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"Que o pavilhão se lave no teu pranto" — Há 148 anos, morria Castro Alves

O Poeta dos Escravos nos deixou cedo demais, mas sua obra segue viva e eterna

Valentina Nunes Publicado em 06/07/2019, às 22h00

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Parecia improvável, mas, apesar de Antônio Frederico de Castro Alves, o Poeta dos Escravos, ter crescido cercado dos cuidados dos pais, o médico Antônio José Alves e a dedicada dona de casa Clélia Brasília, nem mesmo o belo rapaz de porte esbelto, grandes olhos, vasta cabeleira negra e voz arrebatadora foi poupado pelo Mal do Século, a tuberculose.

Castro Alves é o patrono da cadeira sete da Academia Brasileira de Letras, mas o resgate e a preservação de sua obra se devem ao esforço pessoal de Rui Barbosa, amigo de infância, e como resultado de ampla campanha pela libertação dos escravos, consolidada a partir de 1881. Alguns anos mais tarde, durante a gestão de Afrânio Peixoto à frente da ABL, a produção literária do poeta foi reunida em dois volumes, Relíquias e Correspondência. Em 1947, o Instituto Nacional do Livro, vinculado ao antigo Ministério da Educação e Cultura, coordenou comemorações do centenário do nascimento de Castro Alves com uma exposição que resultou em publicação.

O poeta que desafiou os senhores de escravos nasceu em 14 de março de 1847 na fazenda Cabaceiras, a 42 quilômetros da vila de Nossa Senhora da Conceição de Curralinho, pequena cidade do interior baiano rebatizada, na atualidade, com seu nome. Órfão de mãe aos doze anos, foi criado na adolescência pela madrast, Maria Rosário Guimarães, que, como o pai, o estimulou na leitura e nos estudos. No colégio, onde foi colega de classe de Rui Barbosa, encontrou a atmosfera literária produzida por saraus, festas de arte, música, poesia e declamações de versos. O pai morreu em 24 de janeiro de 1862, quando já moravam no Recife, que efervescia com os ideais republicanos. Castro Alves escreveu as primeiras poesias aos dezessete, quando surgiram os sintomas da tuberculose.

Em 1863, o poeta publicou "A Primavera", primeiro poema contra a escravidão. Naquele ano, ainda no Recife, conheceu a atriz portuguesa Eugénia Câmara, que veio se apresentar no Teatro Santa Isabel, dez anos mais velha, e se apaixonaram. Em 1864, ingressou na Faculdade de Direito do Recife, participando ativamente da vida estudantil e literária, mas voltou para a Bahia no mesmo ano.

Já acometido pela tuberculose, retornou ao Recife com o amigo Fagundes Varella, em 1865, quando chegou a planejar estadia em Caetité, onde moravam seus tios e o avô materno. Sua intenção era desfrutar do clima saudável da cidade. Antes, porém, foi para São Paulo e, naquele ano, saiu para caçar de espingarda no bosque do Brás. Acidentalmente, deu um tiro no próprio pé esquerdo. O resultado foi uma longa infecção que levou a amputação no Rio de Janeiro, em 1869. A cirurgia feita sem anestesia reproduziu o sofrimento físico comparável ao que eram submetidos os escravos que defendia com lirismo e indignação. Em 31 de outubro, mutilado, despediu-se de Eugénia Câmara no Teatro Fênix Dramática e, em novembro, foi para Salvador em busca do consolo da família e dos bons ares do sertão.

Romântico e abolicionista, admirado e desejado em iguais proporções, Castro Alves morreu jovem demais, aos 24 anos, por volta das três da tarde do dia 6 de julho de 1871, no solar da família localizado no bairro Sodré, em Salvador, cinco meses depois da última aparição em público para prestigiar um recital beneficente.

Reportagem retirada do Livro 365 Dias Que Mudaram o Brasil, da autora Valentina Nunes, Editora Planeta do Brasil.