uma homenagem ao SBT. Eu vou colocar o SBT na camisa do Vasco, o SBT não me paga nada. Eu vou colocar o SBT permanentemente na camisa do Vasco”.

O SBT, preocupado com a repercussão da atitude vascaína, soltou nota no mesmo dia dizendo que repudiava a atitude e que sua marca não podia ser usada de forma indevida. No entanto, de forma prática mesmo, essa nota serviu apenas para se eximir da história, afinal naquele dia a marca do canal paulista foi exposta ao vivo durante 90 minutos de forma gratuita na sua maior concorrente para milhões de telespectadores.


Por José Renato Santiago, Doutor e mestre pela Escola Politécnica da Universidade de
São Paulo com pós-graduação pela ESPM. Autor de livros sobre a história do futebol, gestão do conhecimento e capital intelectual.