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Quando Osama Bin Laden era um heroico "guerreiro antissoviético"

Antes de ser considerado terrorista para a CIA e os EUA, Bin Laden era um importante aliado fundamentalista contra os comunistas no Afeganistão

André Nogueira Publicado em 27/11/2019, às 08h30 - Atualizado às 08h30

Osama Bin Laden foi um dos mais famosos líderes fundamentalistas islâmicos, nascido na Arábia Saudita em 1957
Osama Bin Laden foi um dos mais famosos líderes fundamentalistas islâmicos, nascido na Arábia Saudita em 1957 - Getty Images

Uma das figuras mais emblemáticas do século 21, Osama bin Laden tem sua formação ligada à Guerra Fria a aos esforços de guerra dos EUA. Ele é fruto da vitória dos mujahideen (guerreiros fundamentalistas) no Afeganistão, por influência direta dos EUA que lutavam contra os soviéticos.

Uma das demonstrações mais emblemáticas da imagem do fundamentalista antes do 11 de setembro de 2001 é a manchete lançada por Robert Fisk em 1993, no jornal The Independent, em que Osama era declarado “Guerreiro antissoviético” que “colocou o seu exército no caminho da paz”. Nesta época, Bin Laden era visto como um aliado dos interesses dos EUA, merecendo homenagens e tendo uma imagem positiva na visão dos americanos.

Crédito: The independent/Wikimedia Commons

 

Ainda em 1973, bin Laden era um jovem rico e nobre que entrou em contato com o fundamentalismo islâmico e, com a invasão russa de 1979, rapidamente se tornou um dos principais líderes sauditas no país (nascido de Riad, ele era amigo do príncipe e do chefe da inteligência da Arábia).

"Com o incentivo ativo da CIA e do ISI [Inter Services Intelligence] do Paquistão, que queriam transformar a jihad afegã em uma guerra global travada por todos os estados muçulmanos contra a União Soviética, cerca de 35.000 radicais muçulmanos de 40 países islâmicos entraram na luta do Afeganistão entre 1982 e 1992. Dezenas de milhares vieram estudar em madrasas paquistaneses. Eventualmente, mais de 100.000 radicais muçulmanos estrangeiros foram diretamente influenciados pela jihad afegã", afirma Ahmed Rashid, no artigo The Taliban: Exporting Extremism.

Acontece que os grupos mujahideenistas, que depois seriam responsáveis por ataques terroristas que chegariam nos EUA, só se fortaleceram o suficiente com a intervenção direta da CIA e financiamento dos yankees. Bin Laden era próximo do Talibã, que recebia dinheiro diretamente dos estadunidenses e sauditas, e até hoje há reais suspeitas de que a CIA manteve a Al-Qaeda até o final dos anos 1990.

Bin Laden posa com metralhadora para câmera de televisão / Crédito: Getty Images

 

Segundo John Cooley, escritor de “Unholy Wars: Afghanistan, America and International Terrorism", Osama bin Laden é um dos milhares de muçulmanos recrutados voluntariamente e financiados pela CIA no Paquistão com o objetivo de desenvolver uma guerrilha contra os comunistas no Afeganistão.

"Esse foi o ponto culminante de um longo flerte, que mais tarde se tornou um caso de amor entre os EUA e os extremistas muçulmanos, considerados então como os aliados número um do país na guerra contra o comunismo", depõe o autor.

O jornalista Steve Coll concorda com a posição. Ele escreveu ao Washington Post: "Em março de 1985, o Presidente Reagan assinou a Diretiva de Decisão de Segurança Nacional 166,… [que] autoriza a intensificação da ajuda militar secreta aos mujahideen, e deixou claro que a guerra secreta do Afeganistão tinha um novo objetivo: derrotar as tropas soviéticas. Afeganistão através de ações secretas e incentivar uma retirada soviética", em 1992.

Ronald Reagan em reunião com os mujahideen afegãos em 1983 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Diante desse cenário diplomático, no interior dos EUA, a produção midiática e a indústria cultural retratavam e abordavam os temas do islameismo e do Afeganistão com uma face atualmente irreconhecível. Uma das mais famosas e chocantes referências a essa abordagem é a cena final do filme Rambo III, em que se lê claramente: "aos bravos combatentes mujahideen".

Há ainda a versão “ao galante povo do Afeganistão”, e ainda se discute muito qual a versão original. De qualquer forma, a homenagem é a mesma: a resistência fundamentalista e anticomunista.

Uma das versões do final de Rambo III / Crédito: Carolco Pictures

 

Sabemos também que a figura de Osama bin Laden mudou sua imagem nos EUA no século 21. Antes um guerrilheiro contra o imperialismo soviético, o líder da Al-Qaeda logo se tornou inimigo dos EUA, que se tornaram responsáveis pela dominação do Oriente Médio a partir de então.

Osama guiaria ataques contra postos de dominação estadunidense e, depois, organizaria, depois de tanto ameaçar, os ataques que atingiriam as Torres Gêmeas, e quase o Pentágono e o Capitólio. Bin Laden se tornou o maior inimigo dos EUA (ironicamente), até sua morte em 2011 no Paquistão.


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2. Procurado: Do 11 de setembro ao ataque a Abbottabad, os dez anos de caça a Osama Bin Laden, de Peter L. Bergen - 

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