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Quase terminou em desastre: o dia em que Johnny Cash se apresentou na Casa Branca

O show foi parte de um plano de Nixon para conquistar o apoio do sul dos Estados Unidos, todavia, não saiu como esperado

Isabela Barreiros Publicado em 04/10/2020, às 08h00

Richard Nixon e Johnny Cash em 1969
Richard Nixon e Johnny Cash em 1969 - Divulgação

Johnny Cash era conhecido tanto por sua música, que representou a alma do homem do faroeste estadunidense, quanto por seus posicionamentos políticos, os quais ele não escondia de maneira alguma. A partir de sua carreira de sucesso, suas opiniões passaram a ter uma enorme relevância nos Estados Unidos e a influenciar muitos americanos.

E o então presidente do país, Richard Nixon, sabia disso. Percebendo que talvez o homem pudesse trazer apoio às ações tomadas por seu governo, que estava lidando com a controversa Guerra do Vietnã, ele planejou uma estratégia ardilosa. Foi essa história que o documentário da Netflix ReMastered: Tricky Dick & the Man in Black (2018) contou em quase uma hora de produção.

O plano

Na década de 1960, os Estados Unidos estavam passando por uma grande crise, principalmente social. A Guerra do Vietnã dividia a população, e parte apoiava o conflito enquanto outra não acreditava em sua necessidade. Era um período complexo, e essa tensão era observada por Nixon e seu gabinete.

No mesmo período,Johnny Cash estreava o The Johnny Cash Show, seu programa de variedades na televisão. Durante uma programação, porém, o cantor fez uma declaração de apoio aos soldados que lutavam pelo país, o que, de uma forma ou outra, significava ao menos uma inclinação ao presidente.

Sabendo da influência do artista, aproveitou o momento e decidiu montar uma estratégia para que Cash o trouxesse o apoio que precisava do sul dos Estados Unidos. Como um nome carismático e relevante, representando a alma sulista do país, Nixon pensou que ele poderia ajudá-lo nessa sua necessidade. 

Para conquistar seu público alvo, os conservadores, o político decidiu convidar o homem também conhecido como Man in Black para um pequeno show na Casa Branca. E ele aceitou — diz-se que até mesmo os pedidos de música do governante. Nixon questionou se o cantor poderia apresentar "Okie from Muskogee", uma canção representativa do sul do país, e "Welfare Cadillac", crítica a estadunidenses que recebem pensões do governo.

Isso aconteceu no ano de 1969. O presidente realmente pensou que poderia atrelar Cashcom as pessoas que estava tentando alcançar. No entanto, ele não contava com a imprevisibilidade do cantor, que poderia romper com o combinado a qualquer momento. Foi exatamente isso que ele fez.

O encontro

Crédito: Divulgação

 

Quando o destino das duas figuras, quase opostas, se cruzou, o resultado foi repleto de tensão. Embora o artista tivesse concordado em cantar as músicas sugeridas — podemos dizer até mesmo “escolhidas — pelo político, ele não seguiu adiante com o plano pré-estabelecido. 

Na verdade, o que ele fez foi praticamente o contrário: ele apresentou canções que podem ser consideradas críticas aos valores estabelecidos pelo então governo do país, que estava levando a Guerra do Vietnã à diante. Caso os agentes de Nixon tivessem feito sua lição de casa, saberiam que Cash tinha um posicionamento antiguerra.

Isso ficou claro com as escolhas na setlist do Man in Black. Ele decidiu apresentar três músicas: "The Ballad of Ira Hayes”, "Man in Black" e "What is Truth". Na primeira, já era possível perceber o clima tenso que se estabelecia na Casa Branca. 

A letra contava a história de um nativo-americano que sofreu preconceito após servir no Exército dos EUA. A partir dela, era possível perceber, também, que o artista apoiava o direito dos indígenas do país, o que ia de encontro com os interesses de muitos sulistas americanos, o público-alvo de Nixon

No entanto, foi a última que causou a maior polêmica na apresentação do cantor. Foi quando ele deixou claro seu posicionamento contrário a guerras no geral, mas também especificamente ao conflito que estava sendo travado no Vietnã. Cash não precisou ao menos fazer confusão para demonstrar que era contra aquilo que o presidente estava pregando.

O plano controverso poderia ter se transformado em tragédia, mas Johnny decidiu manter a classe na residência do governante e se opor a ele apenas através da letra de suas músicas e declamações ao longo da performance. A guerra só terminou cinco anos depois, mas é possível dizer que a atitude do astro fez com que muitos estadunidenses pedissem o fim do conflito.


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