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Quase um messias: A saga de Antônio Conselheiro, líder da Revolta de Canudos

O peregrino liderou um grande número de pessoas na revolta, que resultou em um dos maiores massacres populares da história do Brasil

Giovanna de Matteo Publicado em 21/11/2020, às 09h00

A Revista Ilustrada, de Angelo Agostini, retratava Antônio Conselheiro de forma caricatural, tentando "barrar" a República.
A Revista Ilustrada, de Angelo Agostini, retratava Antônio Conselheiro de forma caricatural, tentando "barrar" a República. - Wikimedia Commons

Antônio Vicente Mendes Maciel veio de uma família de comerciantes do século 19. Sendo bem instruído e estudado, recebeu uma formação cultural muito privilegiada para a época.

Quando adulto, trabalhou primeiramente como professor; depois serviu como escrivão de cartório até o momento em que foi surpreendido ao acordar em sua casa sozinho, e perceber que sua esposa tinha o abandonado e fugido.

A partir dessa tragédia, o homem passou a peregrinar pelas terras secas do Ceará, passando também por outros estados do Nordeste do Brasil, na esperança de encontrar sua mulher. Para se sustentar durante suas viagens, acabou desenvolvendo um novo ofício, e começou a trabalhar como pedreiro em igrejas, capelas e cemitérios. 

Nas paradas entre uma obra e outra, conheceu outro peregrino, o Padre Ibiapina, homem que lhe ensinou sobre o evangelho, o cristianismo e a caridade, e que virou uma de suas maiores influências de vida.

Antônio passou a acompanhar o Padre Ibiapina e, em conjunto, os dois começaram a fazer pregações por todos os lugares que passavam, visitando as pessoas carentes e aconselhando-as. Desse modo, ele se tornou famoso entre a população humilde, foi quando o nome Antônio Conselheiro nasceu — e assim ficaria conhecido na História.

Ilustração de Antônio Conselheiro / Crédito: Wikimedia Commons

 

O cristianismo que Ibiapina e Conselheiro pregavam tinham suas raízes no trabalho dos jesuítas, e eram baseadas nos ensinamentos de Cristo e deSão Francisco de Assis. Sendo suas maiores características a expressão de messianismo, a caridade e a mudança radical de vida.

Ao longo do tempo, o movimento de peregrinação cresceu, e Conselheiro assumiu o posto de grande líder espiritual para seus seguidores, que largaram suas vidas para acompanhá-lo em suas andanças. Com isso, os latifundiários e padres das regiões perderam trabalhadores e fiéis. Antônio despertou neles uma certa frustação, começando a ser perseguido pelas autoridades.

Em 1876, foi acusado de ter matado a sua mulher, em seguida, foi levado para a prisão. No entanto, alguns de seus seguidores — habitantes da Vila de Itapicuru de Cima, no sertão baiano — se revoltaram com a sua condenação, e espalharam a mensagem de Conselheiro, que passou a ser considerado um mártir.

Depois dos tumultos, ele foi absolvido e libertado, e logo iniciou uma nova peregrinação, que durou mais de dezessete anos, onde continuou recrutando cada vez mais pessoas para a sua "seita". 

Até que em 1893, aquela multidão de pessoas se estabeleceu em uma fazenda abandonada, na região de Canudos. Por ali eles fundaram o "Arraial de Canudos", que estima-se ter chegado a ter entre 15 e 25 mil habitantes, que se intitulavam como o "povoado de Belo Monte". 

Essa comunidade se reuniu de uma forma auto-sustentável e o trabalho foi dividido em funções justas entre as pessoas. A independência do lugar provocou na região um problema comercial, já que grande parte das pessoas pararam de trabalhar nas fazendas, e não mais consumiam os produtos da cidade.

Os confrontos começaram quando a polícia foi enviada ao local, e os fiéis, que eram muito mais numerosos, se organizaram para combater os intrusos. O culto então se tornou uma ameaça ao poder republicano. Os governantes perceberam o quão poderoso aquele grupo estava se tornando, e o quão difícil seria para derrotá-los.

A Revolta de Canudos

Seguidores de Antônio Conselheiro, presas durante os últimos dias da guerra / Crédito: Wikimedia Commons

 

A partir das ordens dos governantes, foram enviadas para Canudos quatro campanhas militares, que duraram entre 1896-1897. As três primeiras enviadas para a região contavam com milhares de soldados, que saíram derrotados pelos rebeldes de Belo Monte.

No entanto, os fiéis não foram capazes de conter a quarta expedição, que acabou com todo o vilarejo, e que hoje é reconhecida como uma das revoltas populares mais sangrentas em toda a história do Brasil, que resultou num massacre dos seguidores de Conselheiro.

A única foto conhecida de Antônio Conselheiro, líder espiritual do arraial de Canudos, tirada duas semanas após sua morte, pelo fotógrafo Flávio de Barros  / Crédito: Wikimedia Commons

 

Não se sabe muito bem quando Antônio veio a falecer. Alguns dizem que sua morte ocorreu em meio as batalhas contra os militares, outros, entretanto, acreditam que o seu fim veio em decorrência de uma disenteria, antes que o Arraial de Canudos fosse totalmente exterminado.

A  Guerra de Canudos é um dos episódios mais marcantes da história do Brasil, e foi registrada no livro icônico de Euclides da Cunha, chamado “Os Sertões”.


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