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Quando padarias paulistas boicotaram os produtos da Parmalat por patrocinar o Palmeiras

A parceria no campo resultou em prejuízo no mercado

Coluna - José Renato Santiago Publicado em 20/03/2021, às 10h00

Imagem meramente ilustrativa
Imagem meramente ilustrativa - Image by Michal Jarmoluk from Pixabay

Tradicional clube de futebol do Brasil e um dos mais vitoriosos do início da década de 1970, quando conquistou dois títulos brasileiros, em 1972 e 1973, e dois campeonatos paulistas, em 1972 e 1974, após a conquista do estadual de 1976 a Sociedade Esportiva Palmeiras entrou em um inédito período de jejum de 17 anos sem títulos.

Já era hora, então, de buscar formar equipes vencedoras. Empresa italiana fundada em 1961 na cidade de Collecchio, província de Parma, a Parmalat era uma grande empresa do segmento de produtos alimentícios, sobretudo laticínios, e tinha em seu planejamento estratégico o investimento no crescente mercado consumidor da América do Sul.

Não foi difícil identificar o futebol como um interessante meio para alcançar seus intentos. A proximidade do Palmeiras, cujo nome original era Palestra Itália, com a colônia italiana serviu para avalizar que naquele momento Palmeiras e Parmalat poderiam, juntos, tornar reais todos os seus anseios.

Em 1992, depois de negociações entre os presidentes Carlos Facchina Nunes, do Palmeiras, e Gianni Grisendi, da Parmalat, iniciou-se a parceria Palmeiras-Parmalat, em que a empresa italiana além de patrocinar a equipe assumia também toda a responsabilidade pela diretoria de futebol do clube, em um modelo de cogestão inédito no Brasil.

Com investimento maciço principalmente em contratações, o Palmeiras viveu em campo um dos períodos mais vitoriosos de sua História, marcado inicialmente pela conquista do
título paulista em 12 de junho de 1993, vencendo o arquirrival Corinthians, e depois com mais duas conquistas de campeonatos estaduais, dois torneios Rio-São Paulo, uma Copa do Brasil, uma Copa dos Campeões e uma Taça Libertadores da América.

O fanatismo de torcedores rivais, porém, começou a causar problemas comerciais para a Parmalat. Corintianos, são-paulinos e santistas boicotavam os produtos da marca, por entenderem que, ao comprá-los, contribuíam para o time rival.

Houve quedas nas vendas, mas nada ilustrou melhor a dura realidade do que as consequências do dia 15 de abril de 1995. O Palmeiras jogava contra a Portuguesa pelo Campeonato Paulista no Parque Antarctica. O jogo foi equilibrado no primeiro tempo, mas após o intervalo a equipe alviverde fez 3 a 0.

O grande nome palmeirense daquele jogo, o zagueiro Tonhão, não marcou gol, nem sequer teve grande atuação, mas um ato seu ganhou destaque fora do campo, após o final do jogo.

Dono de pouca habilidade técnica, mas com muita identificação com a torcida, Tonhão, depois de trocar camisa com um adversário, usou-a para limpar as chuteiras, jogou-a no chão e chutou-a para longe, levando ao delírio alguns torcedores palmeirenses.

No primeiro momento, a imprensa destacou o ato apenas como uma atitude inadequada de um jogador que estava com a cabeça quente após uma partida. Porém, Luís Iaúca, conselheiro da Portuguesa, dono de dez padarias e diretor do Sindicato das Panificadoras do Estado de São Paulo, afirmou que o gesto foi uma agressão a toda a coletividade portuguesa do estado, e que por isso caberia o boicote das padarias aos produtos Parmalat.

O presidente do sindicato na época, Francisco Pereira de Souza Filho, era palmeirense e não acreditou no boicote, mas muitos proprietários de panificadoras torciam para a Portuguesa e se mostraram dispostos a não vender os produtos da marca italiana.

Alarmados com a repercussão e eventuais prejuízos às receitas, a diretoria da Parmalat contatou o vicepresidente de futebol do Palmeiras, Seraphim del Grande, e condicionou a manutenção do contrato de Tonhão a um pedido público de desculpas nos órgãos de imprensa.

De imediato, o dirigente palmeirense ligou ao presidente da Portuguesa, Manoel Pacheco, para pedir desculpas e informou que o zagueiro faria o mesmo. Em 17 de abril Tonhão, diante da imprensa, afirmou ter tido uma atitude impensada, motivada pelo apedrejamento do seu carro por torcedores da Portuguesa na partida disputada anteriormente no Estádio do Canindé, e vencida pela Lusa por 2 a 1.

Partida em que Tonhão nem sequer atuou. A parceria Palmeiras-Parmalat acabou em 2000, e coincidiu com os maus momentos vividos pelas partes nos anos seguintes. Em 2002 o Palmeiras foi, pela primeira vez em sua História, rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro.

Já em dezembro de 2003, a Parmalat decretou falência, e o ex-presidente Grisendi foi condenado por crimes cometidos contra o sistema financeiro brasileiro justamente no período da parceria com o time.

Antônio Carlos da Costa Gonçalves, o Tonhão, depois que saiu da equipe alviverde, em 1996, passou por mais de dez times, até “pendurar as chuteiras” em 2003. E os portugueses continuam donos da maior parte das panificadoras do estado de São Paulo.


Por José Renato Santiago, Doutor e mestre pela Escola Politécnica da Universidade de
São Paulo com pós-graduação pela ESPM. Autor de livros sobre a história do futebol, gestão do conhecimento e capital intelectual.


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